Deputado Quim Torra não conseguiu a maioria absoluta neste sábado, obtendo 66 votos a favor e 65 contra e quatro abstenções da CUP. Com isso, se submetrá a nova votação na segunda-feira, quando posicionamento da sigla antissistema será crucial para ser eleito presidente da Catalunha

O candidato à presidência da Catalunha, deputado Quim Torra, fez um discurso contundente na sessão de investidura realizada neste sábado (12), no qual convocou Espanha e União Europeia (UE) ao diálogo, mas sem renunciar ao projeto de uma república independente. Se dirigindo ao presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, que há seis meses mantém o território sob interveção, e ao presidente da UE, Jean Claude Juncker, dissse que “a crise catalã não pode durar nem um segundo mais”.

“Isso não é possível na Europa que desejamos, na democracia que esperamos e na terra dos direitos humanos e civis que sonhamos”, ressaltou, numa referência aos presos políticos, aos exilados e à caçada judicial que está em cursos contra políticos, instituições e cidadãos que defenderam o referendo de 1 de outubro. A Rajoy pediu que se sente para negociar. “Estamos dispostos a falar amanhã mesmo, temos necessidade de reconduzir à política à política. Não renunciaremos a nada, nem a dialogar”, destacou. 

Ao rei Felipe VI, apelou a que se recorde das palavras que pronunciou em discurso realizado em 21 de abril de 1999, no qual disse: “Catalunha será o que os catalães queiram”. Para em seguida acrecentar: “Majestade, assim não!” A Juncker recordou que o povo catalão espera uma mediação europeia neste momento em que há dirigentes políticos e sociais que enfrentam processos judiciais que podem culminar com penas de 30 anos de prisão.  

Torra se comprometeu a trabalhar pela república e a constitução catalã de maneira incansável, sublinhando a provisionabilidade do governo que encabeçará e a excepcionalidade do momento. O deputado  abriu o discurso falando que quem deveria estar ocupando o seu lugar na tribuna seria o presidente cessado, Carles Puigdemont, que venceu as eleições de 21 de dezembro legítimamente e foi impedido pela justiça espanhola de submeter-se ao pleno de investidura.

Com isso, lembrou que o governo da Espanha, com apoio do Tribunal Constitucional já impediu a investidura de outros dois deputados, Jordi Sánchez e Jordi Turull, e frisou que lutará pela libertação dos presos políticos e pela volat dos exilados. “Nada será normal a casa nossa até que recuperemos as instituições e a democracia”, alertou.

O deputado garantiu que Juntos por Catalunha, grupo político que integra com Puigdemont, não se moverá da vontade de investir o presidente cessado, que atualmente se encontra no exílio. “Persistiremos, insistiremos e o investiremos”, frisou, ao dizer que é necessário colocar em marcha um governo forte para encarar o proceso de transição.

Também prometeu impulsionar um proceso constituinte com participação da cidadania e explicou que pretende montar uma estrutura de governo que inclua uma Assembleia de Cargos Eleitos no Interior, o Conselho da República e o Espaço Livre de Bruxelas. Destacou ainda a necessidade de combater o corte de competências e a intervenção das finanças promovida pelo governo espanhol com a interveção.

VOTAÇÃO – O discurso de Torra abriu o debate de investidura na manhã deste sábado no Parlamento da Catalunha, que corre contra o relógio para escolher um novo presidente do governo, uma vez que o prazo para que se convoquem novas eleições esgota dentro de poucos dias. O primeiro desafio do deputado é conseguir os votos suficientes para ser investido na próxima sessão, marcada para a manhã da segunda-feira (14).

Na votação realizada após os discursos dos líderes dos demais partidos e das rélicas, Torra não conseguiu a maioria absoluta de 68 votos dos 135 deputados por conta da abstenção de quatro votos do partido antissistema CUP. O deputado obteve 66 votos a favor e 65 contra. A sigla independentista se absteve porque defende que os soberanistas desobedeçam a justiça e invistam Carles Puigdemont e que façam a efetivação da república imediatamente, recahçando a possibilidade de um governo autonomista e submisso a Madri.

Na votação da próxima segunda-feira, apenas com maioria simples, ou seja com os mesmos 66 votos, Quim Torra pode ser eleito. Contudo, a CUP ameaça votar contra, o que frustraria a investidura. Isso forçaria novas eleições, uma vez que vencido o prazo para elegir um presidente, a lei manda que o Parlamento da Catalunha se dissolva e seja realizado novo pleito. A decisão de se manterá a abstenção ou votará contra será tomada pela CUP em assembleia de seus integrantes na manhã deste domingo.