Por Cesar Vanucci *

“E o menino da manjedoura, onde é que ele entra nisso?”

(Dona Candinha, arrematando discussão)

– Manda chamar os meninos pra resolver o assunto. Pra mim, domingo pela manhã está de bom jeito.

Porfírio definiu, desse modo, com Emerenciana, a cara-metade, a reunião com os filhos, noras e genros para discussão dos preparativos das comemorações natalinas. Nem todos familiares convocados para o encontro puderam comparecer. Lavico, o mais novo, solteiro, alegou haver assumido com companheiros do clube dos motoqueiros, no mesmo dia e horário aprazados, compromisso irrevogável de percorrer uma trilha recém-aberta na zona rural de São José do Mantimento. Flavinha, amargando a recente separação conjugal, mandou pedir desculpas pela ausência, motivada por viagem pra Trancoso onde pretende flanar até o carnaval. Os demais filhos, Laurita, Segismundo e Betão, acompanhados dos respectivos cônjuges, Celinho, Arminda e Gerusa, atenderam à convocação, trazendo contribuições para o debate acerca da organização do festejo.Enquanto Emerenciana servia os saborosos tira-gostos e bebidas requisitados para a ocasião, Porfírio tomou da palavra para explicar o objetivo da reunião. Lembrou que o Natal é, por excelência, um momento de congraçamento familiar. Gostaria, portanto, que todos marcassem presença numa única festividade. Para isso queria ouvir sugestões e propostas. A primeira intervenção foi de Laurita, filha mais velha. Na opinião da dita cuja, “deveríamos, todos, adquirir um número necessário de mesas num hotel de classe “A” para uma comemoração verdadeiramente condigna”. Largada no ar a sugestão, dirigiu-se ao esposo, professor de Português, indagando: “comemoração condigna, é assim mesmo que se diz?” A resposta de Celinho, com o olhar, tranquilizou-a, animando-a a partir pros detalhes de uma “oferta supimpa de serviços natalinos” encaminhada por “um estabelecimento de categoria”, conforme folheto ilustrado em mãos. Rega-bofe do melhor, espumante francês autêntico, árvore de Natal carregada de caixas de chocolate importado, a serem distribuídas entre os convivas, conjunto musical de renome com repertório carnavalesco de primeira pra execução a partir da meia noite.

A mulher de Betão, Gerusa, como de praxe, discordou da cunhada. Sustentou que Natal “é pra ser comemorado em casa”. Tanto é que ela, marido e filhos já haviam deliberado passar a noite de 24 na residência dos pais dela, o que não significava não pudessem reservar, também, noutra faixa de horário, um tempinho pra confraternização com os sogros. O Betão adicionou à explicação da patroa a notícia de que seu filho Tininho, integrante de uma banda “que já se apresentou até na televisão reservou espaço no enorme jardim do casarão dos avós maternos, onde se dará a folia, para show especial, na base do roque bate-estaca, já tendo, por sinal, convidado toda sua agitada patota.”

Chega a hora de Segismundo e Arminda opinarem. Eles são pela realização da festa na casa de Porfírio e Emerenciana. “Afinal de contas, a casa-matriz de nós todos”, ponderam, felizes com a manifesta demonstração de concordância do casal anfitrião à ideia. Mas, em seu entendimento, o sucesso da comemoração só ficará devidamente assegurado com a contratação do bufê mais requintado da cidade. “Aquele dirigido por um famoso “chefe” belga, que atuou no casamento mais badalado da temporada, conforme saiu no jornal. Tinha faisão, javali, caviar, cascata de camarão. Nada dessa coiseira de peru, chester, sardinha, onde já se viu!”

“Quanto à decoração – anotou-se ainda – pra ficar mais em conta, a gente mesmo assume, com a ajuda, tá claro, de uma arquiteta, nossa vizinha. Ela cobra quantia razoável pela iluminação do jardim, num estilo que possa lembrar, guardadas as proporções, a praça da Liberdade”.

O papo, bastante acalorado, avançou nesse diapasão por bom pedaço de tempo, com excessivos “comes e bebes”, mais “bebes do que comes”, sem se chegar a uma conclusão sobre como fazer o Natal. Dado momento, Emerenciana atentou para a circunstância de que dona Candinha, sua veneranda genitora, quietinha da silva no canto da sala, aboletada na poltrona cativa, bastante lúcida para seus bem vividos 90 anos, embora acompanhando com atenção a prosa da corriola familiar, ainda não havia emitido nenhum ponto de vista sobre a momentosa questão debatida. Resolveu provocá-la: – E a senhora, aí, mamãe, o que acha?

A resposta parecia já estar engatilhada na pontinha da língua: – O que eu penso é que vocês estão jogando muito palavrório fora sem falar bulhufas no aniversariante.

“Mas alguém aniversaria na data?” – perguntou num rompante, sem se dar conta do vexame, a despachada Celinha. “O menino da manjedoura, sua tolinha, o menino da manjedoura. Cumé que ele entra nisso?”. Dona Candinha falou e disse assim, assim se calou. Ninguém se aventurou a mais perguntas. E a movimentada reunião terminou sem qualquer definição sobre a comemoração.

*  O jornalista Cesar Vanucci (cantonius1@yahoo.com.br) é colaborador do Blog Mundo Afora