{"id":3733,"date":"2019-02-09T22:17:57","date_gmt":"2019-02-09T22:17:57","guid":{"rendered":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/?p=3733"},"modified":"2019-02-09T22:18:29","modified_gmt":"2019-02-09T22:18:29","slug":"a-divida-moral-e-social-da-vale","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=3733","title":{"rendered":"A d\u00edvida moral e social da Vale"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Cesar Vanucci *<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u201cSe a Vale sabia dos riscos e n\u00e3o tomou <\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>provid\u00eancias, tudo fica mais grave.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>(Senador Carlos Viana)<\/p>\n<p>A historieta narrada na sequ\u00eancia, buscada nas ladeiras da mem\u00f3ria, desenrolou-se numa reuni\u00e3o transcorrida anos atr\u00e1s em importante entidade representativa da categoria empresarial. Anunciou-se, de repente, \u00e0 margem da agenda dos debates em curso, que acabara de ser conclu\u00eddo o leil\u00e3o alusivo \u00e0 momentosa privatiza\u00e7\u00e3o da Companhia Vale do Rio Doce, trombeteada semanas a fio em vistosas manchetes.<\/p>\n<p>Pela proposta vencedora, o colossal acervo de ativos da empresa, a maior do mundo no setor de minera\u00e7\u00e3o e a segunda em import\u00e2ncia na lista das organiza\u00e7\u00f5es produtivas nacionais, passaria \u00e0s m\u00e3os dos novos donos, porteira fechada, pela bagatela de 6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Os n\u00fameros divulgados foram recebidos com certa incredulidade. Confirmados, deixaram um rastro de espanto nos semblantes. No entendimento geral, um ato negocial de tamanha envergadura, admitida a razoabilidade da privatiza\u00e7\u00e3o, que vinha sendo alvo de candente contesta\u00e7\u00e3o, s\u00f3 poderia encontrar justificativa com base no desembolso, pelos adquirentes, de grana equivalente a uma soma, talvez, 30 vezes superior \u00e0 indicada no lance que levou o leiloeiro a bater o martelo. E olhe l\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>Algu\u00e9m do grupo, na reuni\u00e3o mencionada, empres\u00e1rio de porte m\u00e9dio do setor eletromec\u00e2nico, admirado pelos pares devido ao arrojo empreendedor, sentiu-se \u00e0 inteira vontade para largar jocoso coment\u00e1rio: &#8211; Se a gente tivesse ficado sabendo com anteced\u00eancia que a Vale poderia ser vendida por ninharia, at\u00e9 que teria cogitado de entrar com alguma proposta melhor que essa na hasta p\u00fablica! A observa\u00e7\u00e3o foi acolhida com risos, palavras, gestos e gracejos concordantes.<\/p>\n<p>O que aconteceu, noutras palavras: o governo sucumbiu \u00e0 sanha privativista reinante naquela ocasi\u00e3o. Deixou-se levar pela estridente cantilena midi\u00e1tica que apontava a desestatiza\u00e7\u00e3o como dogma de f\u00e9. A venda da Vale do Rio Doce, um processo de privatiza\u00e7\u00e3o apelidado por muitos de \u201cprivataria\u201d, escudou-se nos \u201cconvincentes argumentos\u201d de que o neg\u00f3cio representava a \u201csalva\u00e7\u00e3o da lavoura\u201d. O neg\u00f3cio significava \u201cinteligente solu\u00e7\u00e3o\u201d, do ponto de vista t\u00e9cnico e administrativo, para se alcan\u00e7ar, finalmente, o almejado equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas, etecetera e tal&#8230;<\/p>\n<p>A Vale do Rio Doce, precios\u00edssimo patrim\u00f4nio nacional, empresa desde a implanta\u00e7\u00e3o economicamente pr\u00f3spera, ostentando balan\u00e7os de excelente rentabilidade, com legend\u00e1ria hist\u00f3ria de participa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social no desenvolvimento do pa\u00eds, estava sendo intimada, ent\u00e3o, a transferir \u00e0 sucessora, Vale, de m\u00e3o beijada, seu gigantesco complexo de equipamentos, suas jazidas de incalcul\u00e1vel extens\u00e3o com veios minerais inextingu\u00edveis espalhados por por\u00e7\u00f5es consider\u00e1veis deste nosso territ\u00f3rio continental, seus estoques fabulosos de produto pronto para embarque, sua frota de navios, suas composi\u00e7\u00f5es f\u00e9rreas de razo\u00e1vel extens\u00e3o, isso sem falar na capacidade tecnol\u00f3gica adquirida ao longo de seu itiner\u00e1rio, mundialmente reconhecida. Os bilh\u00f5es de d\u00f3lares da transa\u00e7\u00e3o, a se levar em conta as propor\u00e7\u00f5es da empresa &#8211; que conservava em caixa, segundo pasmosa informa\u00e7\u00e3o circulante na \u00e9poca, numer\u00e1rio superior ao valor apurado no leil\u00e3o \u2013, passaram pra muita gente a penosa e desagrad\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de que a venda foi feita por pre\u00e7o de banana nanica de sacol\u00e3o de arrabalde que exibe na prateleira artigo refugado na Ceasa.<\/p>\n<p>Este relato faz-se bastante oportuno no momento em que, tomada de aturdimento e inconformismo, a sociedade e as lideran\u00e7as nacionais colocam no foco priorit\u00e1rio das aten\u00e7\u00f5es a atua\u00e7\u00e3o da Vale, conscientes da inocult\u00e1vel culpabilidade da empresa, de seu irrespons\u00e1vel desmazelo t\u00e9cnico-administrativo, dos estratagemas de que a mesma, desde sempre, se vale (o trocadilho saiu sem querer) para escapulir de responsabilidades nas trag\u00e9dias que enlutaram e apavoraram as Minas Gerais e o Brasil. Aos dados acima alinhados cabem ser acrescidos outros sugestivos n\u00fameros. Ajudam a revelar, de forma exuberante, a descomunal d\u00edvida moral e social que ela, Vale, por \u00f3bvias e ululantes raz\u00f5es, contraiu com a comunidade. D\u00edvida que carece ser paga com inadi\u00e1vel urg\u00eancia, de maneira a amenizar um tanto os efeitos devastadores dos malef\u00edcios praticados.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e3o, aleatoriamente pin\u00e7ados, alguns n\u00fameros: os lucros anuais acumulados pela Vale ficam, invariavelmente, a cada exerc\u00edcio, sempre pr\u00f3ximos do valor da \u201carremata\u00e7\u00e3o\u201d. Em 2017, por exemplo, o resultado positivo foi superior a 4 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Em 2016, foi tamb\u00e9m assim. Em 2018, idem com a mesma data. A sempre desej\u00e1vel pujan\u00e7a da empresa (comprada em \u201cneg\u00f3cio de pai pra filho\u201d), projetada em todos os per\u00edodos, est\u00e1 traduzida at\u00e9 neste instante em que as adversidades de todos conhecidas acabam, naturalmente, sendo de molde a afetar o neg\u00f3cio. A perda de 71 bilh\u00f5es de reais no mercado acion\u00e1rio em um \u00fanico dia equivale, vejam bem, a quase a metade do dinheiro apurado na privatiza\u00e7\u00e3o. E isso n\u00e3o abalou a empresa a ponto de amea\u00e7ar sua estabilidade econ\u00f4mica, o que \u00e9 altamente positivo, afinal de contas, pra todo mundo.<\/p>\n<p>Tudo isto dito, afigura-se leg\u00edtimo, a partir de agora, aguardar por decis\u00f5es, legalmente impostas ou espontaneamente adotadas, que promovam, em ritmo acelerado, sem interrup\u00e7\u00f5es danosas a qualquer t\u00edtulo, os pagamentos das indeniza\u00e7\u00f5es, dos ressarcimentos, das restaura\u00e7\u00f5es ambientais, das reconstru\u00e7\u00f5es que precisem ser feitas, enfim de todas e quaisquer repara\u00e7\u00f5es que a comunidade tem o sagrado direito de exigir dos causadores das calamidades que a alvejaram t\u00e3o impiedosamente. Sem deixar no esquecimento que eles s\u00e3o, tamb\u00e9m, carregando nos ombros os \u00f4nus das solu\u00e7\u00f5es, respons\u00e1veis por uma (outra) avalancha de problemas que a mant\u00e9m sobressaltada.<\/p>\n<p><strong>\u00a0* O jornalista Cesar Vanucci (cantonius1@yahoo.com.br) \u00e9 colaborador do Blog Mundo Afora<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cesar Vanucci * \u201cSe a Vale sabia dos riscos e n\u00e3o tomou provid\u00eancias, tudo fica mais grave.\u201d (Senador Carlos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3734,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[256],"tags":[46,1635,338,1636],"class_list":["post-3733","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","tag-brasil","tag-brumadinho","tag-cesar-vanucci","tag-tragedia-ambiental-minas-gerais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3733","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3733"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3733\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3736,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3733\/revisions\/3736"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3734"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3733"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3733"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3733"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}