*Por Flávio Carvalho

Comisions Obreres de Catalunya, em Barcelona, será a sede da primeira assembleia da Frente Internacional de Brasileiros (Fibra) que moram no exterior. O encontro pretende fortalecer os objetivos de resistência ao golpe contra os direitos humanos no Brasil.

Na Catalunha, brasileiras (principalmente, devido a forte presença feminina, tanto qualitativa quanto quantitativa) estão organizadas em diversos coletivos como as Brasileiras contra o Fascismo e Amig@s da Democracia, entre outras. Também em organizações como o Coletivo Brasil Catalunha, que esteve presente no Encontro da Fibra, realizado mês passado em Berlim.

Não é a toa que a Catalunha, pelo seu nível de organização política, elegeu a primeira deputada brasileira para o Parlamento Espanhol (Maria Dantas), já havia elegido a primeira vereadora brasileira (Katia Juncks) e que o Conselho de Cidadania elegeu uma totalidade de mulheres, a maioria delas vinculada aos mesmos processos sociais e culturais que estarão reunidos no próximo sábado (21) na sede da mais importante central sindical catalã.

Este encontro, em resposta e continuidade às deliberações do mencionado encontro de Berlim, possui o objetivo de estabelecer uma agenda unificada de ações estratégicas de organização e denúncia sobre as atuais políticas da ultradireita brasileira. Por não ser um encontro fechado apenas para brasileiros – o transnacionalismo e a interculturalidade são práticas, mais que conceitos – esperam-se a presença de cidadãos não brasileiros, preocupados, principalmente, com a situação da Amazônia.

De fato, os mais recentes atos públicos em defesa da Amazônia foram promovidos por iniciativa de organizações catalãs, em Barcelona. O maior deles, em frente ao Consulado do Brasil, fechou o trânsito em uma das mais importantes avenidas, a Diagonal.

Sem dúvida, o maior desafio na construção do que os organizadores chamam de “Unidade na Diversidade”, são as pautas políticas desde uma perspectiva de solidariedade internacional. Constituiu-se recentemente o Comitê Lula Livre – Barcelona e desde muitos anos existe um movimento histórico chamado Comitê de Apoio ao MST em Barcelona.

Também na questão cultural, entendendo a cultura como um dos mais importantes elementos de transformação da sociedade, Barcelona – uma das principais capitais culturais da Europa – sediou, recentemente, um dos mais importantes festivais (o Dia do Brasil) e o Ciclo de Mulheres, organizado pela Assembleia de Mulheres Brasileiras contra o Fascismo, que promove atividades de êxito, a cada semana – envolvendo mulheres catalãs, latino-americanas de outras nacionalidades. Enquanto isso, o pioneiro livro escrito em português sobre o processo de independência da Catalunha, da jornalista Taíza Brito, já é considerado uma importante referência literária sobre esse tema, no nosso idioma.

A grande questão diz respeito à coerência, por exemplo, na denúncia de golpes políticos como a estratégia do Lawfare: a direita e a ultradireita acionando o poder judicial para promover prisões políticas em qualquer parte do mundo – na Catalunha, no Brasil ou na Turquia . Quais serão as atuais pautas políticas com maior capacidade de criar consenso? Como sair do (já difícil) consenso para uma ação efetiva, não somente conceitual, de defesa da democracia no Brasil?

Tudo isso, por parte dos brasileiros na Catalunha, em meio ao inegável conflito catalão com o Estado Espanhol e às vésperas de uma sentença política – sobre os presos de ideias independentistas – que pretende esquentar o outono europeu. Como respeitar cada contexto, o brasileiro e o catalão – cada qual com suas particularidades – e ao mesmo tempo articular a solidariedade internacional em um país, a Espanha, que hoje possui boa parte da sua economia comprometida com os vínculos econômicos de suas grandes empresas presentes no Brasil?

“Odeio os indiferentes”, dizia Bertold Brecht.

*Flávio Carvalho é sociólogo e escritor