{"id":6073,"date":"2020-07-06T15:47:36","date_gmt":"2020-07-06T15:47:36","guid":{"rendered":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/?p=6073"},"modified":"2020-10-22T10:34:19","modified_gmt":"2020-10-22T10:34:19","slug":"ze-som-alem-de-bom-o-pai-de-visnu-politica-que-nada-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=6073","title":{"rendered":"Z\u00e9 Som, al\u00e9m de bom, o pai de Visnu. Pol\u00edtica? Que nada! Vida&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<p>*<strong>Por Fl\u00e1vio Carvalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para\nMassimo Pietrobon, amigo, artista. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>\u00c9 s\u00f3 ter calma e tudo vem. Vou prosseguir, vou sempre assim. Eu sou do bem\u201d<\/em>. (<strong>Nan\u00e1 Vasconcelos<\/strong>)<\/p>\n\n\n\n<p>A grande novidade do movimento social associativo brasileiro em Barcelona, nos \u00faltimos anos, \u00e9 uma iniciativa chamada <strong>Ciclo Mujeres <\/strong>(assim, em castelhano, tentando di\u00e1logos com outras culturas), criado pela A<strong>ssembleia de Mulheres Brasileiras contra o Fascismo<\/strong>. <strong>Pelo que sei deste potent\u00edssimo grupo de mulheres, foi criado no \u00e2mbito da campanha internacional Ele N\u00e3o. Evidentemente contra Bolsonaro e a elei\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de um assumido fascista para a Presid\u00eancia do Brasil. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nesse grupo,<\/strong> muito ativo nas redes sociais, somente de mulheres (como creio que deve ser), <strong>est\u00e3o todas as minhas grandes amigas, al\u00e9m de \u2013 n\u00e3o acredito em coincid\u00eancias \u2013 estarem todas as melhores ativistas sociais brasileiras em defesa dos direitos humanos na Catalunha. <\/strong>De fato, referentes europeias do nosso melhor Brasil. Comecei agora mesmo a digitar seus nomes e logo apaguei, com medo de esquecer qualquer nome &#8211; que para mim representaria mais que um nome. Representa uma imensa hist\u00f3ria. Vidas imensas, tal como se deve viver. \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Porque come\u00e7ar esse escrito contextualizando assim, \u201cpoliticamente\u201d? O que em princ\u00edpio seria um \u201cnada a ver\u201d, pra mim tudo interliga. Foi<strong> por aqui que me chegou primeiro o nome da filha de um \u201cvelho conhecido\u201d. Como se eu estivesse predestinado a conhecer Visnu. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m porque\nestou revendo, num ger\u00fandio cont\u00ednuo, todos os meus valores e tentando chegar a\nalgumas importantes conclus\u00f5es. At\u00e9 pouco importa se eu chegarei ou n\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Para mim, a melhor \u201cpol\u00edtica\u201d, agora mesmo, \u00e9 falar de n\u00f3s mesmos. <strong>E no Ciclo Mujeres encontrei o fen\u00f4meno sociocultural mais interessante. Empatia. Sororidade. <\/strong>Elas acreditam (e eu tamb\u00e9m) estar ajudando a mudar o mundo, se ajudando. Se acompanhando, pra dizer melhor. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa, embora pra um esquema mental meramente masculino \u2013 do que eu tento fugir, cada dia &#8211; isso possa significar quase nada. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 de hoje que insisto em que falar de saudade, por exemplo, pode ser mais revolucion\u00e1rio do que falar de tentar democratizar a burocracia <\/strong>(antidemocr\u00e1tica, por exemplo, na sua ess\u00eancia). Ou falar da morte, nos tempos que vivemos, somente pra pegar outro bom (ou mal) exemplo. Principalmente quando a gente sente que pra um migrante, toda morte \u00e9 diferente. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pois \u00e9 nesse caminho diferente, transformador, realmente revolucion\u00e1rio \u2013 no sentido estrito da palavra \u2013 que elas (me) embarcaram.<\/strong> Essas brasileiras, grandes amigas. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Agora pe\u00e7o permiss\u00e3o pra deixar de lado toda essa ret\u00f3rica, pra falar diretamente de Visnu. <\/strong>Todo esse arrodeio foi porque nela eu queria chegar. Mas com ela at\u00e9 essa volta \u00e9 importante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O seu pai, Z\u00e9 Som, deixou-nos h\u00e1 poucos dias. <\/strong>E todo aquele movimento que comecei falando, no come\u00e7o desse texto, nada seria se n\u00e3o fosse a presen\u00e7a, entre n\u00f3s, de mulheres como ela. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Visnu \u00e9 Bi\u00f3loga e Doula, palavra ainda pouco conhecida que designa o important\u00edssimo papel das profissionais que acompanham a gravidez, o pr\u00e9-parto, o parto e o p\u00f3s-parto \u2013 a integralidade do nascimento de uma nova vida, enfim<\/strong>. Qual profiss\u00e3o mais maravilhosa neste mundo? E porque ganha ainda mais relevo falar de nascimento, morte e vida? Renascer&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conheci, afinal, Visnu em Barcelona, num Sarau. No meio de muita m\u00fasica e poesia<\/strong>. Nunca um abra\u00e7o reconectou-me tanto com Olinda, o lugar de onde eu vim. Sou grande amigo do pai (Serginho) do seu sobrinho (Rodin). E como todo bom olindense, conheci seu pai, Z\u00e9 Som. Um dos melhores artistas pl\u00e1sticos de uma cidade repleta de artistas, nossa Olinda.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Al\u00e9m disso, toda a fam\u00edlia morou na pra\u00e7a preferida da minha cidade preferida, na Pra\u00e7a dos Milagres, em Olinda.<\/strong> Naquela Pra\u00e7a onde eu vivi e onde eu tantas vezes renasci. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Z\u00e9 Som \u00e9 um artista t\u00e3o bom (artista n\u00e3o morre, nunca!), que um dilema me persegue desde o dia que lhe conheci, na sua casa: lugar de vida; trabalho j\u00e1 englobado.<\/strong> Como ele pinta com os dedos, os seus quadros correm sempre o risco de se perder por esse \u201cdetalhe\u201d, mais que pela qualidade (excelente! Creiam-me ou busquem na Internet). Como assim, menos pelo conte\u00fado, do que pela forma como pinta? Nada disso! N\u00e3o seria o artista que \u00e9 se n\u00e3o acreditasse nas suas pr\u00f3prias qualidades. E quem o conhece sabe: homem \u201cavan\u00e7ado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A frase mais impactante do poeta pernambucano Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto sobre o pintor catal\u00e3o Joan Mir\u00f3 foi essa: \u201cMir\u00f3 n\u00e3o pinta quadros; Mir\u00f3 pinta\u201d. <strong>Sobre Z\u00e9 Som escutei um dia de outro amigo, grande artista das Olindas: \u201cn\u00e3o \u00e9 que Z\u00e9 Som seja o artista que melhor pintou Olinda; o que foi &#8211; sim. Por\u00e9m, Z\u00e9 Som n\u00e3o somente pinta Olinda. Z\u00e9 Som pinta\u201d<\/strong>. <\/p>\n\n\n\n<p>Para mim,\nele pinta. Ainda! <\/p>\n\n\n\n<p><strong>E pela sua hist\u00f3ria de vida \u2013 melhor ainda explicada n\u00e3o somente por uma filha, mas por&#8230; Visnu!<\/strong> \u2013 tenho aquela sensa\u00e7\u00e3o de que conhecer o homem, o idealista, sempre explica melhor o trabalho do artista. \u00a0Z\u00e9 som \u00e9 a vida sem medo, em cada dedo, em cada tinta. \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Seja sincero com voc\u00ea mesmo e tente lembrar o impacto que uma obra de arte algum dia lhe provocou. <strong>Recordo como se fosse hoje, entrar numa ONG muito significativa para a minha vida (o Centro de Cultura Luiz Freire) e l\u00e1 deparar-me com uma paisagem olindense<\/strong> \u2013 o motivo pict\u00f3rico preferido do artista \u2013 que me marcou pelo resto do que me resta de vida. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Lembro-me de haver conhecido o neto Rodin (dias depois de visitar uma exposi\u00e7\u00e3o do famoso escultor, que lhe deu o nome, no Mamam, no Recife)<\/strong> com o av\u00f4 Z\u00e9 Som ao lado, todo orgulhoso do nome do netinho. <\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o me sai da cabe\u00e7a o tentar falar ontem mesmo com Visnu, depois de ver no Facebook (do amigo tamb\u00e9m olindense \u00c1lvaro Pantoja, que atualmente vive em Portugal), a not\u00edcia sobre as homenagens que toda a Olinda n\u00e3o para de fazer ao grande Z\u00e9 Som.<strong> \u00c1lvaro, grande mestre das dan\u00e7as circulares, simplesmente postou v\u00e1rias fotos de Z\u00e9 Som com seu nome acompanhado de uma palavra: \u201cViva\u201d. Suficiente. Desmoronei-me. Primeiro pensando \u201cn\u00e3o sei por que\u201d. No minuto seguinte, respondendo a mim mesmo: \u201c\u00e9 claro que eu sei\u201d. Eu sei sim. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o\nquerendo sair logo da emo\u00e7\u00e3o, uma quest\u00e3o, n\u00e3o menor, me invade. Sobre\nmigra\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a\nterceira vez que me acontece, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha migra\u00e7\u00e3o \u00e0s terras da\nCatalunha.<\/p>\n\n\n\n<p>Vai-se o\npai de uma amiga e um pensamento me intriga. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por melhor artista que seja \u2013 e o \u00e9! \u2013 a dor da perda e a profunda empatia com o sentimento da amiga me reafirma: \u00e9 o pai de Visnu<\/strong>. Muito mais que um amigo, o homem bom, o artista, Z\u00e9 Som. <\/p>\n\n\n\n<p>E isso \u00e9\nmuito demais, me perdoem o pleonasmo. Mas \u00e9 que Z\u00e9 Som, se n\u00e3o fosse quem \u00e9, o\npai de Visnu, j\u00e1 seria um artista pra l\u00e1 de bom. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>E assim a grande perda se duplica \u2013 ou multiplica. J\u00e1 viram que gosto dessa palavra: ressignifica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A maravilha \u00e9 que quando meu pai morreu \u2013 faz pouco tempo e eu estando aqui de longe, como Visnu \u2013 aconteceu comigo o que hoje sinto pela amiga: intensa empatia<\/strong>. Mais que isso, certamente nem precisa. Mas escrevo, por terapia. E ousado, compartilho. Apresentem-me se conhecerem, por favor, um escritor que escreve para n\u00e3o ser lido. Eu duvido&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O meu pai n\u00e3o era artista como o Pai de Visnu. Mas todo pai, pra n\u00f3s, de longe, migrantes, sempre ser\u00e1 o nosso melhor artista. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje \u00e9 nosso, por tudo isso, o pai de Visnu. <strong>Aten\u00e7\u00e3o: mais que o artista. O pai de Visnu. Um homem bom. Z\u00e9 Som. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Barcelona,\ncomo se fosse Olinda, ver\u00e3o de 2020. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fl\u00e1vio\nCarvalho (@1flaviocarvalho) \u00e9 olindense, escritor e soci\u00f3logo. <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Fl\u00e1vio Carvalho Para Massimo Pietrobon, amigo, artista. \u201c\u00c9 s\u00f3 ter calma e tudo vem. 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