{"id":7191,"date":"2021-06-08T20:45:25","date_gmt":"2021-06-08T20:45:25","guid":{"rendered":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/?p=7191"},"modified":"2021-06-08T20:45:45","modified_gmt":"2021-06-08T20:45:45","slug":"jamelao-franca-e-chico-science-um-onibus-pro-ceu-passando-por-rio-doce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=7191","title":{"rendered":"Jamel\u00e3o Fran\u00e7a e Chico Science, um \u00f4nibus pro c\u00e9u passando por Rio Doce"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Fl\u00e1vio Carvalho<\/strong><\/p>\n<p>\u201c<em>Roberto Carlos \u00e9 o rei do i\u00ea-i\u00ea-i\u00ea. Jamel\u00e3o cantando samba faz o morro estremecer. Lia na ciranda tamb\u00e9m \u00e9 de primeira. No bai\u00e3o Luiz Gonzaga, no frevo Nelson Ferreira<\/em>\u201d (Lia de Itamarac\u00e1).<\/p>\n<p>O sentimento mais forte na minha passagem da juventude \u00e0quilo que chamamos de vida adulta foi haver tido o privil\u00e9gio de passar por uma revolu\u00e7\u00e3o musical, em pleno bairro onde eu morava. &nbsp;O bairro se chama Rio Doce, em Olinda, porque havia um rio limpo onde meus pais tomaram banho e pegavam caranguejo \u201cde andada\u201d (toda uma arte).<\/p>\n<p>Eu nunca tive coragem de me banhar no Rio Doce, pois j\u00e1 estava mais que polu\u00eddo.<\/p>\n<p>Foi quando eu morava no perif\u00e9rico bairro de Rio Doce que eu conheci Jamel\u00e3o Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, eu, lutando comigo mesmo pra (sem \u00eaxito nenhum) aprender a tocar viol\u00e3o, conheci Jamesson \u2013 seu verdadeiro nome, no CEMO, o Centro de Educa\u00e7\u00e3o Musical de Olinda. Depois jogando Handball nos jogos estudantis. Trabalhamos juntos na pol\u00edtica, quando Olinda elegeu a primeira prefeita de um Partido Comunista em toda a hist\u00f3ria do Brasil. A \u00faltima vez que estivemos juntos foi numa volta \u00e0 universidade onde estudamos &#8211; na Federal de Pernambuco. \u201cCad\u00ea Chico, Jamel\u00e3o?\u201d. \u201cT\u00e1 no c\u00e9u do mundo, Jones\u201d (me chamava assim).<\/p>\n<p>Seu irm\u00e3o, Chico, me dizia que ele, Jamel\u00e3o, era Pagodeiro, em tom depreciativo (pra zoar, tirar onda, perturbar&#8230;). O pr\u00f3prio nome Jamel\u00e3o, em homenagem ao famoso sambista carioca, fazia jus \u00e0s vezes que eu o vi, ao irm\u00e3o de Francisco, cantar num pagode em Maranguape \u2013 bairro ao lado, famoso pela Pagoderia duma tal Concei\u00e7\u00e3o. Fui poucas vezes, mas quase sempre coincidi com Jamel\u00e3o e seu sorriso f\u00e1cil, com jeito gingado at\u00e9 no caminhar.<\/p>\n<p>A praia de Chico era outra, mais perto da minha. A gente gostava mais de Rock. Eu vos falei neste texto que eu estava saindo da juventude, que insistia em n\u00e3o sair de mim&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 o dia que Chiquinho, como sua m\u00e3e o chamava, come\u00e7ou a frequentar o Bronx, o Harlem, que era como C\u00e1tia de Fran\u00e7a nomeava os bairros mais pretos da nossa cidade preta, Olinda: Peixinhos, \u00c1guas Compridas (perceba quanta rela\u00e7\u00e3o h\u00eddrica no nome das comunidades!), e Ch\u00e3o de Estrelas &#8211; o bairro com nome mais lindo do mundo. \u201cO brilho da lua cheia entrando pelo teto do barraco pobre, furado, de zinco, salpicava de estrelas o nosso ch\u00e3o\u201d, \u00e9 poesia pura popular demais \u2013 com a permiss\u00e3o po\u00e9tica desse trecho, dos mais belos que eu j\u00e1 vi.<\/p>\n<p>Chiquinho tornou-se Chico Science &amp; Na\u00e7\u00e3o Zumbi, ganhou o Mundo, apadrinhado por Gilberto Gil. E nunca mais a m\u00fasica popular (do povo empobrecido) do Brasil, passou a ser a mesma. Para mim e para muita gente que eu conheci naquela \u00e9poca, uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o \u2013 e n\u00e3o uma simples mudan\u00e7azinha. Um golpe necess\u00e1rio na cena cultural de todo o pa\u00eds, por uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural forjada \u00e0 guitarra el\u00e9trica e ao ritmo de batucadas diversas. De Olinda, de Rio Doce, para o Mundo. Ancestralidade pura. Viva Zumbi!<\/p>\n<p>Ontem me chegou a not\u00edcia de um novo golpe, falando em pancada forte.<\/p>\n<p>Jamel\u00e3o Fran\u00e7a n\u00e3o morreu. Ontem ele se tornou mais uma vida golpeada pelo golpe politico mais vil que j\u00e1 deram no meu Brasil. Quase meio milh\u00e3o de vidas interrompidas.<\/p>\n<p>Aquela mistura de raiva incontida quando a gente n\u00e3o quer sentir, mas sente (mesmo sem querer; mas sentimento \u00e9 sentimento&#8230;), que \u00e9 como se tivesse sido assassinado.<\/p>\n<p>Porque \u00e9 mais uma boa vida que poderia ter sido salva. E todos sabemos como!<\/p>\n<p>Mas, como eu disse, quem foi mais vida do que muita gente que prefere seguir meio-morto, mesmo estando vivo, nem \u00e9 morte. \u00c9 outra forma de relacionar-se com a vida. Aprendendo at\u00e9 mesmo a relacionar-se com a morte, de outra forma. Ou da melhor poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Se o Brasil passou todo esse tempo sem aprender a relacionar-se com a morte, como ela sendo uma das coisas que d\u00e3o sentido \u00e0 vida, Jamel\u00e3o&#8230; E ent\u00e3o, meu irm\u00e3o?!<\/p>\n<p>Vai na paz. N\u00e3o vai, quem fica.<\/p>\n<p>E d\u00e1 aquele abra\u00e7o, ou tira onda, zoando, tu tamb\u00e9m, com o brotherzinho.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio Carvalho (@1flaviocarvalho, @quixotemacunaima) \u00e9 soci\u00f3logo e escritor<\/p>\n<p>Barcelona, junho de 2021<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Carvalho \u201cRoberto Carlos \u00e9 o rei do i\u00ea-i\u00ea-i\u00ea. Jamel\u00e3o cantando samba faz o morro estremecer. Lia na ciranda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7194,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[256],"tags":[46,2874,998,2873,1616],"class_list":["post-7191","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","tag-brasil","tag-chico-science","tag-flavio-carvalho","tag-jamelao-franca","tag-olinda"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7191"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7195,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7191\/revisions\/7195"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7194"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}