{"id":4614,"date":"2019-12-18T13:43:38","date_gmt":"2019-12-18T13:43:38","guid":{"rendered":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/?p=4614"},"modified":"2019-12-18T13:43:38","modified_gmt":"2019-12-18T13:43:38","slug":"precisamos-de-herois-negros-na-espanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=4614","title":{"rendered":"Precisamos de her\u00f3is negros na Espanha?"},"content":{"rendered":"<div class=\"x_gmail_default\">\n<div class=\"x_gmail_default\">\n<p class=\"x_MsoNormal\"><b>Por Fl\u00e1vio\u00a0Carvalho<\/b><\/p>\n<figure id=\"attachment_4615\" aria-describedby=\"caption-attachment-4615\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/99977C7D-60AD-407A-B3EB-88C9DF865198.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4615\" src=\"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/99977C7D-60AD-407A-B3EB-88C9DF865198.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/99977C7D-60AD-407A-B3EB-88C9DF865198.jpeg 600w, https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/99977C7D-60AD-407A-B3EB-88C9DF865198-300x169.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4615\" class=\"wp-caption-text\">Momento em que Gorgui faz o salvamento<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"x_MsoNormal\">\u201cInc\u00eandio. Um apartamento pegando fogo\u201d, grita algu\u00e9m l\u00e1 de dentro, no primeiro andar. Um senhor doente, impossibilitado de andar e de sair da cama, desesperado.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Cinco pessoas. Quatro espanh\u00f3is. Um africano. Quatro brancos. Um negro.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Quem trouxe uma escada para que o \u201cher\u00f3i\u201d pudesse baixar carregando aquele senhor doente nas costas? Qual dos cinco homens arriscou-se ao fogo, para salvar a vida do doente?<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Gorgui Lamine Sow, senegal\u00eas, pai de uma filha de sete meses. Tr\u00eas anos aceitando todo tipo de servi\u00e7os \u201cem negro\u201d, como se diz aqui. Trabalhar \u201cem negro\u201d, no Reino da Espanha, significa aceitar qualquer tipo de servi\u00e7o, humilhante ou n\u00e3o, de forma prec\u00e1ria, sem garantias de que receber\u00e1s pelo teu trabalho \u2013 nas m\u00e3os de um espanhol que pode te contratar e logo te denunciar por haver trabalhado \u201cilegalmente\u201d para ele (irregularmente, pois ningu\u00e9m pode ser considerado ilegal at\u00e9 que se prove o contr\u00e1rio). Denunciar-te por haver trabalhado para ele sem a permiss\u00e3o espanhola de poder viver e trabalhar na Espanha? N\u00e3o seria a primeira vez, infelizmente, que aconteceria. Conhe\u00e7o in\u00fameros casos de brasileiros na mesma situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Importante salientar que n\u00e3o escrevo \u201ccontra os espanh\u00f3is\u201d e sim contra um sistema neocolonial que permite a espanh\u00f3is \u2013 como poderia ser um europeu de qualquer nacionalidade \u2013 utilizar vidas n\u00e3o espanholas dessa forma.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Sempre me lembro do caso de um brasileiro chamado Charly, que &#8211; em um acidente de trabalho &#8211; ficou soterrado por terr\u00edveis minutos em uma obra (na constru\u00e7\u00e3o civil). E foi logo denunciado pelo pr\u00f3prio espanhol que lhe contratou, na prov\u00edncia de Girona. Nem sequer este seu \u201cempregador\u201d acionou uma ambul\u00e2ncia p\u00fablica para salvar a vida do brasileiro. N\u00e3o o fez por saber que estava atuando de forma fraudulenta, na sua empresa. Momentos importantes para salvar uma vida, ser um \u201cher\u00f3i\u201d ou seguir sendo um bandido desgra\u00e7ado, sem cora\u00e7\u00e3o. Charly (n\u00e3o \u00e9 um nome fict\u00edcio) recorreu \u00e0 justi\u00e7a e somente ganhou a causa por uma quest\u00e3o \u201chumanit\u00e1ria\u201d: arrastar\u00e1 para sempre a condi\u00e7\u00e3o especial de estar impedido de trabalhar por haver sofrido um derrame cerebral durante o seu enterramento em vida, na obra. Tudo aconteceu em preciosos segundos, como no caso do inc\u00eandio inicialmente relatado.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Este Reino n\u00e3o sobreviveria sem essa economia informal, sem a explora\u00e7\u00e3o dos migrantes como o \u201cHer\u00f3i Senegal\u00eas\u201d. N\u00e3o sou eu quem afirmo. \u00c9 a pr\u00f3pria estat\u00edstica espanhola, de um pa\u00eds que necessita esse tipo de barbaridade, para levar adiante sua economia interna (e externa). Um pa\u00eds absolutamente envelhecido e sem regenera\u00e7\u00e3o na faixa et\u00e1ria onde mais necessita de cidad\u00e3os de segunda, terceira ou quarta categoria: migrantes jovens \u2013 como o senegal\u00eas de vinte anos.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Em mera compara\u00e7\u00e3o, no Brasil: pense em todas aquelas pessoas que vivem de bico, de biscaites (assim se diz no meu Recife), de pequenos servi\u00e7os, na absoluta informalidade e precariedade. Agora imagine que est\u00e3o amea\u00e7ados, pela pol\u00edcia, de serem deportados, presos e enviados de volta aos seus pa\u00edses de origem&#8230; Discrimina\u00e7\u00f5es, infelizmente, somam-se. No Brasil tamb\u00e9m. Claro que sim. Mas aqui voc\u00ea poderia \u201cacrescentar-se\u201d uma mais. Mulher? Negra? Pobre? E imigrante!<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Voltemos ao \u201cHer\u00f3i Senegal\u00eas\u201d.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Ironicamente, imagino hoje os migrantes pensando em vir aqui, para o Reino, com a mera disponibilidade de tornar-se her\u00f3i. Coisa que imagino que n\u00e3o se ensaia, n\u00e3o se treina, n\u00e3o se prev\u00ea. Pelo menos nesses casos, como o que relatei &#8211; acontecido na cidade espanhola chamada D\u00e9nia.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">\u201cNem pensei duas vezes. O homem estava em perigo. Subi e o ajudei. Fiz com o cora\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o Her\u00f3i de D\u00e9nia, segundo todos os jornais espanh\u00f3is \u2013 em p\u00e9 de p\u00e1gina.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Minutos depois de salvar o espanhol, o senegal\u00eas voltou ao seu trabalho de vendedor ambulante, pelas ruas, como se nada houvesse acontecido. O Prefeito da cidade passou dois dias lhe procurando. Gorgui estava com medo de apresentar-se \u00e0 m\u00e1xima autoridade local.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Do espanhol doente que foi salvo (se chama \u00c1lex), Gorgui ganhou uma camisa com aquele s\u00edmbolo do Super-Homem. \u00c9 com essa camisa que o senegal\u00eas aparece em v\u00e1rios telejornais espanh\u00f3is e europeus.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Aconteceu algo semelhante na Fran\u00e7a e o Presidente Macron n\u00e3o somente concedeu o documento de permiss\u00e3o de resid\u00eancia e trabalho a um africano, como ainda o contratou para o corpo de bombeiros franc\u00eas \u2013 tamb\u00e9m diante das c\u00e2meras de televis\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">E agora, a hipocrisia espanhola.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">O Ministro da Justi\u00e7a do Reino, Fernando Grande-Marlaska, respondeu \u00e0 peti\u00e7\u00e3o da Prefeitura de D\u00e9nia: pedido para conceder documentos de resid\u00eancia e trabalho ao Her\u00f3i. O Ministro lembrou que a Lei de Estrangeiros permite a \u201cexcepcionalidade, em casos concretos\u201d. Em resumo: se a filha do her\u00f3i estiver morrendo, de fome ou de guerra, no Senegal, n\u00e3o h\u00e1 excepcionalidade para que ele seja aceito como um cidad\u00e3o de plenos direitos, no Reino da Espanha. Se for pra arriscar a pr\u00f3pria vida, do pai de fam\u00edlia, salvando um espanhol das chamas, sim \u2013 pode ser.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">A mais importante ONG catal\u00e3 de luta antirracista realizou, recentemente, uma sele\u00e7\u00e3o p\u00fablica para contratar um novo coordenador de projetos sociais. Havia que responder-se uma pergunta inicialmente, todos os candidatos: \u201cque modificaria na\u00a0<i>Lei de Extranjer\u00eda<\/i>?\u201d.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Foram reprovados todos os candidatos que apresentaram propostas de melhorar tal lei.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Concordo plenamente com a ONG, SOS Racismo, tal como o fez. N\u00e3o h\u00e1 nada a modificar nessa lei. Deveria, sim ser integralmente abolida. Essa lei que mais discrimina do que efetivamente se disp\u00f6e a aceitar que haja cidad\u00e3os de primeira, segunda, terceira, quarta categoria&#8230;<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">N\u00e3o precisamos de her\u00f3is. Precisamos de cidad\u00e3os plenos de direito. E de cora\u00e7\u00e3o. Como Gorgui Lamine Sow, senegal\u00eas, pai de uma filha de sete meses. Se chama Ndeye. E acabei de informar-me que Gorgui sonhou que seria pai quando viajava, antes de chegar \u00e0 Espanha, pelo Brasil, pela Am\u00e9rica Latina, dormindo nas ruas, como vendedor ambulante.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<div class=\"x_gmail_signature\" dir=\"ltr\">\n<div dir=\"ltr\"><span style=\"color: #0b5394; font-family: verdana, sans-serif;\"><b>*Fl\u00e1vio Carvalho \u00e9 soci\u00f3logo e escritor<\/b><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div class=\"x_gmail_signature\" dir=\"ltr\">\n<div dir=\"ltr\">\n<div><span style=\"color: #6fa8dc; font-family: verdana, sans-serif;\"><b><a href=\"mailto:cbrasilcatalunya@gmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-auth=\"NotApplicable\">cbrasilcatalunya@gmail.com<\/a><\/b><\/span><\/div>\n<div>@1flaviocarvalho\u00a0@quixotemacunaima<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio\u00a0Carvalho \u201cInc\u00eandio. 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