Investigação sobre a morte Cachou, urso pardo que ficou famoso em 2019 por ataques a equinos nos Pirineus, foi colocada sob segredo de justiça

O urso Cachou ficou famoso nos meios de comunicação espanhol e francês em 2019 pelos constantes ataques a equinos nos Pirineus, provocando conflitos entre criadores e defensores da reinserção do urso pardo na região. Agora voltou a ocupar espaço destacado na imprensa após sua misteriosa morte no último dia 9 de abril. Nesta semana, o Juizado de Vielha, em Lleida, na Catalunha, que investiga a morte do animal decretou segredo de sumário para não prejudicar as investigações.

É a primeira vez que um Juizado recorre ao segredo judicial na investigação da morte de um urso. O cadáver de Cachou, exemplar jovem com seis anos, foi localizado no fundo de um despenhadeiro de 40 metros próximo ao município de Les, na fronteira com a França. O corpo foi resgatado por agentes do meio ambiente do Conselho comarcal de Aran e da Generalitat da Catalunha e levado para o Serviço de Ecopatologia da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), onde está sendo realizada a necropsia.

Em entrevista ao jornal El País, o presidente da Fundação Urso Pardo, Guillermo Palomero, disse que fica claro que “há indícios penais e que o magistrado protege a investigação para que provas não sejam alteradas”. “Se a necropsia tivesse concluído que a morte do animal foi de forma natural, como se apressou a avançar a Sindicatura de Aran, não haveria nenhuma investigação judicial e muito menos estaria sob segredo”, acrescentou Joan Vázquez, porta-voz da entidade ecologista Ipcena, que fez duras críticas contra o comunicado oficial do governo de Aran, que se baseou numa necrópsia preliminar para atribuir a morte de Cachou a uma briga com outro urso.

Foi a entidade que impulsionou protesto, com apoio da organização WWF e uma dezena de entidades ecologistas francesas e espanholas mais para que o caso fosse investigado. Segundo Vázquez, “o governo de Aran se apressou a convencer a opinião pública que não haveria nenhuma responsabilidade humana”. A Fundação Urso Pardo, que monitorava Cachou, adiantou que deseja se apresentar como acusação na investigação, para esclarecer como se deu a morte do animal.

Segundo os ecologistas, sequer foi feita ainda a análise patológica das vísceras para descartar possível envenenamento, como parece sugerir o sorriso sardônico que apresentava o rosto do cadáver do urso no lugar onde foi encontrado. Isso se deve à saturação dos laboratórios analíticos por causa da pandemia do coronavirus na Espanha.

Depois de sucessivos ataques a animais na fronteira entre a França e a Espanha, a Secretaria de Território e Sustentabilidade da Catalunha decidiu, no final do ano passado, aplicar um fungicida nos restos de uma égua morta pelo Cachou. O produto provoca vômitos e a intenção era que o urso passasse a rechaçar este tipo de carne. Para grupos de ecologistas, esta é uma prática de risco e recomendam aguardar os resultados dos exames para determinar responsabilidades.