Ataque dos Estados Unidos, França e Reino Unido à Síria desenha cenário tenebroso para população civil no país onde mais de meio milhão de pessoas foram mortas em sete anos 

Céu de Damasco durante ataque com mísseis comandado por Donald Trump. Mais de cem mísseis foram lançados na madrugada do sábado contra prédios onde supostamente se produziam armas químicas

O ataque dos Estados Unidos, França e Reino Unido à Síria, na madrugada do sábado, não deve alterar o curso da guerra que em sete anos já matou mais de meio milhão de pessoas. Isso porque as três potências deixaram claro que não buscam derrocar o governo do ditador Bashar al-Assad nem tampouco interferir na guerra civil, objetivando somente reduzir o arsenal de armas químicas do país.

Segundo os rebeldes e políticos de oposição a al-Assad, se esperava mais dos três países ocidentais, que ao seu ver deveriam alvejar também os arsenais comuns do governo sírio. A ofensiva, para eles, servirá apenas para fazer com que as investidas contra a resistência ao regime sejam ainda mais devastadoras.

Desta maneira, os que mais sofrerão as consequências serão os civis que ainda vivem nas áreas de conflito. Que além da esperada represália do governo sírio, agora se vêem também entre o fogo cruzado entre Estados Unidos, liderados por Donald Trump, e Rússia, por Vladimir Putin, numa escalada de tensão que não se pode prever onde vai parar.

O ataque contra o regime sírio foi uma reação pelo suposto uso de gás de cloro contra a população civil da cidade de Duma, perto de Damasco, que teria matado 75 pessoas no último dia 7 de abril, a maioria mulheres e crianças. “Essa malvada e desprezível agressão não é obra de um homem, foram os crimes de um monstro”, declarou o presidente dos EUA, Donald Trump, em um discurso no qual prometeu manter a pressão até que a Síria abandone o uso de agentes proibidos. A represália, apresentada como um “golpe de precisão” contra alvos militares e centros de produção e armazenamento de armas químicas, ecoou além das terras sírias. Trump mostrou tanto à Rússia como ao Irã, aliados de Bashar al-Assad,  que os EUA, sob seu comando, não hesitam: abrem fogo. “Missão cumprida”, celebrou em seu Twitter nesta manhã.

A reação da Rússia e do Irã marcará o futuro da região mais instável do planeta. Um vulcão engolfado pela violência onde entram diariamente em choque os interesses das grandes potências.

Os números da guerra civil na Síria são desoladores. Balanço do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, divulgado em Marc, revela que das 511 mil vítimas, 353.935 foram identificados, sendo 106.390 civis (incluindo 19.811 menores e 12.513 mulheres). As forças de Bashar al-Assad e seus aliados são responsáveis por 85% das vítimas civis. O Observatório, com sede no Reino Unido, contabilizou pelo menos outros 155.000 mortos com identidade desconhecida. Também em março, o UNICEF (órgão da ONU para a infância) informou que os dois primeiros meses deste ano foram os mais mortíferos para as crianças sírias, com mais de 1.000 mortos e feridos.

As tropas regulares sírias e as forças aliadas sofreram, segundo o Observatório, o maior número de baixas, com 34,5% do total identificado. Entre eles havia 63.820 militares, 48.814 milicianos sírios, 1.630 membros do partido-milícia libanês Hezbollah e outros 7.686 estrangeiros xiitas. Os grupos jihadistas vinculados à Al Qaeda e ao Estado Islâmico sofreram 18% das mortes identificadas, ao passo que 17,5% das vítimas pertenciam às fileiras dos diversos grupos insurgentes laicos que lutam no país (incluindo as forças curdo-sírias). Essa fonte observou que a contagem não inclui 45.000 civis mortos por torturas em centros de detenção governamentais.

REFUGIADOS – Nestes sete anos, 5,6 milhões de sírios procuraram refúgio fora do país, incluindo 2,6 milhões de crianças e adolescentes, principalmente nos países vizinhos. Além disso, 6,1 milhões de sírios se tornaram refugiados internos sendo 2,8 milhões de menores. Há atualmente no país 13,2 milhões de pessoas precisando de ajuda humanitária, dos quais 5,3 milhões são crianças, incluindo 200.000 em zonas sitiadas e 1,2 milhão em outras zonas de difícil acesso, segundo o UNICEF.

Das frentes de combate ativas atualmente, a da Guta Oriental, o principal reduto rebelde, é claramente o mais mortífero para os civis. Segundo as fontes, entre 165.000 e 400.000 pessoas estão retidas ali. Desde 18 de fevereiro, quando a aviação síria intensificou a ofensiva contra esses subúrbios da capital, mais de 1.000 civis perderam a vida, e quase 5.000 ficaram feridos, segundo dados da ONG Médicos Sem Fronteiras.

Depois de sete anos de guerra, meio milhão de mortos e milhões de deslocados, o que se pode dizer com precisão é que Síria se tornou uma terra sem lugar para a esperança.