{"id":6664,"date":"2020-11-12T19:24:04","date_gmt":"2020-11-12T19:24:04","guid":{"rendered":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/?p=6664"},"modified":"2020-11-12T19:26:39","modified_gmt":"2020-11-12T19:26:39","slug":"escravidao-sexual-contemporanea-e-dramas-das-brasileiras-presas-no-exterior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=6664","title":{"rendered":"Escravid\u00e3o sexual contempor\u00e2nea e dramas das brasileiras presas no exterior"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_6665\" aria-describedby=\"caption-attachment-6665\" style=\"width: 162px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FLAVIO-CARVALHO-4.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-6665\" src=\"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FLAVIO-CARVALHO-4.jpg\" alt=\"Flavio Carvalho\" width=\"162\" height=\"234\" srcset=\"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FLAVIO-CARVALHO-4.jpg 890w, https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FLAVIO-CARVALHO-4-209x300.jpg 209w, https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FLAVIO-CARVALHO-4-712x1024.jpg 712w, https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FLAVIO-CARVALHO-4-768x1105.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 162px) 100vw, 162px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6665\" class=\"wp-caption-text\">Fl\u00e1vio Carvalho \u00e9 soci\u00f3logo e escritor<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Por Fl\u00e1vio Carvalho<\/strong><\/p>\n<p>\u201c<em>Por\u00e9m l\u00e1 n\u00e3o estavas nua e sim coberta de nuvens<\/em>\u201d (<strong>Terra, de Caetano Veloso<\/strong>).<\/p>\n<p><em><strong>\u201cSeu Fl\u00e1vio, o senhor pode me dar um abra\u00e7o, por favor?\u201d<\/strong><\/em>. Assim fui recebido, anos atr\u00e1s, numa min\u00fascula sala do <strong>Pres\u00eddio de Mulheres de Wad-Ras, em Barcelona<\/strong>. Numa visita volunt\u00e1ria que realizei como representante associativo as 22 mulheres brasileiras que esperavam o dia de visita como um dia de festa. E de tristeza, ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Nunca me esquecerei da brincadeira do funcion\u00e1rio da pris\u00e3o, j\u00e1 na entrada: \u201cagora, sendo vinte e duas, j\u00e1 d\u00e1 pra montar dois times\u201d. Era \u00e9poca de Copa do Mundo. N\u00e3o achei muita gra\u00e7a na piada e fiz quest\u00e3o de demonstrar pra ele.<\/p>\n<p><strong>Ajudava a organizar as visitas, com agradecimento da diretoria da pris\u00e3o, uma brasileira considerada mais \u201cprestativa\u201d.<\/strong> A que escrevia as cartas e que escrevia recursos administrativos, fazendo o trabalho dos Advogados \u201cde Of\u00edcio\u201d (da defensoria p\u00fablica). Os advogados que sempre reclamavam de recortes na subven\u00e7\u00e3o p\u00fablica, utilizando como desculpa para deix\u00e1-las legalmente desamparadas. Chegamos a escrever dezenas, juntos, em um \u00fanico dia.<\/p>\n<p><strong>O drama dessa menina, \u201ca do abra\u00e7o\u201d, n\u00e3o era nada de mais, se comparado com a de uma jovem m\u00e3e que n\u00e3o parava de chorar pela doen\u00e7a grave de um dos seus filhos.<\/strong> Sua amiga e colega \u201cde quarto\u201d (de cela), a que mais a ajudava, dizia que oferecia dobrar os anos da sua condena\u00e7\u00e3o e cumprir tamb\u00e9m os dela, se poss\u00edvel fosse. Ambas (e a imensa maioria) presas por tr\u00e1fico de drogas \u2013 que o c\u00f3digo penal espanhol denomina, eufemisticamente, de atentado \u00e0 <strong>sa\u00fade p\u00fablica e d\u00e1 seis anos de pris\u00e3o, seguido de expuls\u00e3o da Espanha.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cada uma com uma hist\u00f3ria de pontos em comum (prostitui\u00e7\u00e3o, engano, pobreza e machismo), mas com um universo de dramas pessoais e psicossociais em nada compar\u00e1vel uns com os outros<\/strong>. Em uma pris\u00e3o, cada sentimento \u00e9 um mundo. Eu sempre pensava na carga emocional na hora de sair dali, com aquele peso imenso das portas de ferro fechando por detr\u00e1s. Assustador. De tirar o sono. E olha que as pris\u00f5es, por aqui, fazem de tudo para n\u00e3o parecer pris\u00e3o. Mas tem coisas que n\u00e3o tem jeito.<\/p>\n<p>Anos depois, voltei a Wad-Ras. J\u00e1 era pelo meu trabalho. E me lembro que a administra\u00e7\u00e3o dos pres\u00eddios nos tratava melhor como volunt\u00e1rios. E as \u201cinternas\u201d tamb\u00e9m. <strong>\u201cDesconfiam dos seus governos e muitas n\u00e3o querem que as fam\u00edlias saibam de suas hist\u00f3rias\u201d, avisou-me uma assistente social<\/strong>. \u201cN\u00e3o querem nem que avisemos aos seus consulados\u201d, como um direito ao serem presas. Depois de um m\u00eas se arrependem e requerem diversos tipos de ajuda. Inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Certo dia, por exemplo, entrei com filho e m\u00e3e, no pres\u00eddio de Lledoners, para ver um pai, agricultor no interior de Goi\u00e1s, que investiu numa mentira (sem \u00eaxito): dever\u00edamos mentir ao seu filho, que aquilo era uma f\u00e1brica onde o seu pai trabalhava vinte e quatro horas por dia. N\u00e3o deu certo e a psic\u00f3loga do pres\u00eddio o convenceu a explicar toda a verdade ao seu filho. E melhor se sa\u00edsse da sua pr\u00f3pria boca.<strong> N\u00e3o sei se foi um dia t\u00e3o terr\u00edvel para mim quanto foi pra eles.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mas a pior situa\u00e7\u00e3o vem desse outro eufemismo que as autoridades espanholas chamam de Trata. Outra tentativa de nome bonito para uma crueldade. Uma modalidade de escravid\u00e3o sexual internacional em pleno s\u00e9culo XXI.<\/strong> No ano 2015 escrevi sobre a brasileira que sempre queimava a retina quando sa\u00eda ao m\u00ednimo sol, depois de anos trabalhando no por\u00e3o escuro de um prost\u00edbulo (for\u00e7ado!) em<strong> Castelldefels<\/strong> \u2013 cidade famosa por abrigar a resid\u00eancia dos astros do futebol aqui na Catalunha.<\/p>\n<p><strong>E cidade onde havia dois m\u00edticos \u201cClubes de Alterne\u201d (outro bonito nome, n\u00e9?)<\/strong> e v\u00e1rios outros, clandestinos, que abrigavam dezenas de escravizadas. \u201cEst\u00e3o porque querem; porque gostam\u201d \u2013 era o que mais se escutava da boca dos homens que as \u201cusavam\u201d (e abusavam). Como se comprar hora de sexo lhes desse ainda o direito a comprar o falar por elas.<\/p>\n<p>Nesses clubes, a maioria era de brasileiras. <strong>Entrevistei algumas para uma pesquisa da universidade,<\/strong> ajudado pelo melhor informante e intermedi\u00e1rio que eu poderia ter: o que cuidava de enviar seus Euros, transformados em Reais, para o Brasil.<\/p>\n<p>Havia uma que chorava (muito!) quando a entrevistava diretamente, em particular. <strong>Quando voltava a se juntar com as outras, fingia estar content\u00edssima e dizia que at\u00e9 gostava da vida e da clientela.<\/strong> Me piscava o olho, discretamente, em confid\u00eancia e confian\u00e7a. Minha modesta forma\u00e7\u00e3o teatral n\u00e3o chegava aos p\u00e9s daquela grande atriz, levada pela vida a encenar naquela circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>Nesta semana, soube que a hist\u00f3ria de uma delas, de pseud\u00f4nimo Berta (assista o v\u00eddeo aqui:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=eOZIPurlffU\" data-auth=\"NotApplicable\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=eOZIPurlffU<\/a>) virou campanha global<\/strong> da mais importante ONG do Mundo, em minha opini\u00e3o: <strong>Anistia Internacional<\/strong>. Me alegro por mais este trabalho. E me entriste\u00e7o ao lembrar aquelas visitas.<\/p>\n<p><iframe title=\"Berta, v\u00edctima de trata. #CadenasInvisibles\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eOZIPurlffU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Nem todas eram trabalhadoras sexuais. Esta n\u00e3o deveria ser uma associa\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica entre o <strong>Tr\u00e1fico de Seres Humanos e o Tr\u00e1fico de Drogas<\/strong>. Mas n\u00e3o posso negar as conex\u00f5es. Os machos que lucram s\u00e3o quase os mesmos. As que sofrem, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Sobre o abra\u00e7o que eu dei, o fiz cumprindo o protocolo de visitas que me informaram, na recep\u00e7\u00e3o do pres\u00eddio:<\/strong> somente diante de uma funcion\u00e1ria, como testemunha e medida de precau\u00e7\u00e3o administrativa. Nem por isso, com menos gosto: abra\u00e7o n\u00e3o se d\u00e1 se tamb\u00e9m n\u00e3o se recebe, abertamente, como os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Aquele abra\u00e7o.<\/p>\n<p>Barcelona, 31 de outubro de 2020, como se fosse em Caldas Novas, interior de Goi\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1vio Carvalho (@1flaviocarvalho) \u00e9 soci\u00f3logo e escritor.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Carvalho \u201cPor\u00e9m l\u00e1 n\u00e3o estavas nua e sim coberta de nuvens\u201d (Terra, de Caetano Veloso). \u201cSeu Fl\u00e1vio, o<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":6666,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[256],"tags":[65,2545,2339,2544],"class_list":["post-6664","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","tag-espanha","tag-exploracao-sexual-brasileiras","tag-flavio-carvalho-blog-mundo-afora","tag-trafico-de-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6664","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6664"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6664\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6668,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6664\/revisions\/6668"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6666"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6664"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6664"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6664"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}