Dando seguimento a uma série de programas no qual tenta entender porquê a extrema direita avança no mundo, o jornalista Ricard Ustrell, do canal TV3 da Catalunha, dedicou todo o programa Quatregats deste domingo ao Brasil. O destaque do programa, no qual adentra na realidade política brasileira, é a entrevista com a ex-presidente Dilma Rousseff.

Dilma, olho a olho com Ricard Ustrell, explica ao jornalista os motivos que levaram ao seu impeachment em 2016

Ustrell tenta entender como um país onde a maioria da população tem ascendência negra e indígena votou em um candidato (Jair Bolsonaro) declaradamente racista para presidente da república nas eleições deste ano. Inicialmente o apresentador mostra entrevistas realizadas com eleitores no Rio de Janeiro. Alguns, revoltados com o PT, dizem que a solução agora para país é Bolsonaro, sem saber bem como explicar como o capitão reformado do Exército fará isso, e minimizando as declarções misóginas e racistas do presidente eleito. Enquanto outros reafirmam que o governo do PT foi o que melhor tratou a população mais pobre.

Na primeira parte do programa, além do depoimento de eleitores, Ustrel exibe conversa com o correspondente da CNN no Brasil, Francho Barón, que não esconde sua decepção com o país. O jornalista explica que conheceu a época em que o Brasil era alegre e vivia em uma política com maior ebertura. E que jamais podia imaginar um desenlace como o ocorrido no Brasil, com o impechment de Dilma e tudo que ocorreu na sequência.

Barón destaca frase de Tom Jobim, que diz que “o Brasil não é um país para principiantes” para tentar explicar o contexto político brasileiro. O jornalista diz não ter condições de responder se considera justos ou não o impechment de Dilma e a prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Ustrell também entrevistou o ex-presidente do Equador, Rafael Correa, que está exilado na Bélgica. Respondendo a 13 processos no seu país, Correa disse que está sendo perseguido por ter desafiado o sistema. Ele diz que tanto no Brasil quanto no Equador os grandes grupos de poder estão sendo apoiados pela mídia para derrocar os governo de esquerda.

Na conversa com a ex-presidente, Dilma explica que foi deposta porque não compartilhava o projeto de poder que os seus detratores defendiam, muitos dos quais oriundos dos extratos conservadores, racistas e classitas da sociedade brasileira. Ao argumentar porque considera que sofreu um golpe, ela diz: “O nosso golpe de 2016 é como se a árvore da democracia sofresse um ataque de fungos e parasitas”.

A ex-presidente falou também sobre Bolsonaro, a quem classifica de “manipulador que usa e abusa do ódio e do medo” no seu discurso. Dilma diz que o presidente eleito assumiu o papel de salvador da pátria, com um discurso simplista e antissistema, numa clara desvalorização da política.

Dilma falou ainda ser uma democrata e que continuará lutando para que ninguém passe o que ela passou, numa referência à ditadura, quando foi presa e torturada, e ao golpe sofrido em 2016 que culminou com sua destituição. Para ela, a opção de Lula se entregar, quando poderia ter se exilado, demonstra que o ex-presidente ainda tem esperança no Brasil.