{"id":2689,"date":"2018-02-04T18:11:39","date_gmt":"2018-02-04T18:11:39","guid":{"rendered":"http:\/\/taizabritomundoafora.com.br\/?p=2689"},"modified":"2018-02-04T18:11:39","modified_gmt":"2018-02-04T18:11:39","slug":"nos-tempos-do-lanca-perfume","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=2689","title":{"rendered":"Nos tempos do lan\u00e7a-perfume"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em>Carnaval, uma tradi\u00e7\u00e3o vener\u00e1vel, uma festividade adorada<\/em><br \/>\n<em> que tem a significa\u00e7\u00e3o de um desafogo na exist\u00eancia \u00e1rida do brasileiro.<\/em>\u201d<br \/>\n(<strong>Gilberto Amado<\/strong>)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Lan\u00e7a-perfume-carnaval.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2690 alignleft\" src=\"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Lan\u00e7a-perfume-carnaval.jpeg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Lan\u00e7a-perfume-carnaval.jpeg 500w, https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Lan\u00e7a-perfume-carnaval-300x179.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><strong>Por\u00a0Cesar Vanucci *<\/strong><\/p>\n<p>A proximidade do chamado \u201ctr\u00edduo momesco\u201d \u2013 express\u00e3o, diga-se de passagem, inadequada para definir a folia de m\u00eas inteiro que estremece hoje os redutos baianos \u2013 cria ensancha oportunosa (como era h\u00e1bito dizer-se em tempos de antigamente) para relembrar carnavais que passaram.<\/p>\n<p>Vai ter quem reclame, por certo, da postura saudosista deste escriba. Mas nem por isso \u2013 t\u00e1 bem? &#8211; vou deixar de dizer que os carnavais de outrora, dos bons e irrecuper\u00e1veis tempos de uma juventude j\u00e1 transitada em julgado, eram infinitamente mais joviais e prazerosos. A alegria rolava solta, em clima de total descontraimento, em sal\u00f5es decorados com esmero na base da serpentina, bal\u00f5es, m\u00e1scaras, figuras de cartolina, bonecos sustentados em estruturas de madeira, com farto emprego de papel mach\u00ea, tinta, algod\u00e3o e lantejoulas.<!--more--><\/p>\n<p>A esmagadora maioria dos foli\u00f5es, inclu\u00eddas a\u00ed patotas familiares inteiras, fazia dos clubes o centro preferencial de divers\u00e3o no per\u00edodo dos festejos. Os arrelientos, com seus excessos cervejeiros, estragavam, por vezes, o prazer alheio. Mas, para a tranquilidade geral, n\u00e3o passavam, na verdade, com suas apronta\u00e7\u00f5es barulhentas, de uma minoria. Manjados por todos, eram, tanto quanto poss\u00edvel, mantidos \u00e0 dist\u00e2ncia nas evolu\u00e7\u00f5es graciosas, ao som da batucada, dos pares e blocos pelas pistas dan\u00e7antes. Um mont\u00e3o de gente, abst\u00eamios de ber\u00e7o, participava dos folguedos sem ingerir, ao longo dos quatro dias, uma gota sequer de bebida alco\u00f3lica. O que n\u00e3o os impedia de competir em anima\u00e7\u00e3o com a majorit\u00e1ria parcela dos que vertiam bebida com modera\u00e7\u00e3o, como \u00e9 recomendado hoje, de pura mentirinha, em tudo quanto \u00e9 intervalo de tev\u00ea, na tradicional litig\u00e2ncia publicit\u00e1ria das cervejarias.<\/p>\n<p>Naqueles tempos ainda \u2013 e a revela\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 comprovei \u00e9 de molde a espantar os mais mo\u00e7os &#8211; nenhum carnavalesco que se prezasse abria m\u00e3o de trazer ao alcance, para pronto uso, o seu tubo de lan\u00e7a-perfume. De vidro ou met\u00e1lico. Borrifar com jato de perfume um conhecido equivalia a uma sauda\u00e7\u00e3o amistosa. Alvejar os cabelos ou o colo de uma jovem com um esguicho, acompanhando a cad\u00eancia bonita do samba, representava forma galante de exprimir simpatia e afetividade. N\u00e3o ocorria a ningu\u00e9m, obviamente, o temor de vir a ser acusado de ass\u00e9dio por conta desse inocente procedimento. Ficava-se a aguardar pelo esguicho de volta, um sinal promissor de correspond\u00eancia. A bisnaga perfumada era considerada, assim, imprescind\u00edvel dentre os apetrechos carnavalescos. Tanto quanto a fantasia, o confete, a serpentina. Entrava e saia carnaval, e de nenhuma voz autorizada se fazia ouvir qualquer tipo de advert\u00eancia relativa \u00e0 insuspeitada toxidade do produto. N\u00e3o passava pela cabe\u00e7a de qualquer vivente a \u201cextravagante\u201d ideia de que o lan\u00e7a-perfume pudesse, em algum momento, ser equiparado a drogas da pesada, capazes de provocarem depend\u00eancia qu\u00edmica. A vis\u00e3o que dele se tinha, de modo geral, era de um brinquedo divertido, para adultos e crian\u00e7as. Nas matin\u00eas, a meninada trazia, pendurado na cintura ou preso nas m\u00e3os, seu tubo de lan\u00e7a-perfume. Jogar perfume nos outros tinha tudo a ver com o esp\u00edrito da festa. S\u00f3 mesmo imper\u00edcia no manejo do artefato produzia um que outro inesperado transtorno. Quando, por exemplo, se atingia, inadvertidamente, o olho do fregu\u00eas, em lugar de outra parte do corpo imune ao ardor inc\u00f4modo do l\u00edquido.<\/p>\n<p>A inven\u00e7\u00e3o de moda de embeber o conte\u00fado dos frascos em len\u00e7o, mode que aspir\u00e1-lo, demorou um temp\u00e3o para chegar aos sal\u00f5es. A raridade desse tipo de ocorr\u00eancia recorda-me um \u201cquebra pau\u201d, prontamente dissolvido pela turma do \u201cdeixa disso\u201d, envolvendo personagens conhecidos na vida p\u00fablica. Contrariando a regra escrupulosamente seguida por todo mundo, eles andaram cheirando, prolongadamente, a ponto de dar vexame, o len\u00e7o encharcado de perfume. Acabaram se estranhando no auge da vibra\u00e7\u00e3o. O epis\u00f3dio ficou de tal forma gravado na lembran\u00e7a do lugar, que chegou a ser citado como refer\u00eancia de algo indesej\u00e1vel at\u00e9 mesmo, dois ou tr\u00eas anos depois, nos preparativos de outras festividades carnavalescas. Acrescente-se, a bem da verdade, que os belicosos foli\u00f5es, respons\u00e1veis pela infring\u00eancia das regras, tomaram \u201cch\u00e1 de sumi\u00e7o\u201d nos carnavais seguintes, sentindo-se no m\u00ednimo constrangidos com rela\u00e7\u00e3o ao malfeito praticado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, tem ou n\u00e3o tem aqui raz\u00e3o o neto de v\u00f3 Carlota, quando afirma, carregado de certezas, que os carnavais de antigamente eram bem mais bacanas e prazenteiros?<\/p>\n<p><strong>* O jornalista Cesar Vanucci (cantonius1@yahoo.com.br) \u00e9 colaborador do Blog Mundo Afora<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cCarnaval, uma tradi\u00e7\u00e3o vener\u00e1vel, uma festividade adorada que tem a significa\u00e7\u00e3o de um desafogo na exist\u00eancia \u00e1rida do brasileiro.\u201d (Gilberto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2691,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[256],"tags":[1398,338,1397],"class_list":["post-2689","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","tag-antigos-carnavais-brasil","tag-cesar-vanucci","tag-lanca-perfume"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2689","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2689"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2689\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2692,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2689\/revisions\/2692"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2691"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2689"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2689"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2689"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}