{"id":6057,"date":"2020-06-26T19:24:33","date_gmt":"2020-06-26T19:24:33","guid":{"rendered":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/?p=6057"},"modified":"2020-10-22T10:34:44","modified_gmt":"2020-10-22T10:34:44","slug":"projetos-socioculturais-brasileiros-no-exterior-em-tempos-de-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=6057","title":{"rendered":"Projetos socioculturais brasileiros no exterior em tempos de crise"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>*Por Fl\u00e1vio Carvalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 luz no\nfim do t\u00fanel. N\u00e3o h\u00e1 t\u00fanel. A luz est\u00e1 aqui. Em n\u00f3s. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u201c<strong>Ali, onde o olhar \u00e9 oco; \u00c9 a voz da luz que fala; Luz das ceguinhas do coco; Iluminando esta sala<\/strong>\u201d (Gilberto Gil). \u00c7<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/FLAVIO-CARVALHO-PB.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6059\" width=\"514\" height=\"479\" srcset=\"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/FLAVIO-CARVALHO-PB.jpg 960w, https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/FLAVIO-CARVALHO-PB-300x280.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 514px) 100vw, 514px\" \/><figcaption>Fl\u00e1vio Carvalho reflexiona sobre projetos socioculturais de brasileiros no exterior<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Parece t\u00edtulo de texto de autoajuda, mas \u00e9 de ajuda m\u00fatua. Solidariedade diante das adversidades.<strong> Buscar sa\u00eddas coletivas, al\u00e9m das individuais. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estamos entrando em uma nova crise econ\u00f4mica mundial. A crise de 2008 ainda est\u00e1 aqui. <strong>A Pandemia somente a revelou, com toda a sua for\u00e7a. Desgra\u00e7adamente. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 hora de for\u00e7ar a mem\u00f3ria coletiva. <strong>Triste mania temos, todas n\u00f3s, de esquecer t\u00e3o r\u00e1pido das coisas mais tristes que passamos nas nossas vidas.<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p><strong>No ano 2009, havia explodido a bolha imobili\u00e1ria<\/strong> (no ano anterior) e t\u00ednhamos alguns desafios, as brasileiras no exterior:<\/p>\n\n\n\n<p>Juntarmo-nos\nmais. A isso n\u00e3o restava alternativa. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Convencer o imagin\u00e1rio nacional brasileiro, o famoso senso comum, de que na Europa havia brasileiros pobres, dormindo na rua e enfrentando graves dificuldades<\/strong>. Que aqui n\u00e3o est\u00e1vamos todos no para\u00edso, evitando compara\u00e7\u00f5es que nivelassem por baixo nossos eternos infernos brasileiros. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dar-nos conta de que n\u00e3o adiantava ficar esperando do Brasil aquilo que devemos exigir dos governos daqui<\/strong>: respeito aos nossos direitos mais b\u00e1sicos. <\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00faltimo ponto remetia a outra dificuldade. Por repetirmo-nos a imensa frustra\u00e7\u00e3o de achar que n\u00e3o adiantava exigir (diferente do conformista verbo pedir).<strong> Pens\u00e1vamos algumas de n\u00f3s que seria perda de tempo insistir naquilo que o governo nunca iria nos ajudar \u2013 e olhe que estamos falando de um governo que pelo menos n\u00e3o se assumia como fascista, como hoje. <\/strong>Autocensur\u00e1vamo-nos antes de reivindicar: \u201cn\u00e3o adianta, n\u00e3o vai dar certo\u201d&#8230; Do jeito que os governos conservadores adoram. <\/p>\n\n\n\n<p>Decidimos ent\u00e3o fazer aquelas tr\u00eas coisas: <strong>articulamo-nos em rede, de forma organizada e fizemos de Barcelona uma capital mundial de reivindica\u00e7\u00e3o das artistas, mestres de capoeira, pesquisadoras, empreendedoras, brasileiras no exterior<\/strong>; partimos ao desafio de sensibilizar a opini\u00e3o p\u00fablica brasileira, com uma lament\u00e1vel e amaldi\u00e7oada estrat\u00e9gia (o Brasil sempre escuta melhor o que vem da Europa do que aquilo que o pr\u00f3prio Brasil lhe diz e descobrimos que cont\u00e1vamos entre n\u00f3s com um conjunto de jornalistas brasileiras emigradas, com alt\u00edssima qualifica\u00e7\u00e3o) e batemos \u2013 com for\u00e7a! &#8211; na porta do governo. No nosso caso, as representa\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas do governo brasileiro no exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sem antes tentar falar diretamente com quem \u201cmandava\u201d. Lembro a visita que fizemos a um senhor, j\u00e1 falecido, chamado Marco Aur\u00e9lio Garcia. <strong>Todos diziam que sobre o Brasil no exterior, o Presidente da Rep\u00fablica o escutaria melhor, ao assessor Marco Aur\u00e9lio, que ao pr\u00f3prio Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tempos depois, recebemos das m\u00e3os do C\u00f4nsul-Geral do Brasil em Barcelona um telegrama onde ele comunicava \u00e0 Bras\u00edlia haver aberto as portas do consulado para um grupo de volunt\u00e1rios brasileiros dispostos a ajudarem-se mutuamente e \u00e0 comunidade. <strong>O que ele considerava, por escrito, uma ajuda importante ao papel que ele desempenhava e que nossa di\u00e1spora (at\u00e9 aquele dia eu nunca havia pensado nessa express\u00e3o) tanto necessitava. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Eu trabalhava de gari, varrendo rua, quando recebi convite para acompanha-lo \u00e0 1\u00aa Confer\u00eancia Brasileiros no Mundo.<\/strong> Participamos juntos do Grupo Tem\u00e1tico de Cultura. E percebemos a import\u00e2ncia da cultura brasileira n\u00e3o somente como \u201canimadora de festas\u201d. N\u00e3o tenho a menor d\u00favida de que a Capoeira, l\u00e1 no suntuoso Pal\u00e1cio do Itamaraty, com toda a ancestralidade que representa, foi e seguir\u00e1 sendo fundamental, naquele momento e sempre. <\/p>\n\n\n\n<p>Foi assim que\naprendemos algumas li\u00e7\u00f5es, que esperamos servir para estes dias.<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li><strong>Em um pa\u00eds, a Espanha, que investe e ganha muito dinheiro privado com o Brasil, as representa\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas poderiam servir de liga\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s, as associa\u00e7\u00f5es e os projetos socioculturais,<\/strong> e \u2013 do outro lado &#8211; os empres\u00e1rios locais, \u00e1vidos por associarem suas marcas e empresas a esse produto infinito e inesgot\u00e1vel chamado Brasil (mesmo em tempos de crise; ou, ali\u00e1s, principalmente em tempos de crise, quando \u201cnaturalmente\u201d s\u00f3 eles sabem como aumentam de forma extraordin\u00e1ria seus pr\u00f3prios lucros). Descobrimos que existe uma coisa chamada Carta de Recomenda\u00e7\u00e3o assinada pelo representante do Governo do Brasil que nos abria algumas portas, embora n\u00e3o garantisse encontrar ouro detr\u00e1s dessas mesmas portas. Em tempos de crise, j\u00e1 era alguma coisa. Tudo que para o governo n\u00e3o parecia importante, para n\u00f3s era algo que potencializava nossa ajuda. Recordo uma empresa catal\u00e3, com forte presen\u00e7a no Brasil, que alugou todo o majestoso Palau de la M\u00fasica Catal\u00e3 e um show brasileiro para sua festa de confraterniza\u00e7\u00e3o \u2013 mal organizado, mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria; que, por certo, tamb\u00e9m nos compete seguir falando. <\/li><li><strong>Descobrimos que havia pequena dota\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria para apoio a projetos socioculturais e que fizessem a promo\u00e7\u00e3o da l\u00edngua portuguesa no exterior<\/strong>. Enfim, achamos a tal rubrica or\u00e7ament\u00e1ria! Com o \u00fanico argumento de que era pouqu\u00edssimo dinheiro, chegava atrasado e \u00e0s vezes nem chegava, n\u00e3o conseguiram nos remover da ideia de que na crise, qualquer centavo ajuda: em terra de cego quem tem um olho \u00e9 rei. Quatrocentos euros de ajuda ou de aluguel significa n\u00e3o dormir na rua, dizia uma companheira artista que sabia muito bem do que falava, ela e sua fam\u00edlia. <\/li><li><strong>Com o advento das redes sociais, encontramos nas plataformas de divulga\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio governo (p\u00e1ginas web, Facebooks dos consulados, listas de difus\u00e3o&#8230;), em cada pa\u00ed<\/strong>s, o m\u00ednimo de publicidade que qualquer atividade, festa, show, projeto etc. necessitava para chegar ao nosso grande p\u00fablico: n\u00e3o somente \u00e0 nossa comunidade, mas a uma quantidade imensa de n\u00e3o brasileiros que sabe que um sambinha ou uma bossa-nova servem pra aliviar qualquer dia de crise. Esperan\u00e7a mais que necess\u00e1ria. <\/li><li><strong>N\u00e3o foi de outra forma que descobrimos que existiam ainda pouqu\u00edssimas datas onde se podia fazer um pedido especial de or\u00e7amento suplementar: as famosas datas c\u00edvicas, tendo no Dia da Independ\u00eancia, o Sete de Setembro, como melhor exemplo<\/strong>. S\u00f3 faltava agora repetir o erro de n\u00e3o contratar pessoas da nossa comunidade e sim empresas locais, n\u00e3o brasileiras. Sem bairrismo nem xenofobia, por favor. Mas a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar. Na Alemanha, uma festa de S\u00e3o Jo\u00e3o, em traje a rigor, foi animada por um grupo de \u00f3pera alem\u00e3o. Aqui, uma cooperativa espanhola, por exemplo, contratou toda uma Escola de Samba pra um evento brasileiro. Mais simples imposs\u00edvel. Noutro dia, em Madri, a Embaixada do Brasil articulou importante reuni\u00e3o na Casa do Brasil, na Capital da Espanha. Compareci como Vice-presidente do Conselho Mundial de Representantes e a Embaixada apresentou-nos, significativa comitiva, aos altos cargos representantes do Minist\u00e9rio da Cultura da Espanha, que por sua vez nos apresentou projetos espec\u00edficos de medidas sociais de fomento \u00e0 cultura em tempos de crise. N\u00e3o me sai da cabe\u00e7a a afirma\u00e7\u00e3o do Ministro da Cultura da Espanha, amigo do ent\u00e3o Ministro brasileiro Gilberto Gil: \u201cem tempos de crise, esse pa\u00eds, o Brasil, sempre ter\u00e1 diante dos pr\u00f3prios olhos o seu principal produto de exporta\u00e7\u00e3o ao mundo. A diversidade sociocultural\u201d. <\/li><\/ol>\n\n\n\n<p><strong>Evidentemente, a cultura como oportunidade;<\/strong> e n\u00e3o como amea\u00e7a, &#8211; assim como \u00e9 hoje vista, para quem ainda acredita (como na Idade M\u00e9dia) que a terra \u00e9 plana. S\u00e3o outros tempos? A luta \u00e9 a mesma&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Pois, sinceramente, n\u00e3o faz muito tempo. <strong>O ano de 2008 foi ontem. Pra que serve, ent\u00e3o, a hist\u00f3ria? Somente pra esquecer? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>*<strong>Fl\u00e1vio Carvalho (@1fl\u00e1viocarvalho), colaborador do Blog Mundo Afora, \u00e9 soci\u00f3logo e escritor. <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Fl\u00e1vio Carvalho N\u00e3o h\u00e1 luz no fim do t\u00fanel. N\u00e3o h\u00e1 t\u00fanel. A luz est\u00e1 aqui. 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