Missão do deputado de Juntos por Catalunha é complexa: abrir o diálogo com o governo espanhol após intervenção de seis meses e ao mesmo tempo manter compromisso de implementar a república proclamada em outubro passado

O deputado do Juntos por Catalunha, Quim Torra, foi eleito nesta segunda-feira presidente da Catalunha por maioria simples na segunda sessão de investidura. Com 66 votos a favor (do seu grupo e de Esquerda Repúblicana), 65 contra (PP, Ciudadanos, Catalunha Podem e PSC) e quatro abstenções (CUP), o advogado, escritor e historiador de 56 anos substitui o presidente cessado, Carles Puigdemont, que está no exílio e foi impedido de ser investido pela justiça espanhola mesmo tendo vencido as eleições e não estar com os direitos políticos cassados.
Torra assume o governo catalão cinco meses depois das eleições de 21 de dezembro, nas quais os independentistas ganharam a maioria e a uma semana de exaurir o prazo de 22 de maio para que o parlamento se autodissolvesse e fossem convocadas novas eleições.
A missão de Torra é complexa. Partidário de implementar a frustrada república proclamada em 27 de outubro de 2017 e defensor da liberdade dos presos políticos e a volta dos exilados, defende o diálogo com a Espanha. Por isso se comprometeu a buscar entendimento com o primeiro ministro Mariano Rajoy, que há seis meses mantém o territorio sob interveção e vem empreendendo uma repressão sem precedentes contra políticos, entidades e cidadãos catalães
Torra também se comprometeu a buscar a medição da União Europeia, que até agora se manteve distante com a justificativa de que o caso catalão se trata de um assunto interno do governo espanhol.
No discurso de investidura, no qual se comprometeu governar para todos os 7,5 milhões de catalães, Torra foi enfático com os objetivos independentistas. Pessoa de confiança de Puigdemont, disse que será leal ao mandato das urnas do referendo de um de outubro e que trabalhará por liberdade, justiça e república.
Torra foi investido na quarta tentativa da legislatura do Parlamento da Catalunha, iniciada em janeiro. Todos os candidatos anteriores foram impedidos pela justiça espanhola, em resposta a ação repressora do governo de Madri contra os independentistas catalães.

Puigdemont acompanhou de Berlim, onde está exilado, a eleição de Quim Torra, que faz parte do seu grupo político e promete seguir os passos de seu sucessor

Depois da tentativa de investir Puigdemont, os soberanistas tentaram investir os deputados Jordi Sànchez e Jordi Turull. O primeiro está exilado em Berlim e os dois outros estão presos em Madri sob acusação de rebelião e malversação.
A eleição de Torra deixou irritada a oposição, que reclamou pelo fato do governo espanhol não ter recorrido ao Tribunal Constitucional (TC) para impedir os votos delegados de Puigdemont e do deputado de ERC, Toni Comín, que também está exilado. Os votos foram essenciais para conseguir a maioria simples necessária para a eleição de hoje. Também foi imprescindível a abstenção do partido antissistema CUP, que tomou a decisão de permitir a investitura em consulta às bases realizadas ontem.

A presidente do partido Ciudadanos, Ines Arrimadas, disse que estava totalmente decepcionada extamente porque Torra representa o mesmo que o governo cessado.  “Vamos ter outra vez um governo independentista que foi indicado por um senhor fugitivo da justiça (Puigdemont). Como é possível que o governo espanhol permita isso?”, questionou Arrimadas.

Apesar das reclamações da deputada de Ciudadanos, o governo espanhol não parece disposto a deixar os independentistas concretizarem suas aspirações. Em nota divulgada depois da primeira sessão de investidura, realizada no sábado passado, quando Torra não conseguiu os votos necessários para ser eleito, Rajoy indicou que estará atento aos passos dos soberanistas.

A posse de Quim Torra deve acontecer na próxima quarta-feira, no Palácio da Generalitat, no centro de Barcelona, que está fechado desde a intervenção em outubro. A grande dúvida é se o novo governo conseguirá funcionar dentro da normalidade e aonde poderá chegar visto que não pretende sair da linha seguida até agora.