Enquanto a população está mobilizada em rechaço à condenação dos líderes políticos condenados, governo catalão evita confronto com estado espanhol

Enquanto a população está respondendo nas ruas da Catalunha às condenações dos líderes independentistas, com ações de desobediência civil como as vistas no bloqueio ao Aeroporto de Barcelona na última segunda-feira (14), o presidente Quim Torra não tem se arriscado em passos que possam ser interpretados como confrontação ao estado espanhol. Segundo análise do jornalista catalão Pere Martí, do jornal digital Vilaweb (leia aqui a análise completa em catalão), isso se deve ao fato de a maioria dos integrantes do governo se recusarem a responder com gestos de desobediência institucional.

Apenas Quim Torra e o secretário de Políticas Digitais, jordi Puigneró, estariam dispostos a dar uma resposta contundente. Os demais integrantes do secretariado de Juntos por Catalunha (JxCat), partido de Torra, e de Esquerda Republicana de Catalunha (ERC), do vice-presidente Pere Aragonés, estariam focados salvar as instituições a evitar que uma reação institucional muito contundente à sentença dê argumentos ao governo espanhol para ativar o 155. Ou seja, dê motivos para uma nova intervenção na Catalunha.

Assim, de acordo com Martí, a desobediência fica em mãos da sociedade civil, encabeçada pelo Tsunami Democrático, que já mexeu com os nervos do governo central. Tanto que o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, anunciou uma investigação para saber quem está atrás do movimento que conseguiu colapsar o Aeroporto de Barcelona, mobilizando milhares de pessoas após o anúncio da sentença contra os ativistas e políticos catalães condenados por sedição e malversação de fundos públicos.

Em reunião extraordinária na manhã desta terça para analisar as respostas à sentença do Tribunal Supremo Espanhol – cujas penas variam de 9 a 13 anos de prisão para nove dos julgados -, o governo catalão decidiu uma série de ações, mas nenhuma que implique desobediência. Pelo que ficou acordado, Torra se dirigirá por carta a todos os presidentes e primeiros-ministros da União Europeia, G-20 e EFTA, enquanto o secretário de Exteriores, Alfred Bosch, se encarregará de fazer um tour pela Europa para explicar a situação pessoalmente.

Os demais secretários irão suspender as suas agendas e concentrarão seu dia a dia em participar de atos relacionados às manifestações de rechaço à sentença. Assim, enquanto o povo está nas ruas, em piquetes nas estradas, bloqueios de avenidas, passeatas e manifestações diversas, o governo catalão renunciou ao confronto com Madri. A titular de Empresa, Àngels Chacón, chegou até a se manifestar publicamente contra a greve geral prevista para a próxima sexta-feira (18), dizendo que isso prejudicará a economia. O argumento da maioria dos membros do governo é que atos de desobediência institucional não ajudarão a avançar à almejada república e só servirão para provocar mais repressão.

Para o colunista de Vilaweb, este equilíbrio entre lealdade institucional e desobediência civil é difícil de manter. Vide o caso do secretário de Interior, Miquel Buch, que está sendo alvejado de críticas pela atuação dos Mossos de esquadra, a polícia local, na repressão dos protestos. Tanto na manifestação no aeroporto quanto na ocorrida hoje na frente da Delegação do Governo da Espanha, em Barcelona, os policiais agrediram com violência a manifestantes, jornalistas, deixando muitas pessoas feridas. Na segunda-feira, um jovem que participava de um ato no El Prat foi atingido por uma bala de borracha e perdeu a visão.

Em coletiva de imprensa no Palácio da Generalitat na manhã desta terça-feira com jornalistas internacionais, Quim Torra falou da reunião extraordinária para a resposta do governo à sentença, mas realmente não anunciou nada de extraordinário. O presidente da Generalitat insiste que está sentado na mesa de diálogo e espera que o primeiro-ministro em funções, Pedro Sánchez (PSOE), decida dialogar. “A única saída para a questão catalã é política. Nós continuamos na mesa, falta que o senhor Sánchez se disponha a dialogar”, enfatizou.

Em campanha política de reeleição à Moncloa, o discurso de Sánchez em relação à Catalunha tem sido mais belicoso que o dos candidatos dos partidos de direita e extrema direita que concorrem ao pleito. O socialista tem reiterado que não duvidará em intervir no governo da Catalunha caso considere necessário.

Torra encontra entraves também no Parlamento, onde o presidente, Roger Torrent (ERC), se nega a qualquer ato que ponha em risco o casa legislativa, uma vez que está sob ameaça do Tribunal Constitucional. A ideia inicial era votar uma resolução de rechaço à sentença que hoje não encontra quórum entre os deputados do governo independentista.