Anja Ringgren Lovén celebra recuperação e evolução do menino que foi resgatado à beira da morte há dois anos em aldeia da Nigéria

Hope brincando com o filho de Anja após ter alta do hospital (E) e sentados na hora do lanche (D) recentemente

 

Hope, de 4 anos, tem uma história inspiradora e digna de celebrações. Resgatado há dois anos em uma aldeia da Nigéria, sua imagem esquelética rodou o mundo. O menino, que havia sido abandonado pela família pela falsa crença de que portava o mal dentro de si, estava à beira da morte. Hoje, sua imagem é outra. Esbanja saúde e felicidade, como mostram as fotos publicadas por Anja Ringgren Lovén, sua salvadora, em seu perfil no Facebook.
“Hoje quero celebrar a esperança. Quero celebrar as pessoas responsáveis pela sua sobrevivência. A sua recuperação extraordinária. As pessoas que o fizeram se tornar um aluno saudável, forte, maroto, inteligente e feliz”, escreve Anja. A dinamarquesa, junto com o marido nigeriano David Emmanuel Umem, dirige a ONG DINNødhjælp, Fundação para a Ajuda, a Educação e o Desenvolvimento das Crianças Africanas (Acaedf na sigla em inglês).

Anja explica que em 30 de janeiro de 2016 saiu com o marido e integrantes da sua equipe em uma missão de resgate que iria mudar suas vidas para sempre. Em 31 de janeiro daquele anos publicava as fotos do menino que haviam resgatado. “O nome dele é Hope. Ele sobreviveu”, comemora, ao agradecer a todos que a ajudaram de lá para cá. E continua: “Estas 40 fotos mostram a incrível transformação da esperança desde o dia do resgate até hoje. As palavras não são suficientes. As fotos vão, um por um, contar a sua história”.
REALIDADE CRUEL – Hope foi vítima de uma crença que faz muitas outras crianças padecerem maus tratos e abandono na Nigéria por serem acusadas de “bruxos”. Muitas delas acabam morrendo, invisibilizados em uma sociedade que compactua com os atos de violência.

A emblemática foto de 30 de janeiro de 2016, quando Anja resgatou Hope, que perambulava famélico pela rua sem que ninguém lhe desse atenção

No dia do resgate, Hope perambulava na pequena aldeia de Akwa Ibom, no sul da Nigéria, a uma hora e meia da capital Uyo. Anja havia saído pela manhã do orfanato que mantém na periferia de Uyo, após o chamado de um informante que dera notícias de uma menina de 8 anos abandonada por ser considerada “bruxa”. Neste dia, estava acompanhada por uma equipe da produtora dinamarquesa Sand TV, formada pelo jornalista Jeppe Sig e a cinegrafista Anne Isbak, que gravava um documentário para a rede de TV DR2 sobre o trabalho de Anja.
Nos dedos da mão esquerda tem gravadas as letras da palavra hope, que significa esperança em inglês, mas também as iniciais de seu lema: Helping One Person Everyday (Ajuda a uma pessoa a cada dia).
No local indicado, os homens que exercem a função de chefes do povoado receberam Anja e a equipe com hostilidade. Saíram dali decepcionados sem localizar a garota. O jornalista Jeppe Sig recorda de na volta receberam informações sobre um menino abandonado e partiram para a nova busca numa aldeia próxima.
Ali encontraram Hope, que sobrevivia na rua há 8 meses. “O mais horrível é que as pessoas conheciam o menino e o ignoravam. Imagine uma criança de dois anos vivendo noite e dia na rua, se alimentando das sobras que conseguia encontrar”, conta Anja.
Ela diz que ao princípio o garoto olhou para ela. Não falava nem emitia qualquer som. “Para chamar a atenção começou a dançar. Era seu último esforço. Depois disso caiu”, detalha Jeppe Sig. Foi então que Anja levantou o garoto, pegou água e lhe deu para beber, como ficou imortalizado na foto feita pelo voluntário Martin Nilsson.
Depois pegou o menino nos braços e lhe envolveu numa manta. Na ocasião, Anja descreveu que o olhar de Hope parecía de alguém que sofreu séculos de guerra. Para levar o garoto, foi necessário pedir autorização ao chefe da aldeia. “Lhe demos dinheiro para o whisky ou o que seja para que não frustrasse a missão”, explica Jeppe Sig.
Foi então que Anja decidiu batizá-lo: Hope, como está escrito na tatuagem em seus dedos. Internado num hospital público de Uyo, o pequeno teve que submeter-se a transfusões de sangue para reposição de glóbulos vermelhos. Ele tinha o intestino infestado de lombrigas.
“Ele estava nu, não falava e tinha força para manter-se em pé. Estava condenado a morrer na intempérie por ser considerado um menino bruxo”, conta Anja. Que no dia seguinte escreveu em seu Facebook: “Tenho testemunhado casos semelhantes nos últimos anos aqui na Nigéria. Estas imagens mostram porque luto”, completou.
TRAJETÓRIA – Anja, que é ateia, saiu da Dinamarca rumo à Nigéria deixando para trás o trabalho em uma loja de roupas e vendendo tudo que tinha. Hoje dirige um orfanato na periferia capital Uyo junto com o marido, com quem tem um filho. Lá cuidam de outras crianças, muitas delas também marcadas pelo estigma de serem “bruxos”.

Hope ganhou peso e como toda criança tem muitos sonhos

Hope se recupera rápido. No último dia 2 de fevereiro, depois de uma visita ao hospital, Anja escreveu em seu perfil: “Vê-lo se sentar e brincar com meu próprio filho é a maior experiência da minha vida. Isso é o que faz a vida tão bonita e valiosa”.
As fotos publicadas por Anja mostram uma evolução incrível de Hope, que vai à escola, brinca com os amigos, se alimenta, como debe ser com uma criança de sua idade.
Celebremos à vida, celebremos a Hope, celebremos à Anja e a pessoas que como ela dão sentido à palavra esperança.

Nos links abaixo leias os textos publicados sobre Hope aqui:

Hope: Um sopro de esperança para as crianças bruxas da Nigéria

Menino Esperança começa escola um ano após ser resgatado na Nigéria