{"id":7385,"date":"2021-12-26T19:28:06","date_gmt":"2021-12-26T19:28:06","guid":{"rendered":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/\/?p=7385"},"modified":"2022-01-13T12:43:48","modified_gmt":"2022-01-13T12:43:48","slug":"o-natal-e-a-aventura-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=7385","title":{"rendered":"O Natal e a aventura humana"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Cesar Vanucci<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;<strong><em>Natal. Apagam-se as luzes, acendem-se as esperan\u00e7as<\/em><\/strong>\u201d.&nbsp;(Eva Reis)<\/p>\n<p>O <strong>Nata<\/strong>l \u00e9, por excel\u00eancia, a \u00e9poca que melhor se identifica com o conceito ideal de vida proposto por <strong>Akira Kuruosawa<\/strong>, quando fala, com fasc\u00ednio na voz e no olhar, do \u201cmundo invej\u00e1vel dos cora\u00e7\u00f5es fervorosos\u201d. O cineasta, sem prop\u00f3sito preconcebido, de vez que emprega a harmoniosa express\u00e3o num contexto cultural n\u00e3o influenciado pelo sentimento dominante nas celebra\u00e7\u00f5es natalinas, confere resson\u00e2ncia human\u00edstica \u00e0 mensagem de definitiva beleza que chega do fundo e do alto dos tempos. A transcend\u00eancia desta mensagem, de origem divina e conte\u00fado c\u00f3smico, abrasa os cora\u00e7\u00f5es e concita as criaturas de boa vontade a se empenharem na <strong>constru\u00e7\u00e3o de um mundo melhor<\/strong>, n\u00e3o apenas com vistas \u00e0 conquista, aqui e agora, da p\u00e1tria terrena.<\/p>\n<p>Como conceber, com os olhos da esperan\u00e7a, esse mundo invej\u00e1vel? Ele ser\u00e1, seguramente, povoado de amor fraterno e n\u00e3o de \u00f3dio destruidor, de apaixonante solidariedade social e n\u00e3o de desapiedado utilitarismo. De justi\u00e7a removedora de desigualdades e n\u00e3o de injusti\u00e7a que s\u00f3 faz, o tempo todo, agu\u00e7\u00e1-las. De contempla\u00e7\u00e3o ecum\u00eanica e democr\u00e1tica dos contrastes de opini\u00e3o existentes no relacionamento das ruas e n\u00e3o de imposi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria, nascida em ambientes fechados e acinzentados, em favor de doutrina pol\u00edtica \u00fanica ou de pensamento religioso sect\u00e1rio. De cren\u00e7a nos valores espirituais, garantidores da dignidade e n\u00e3o de desprezo solene a preciosos dons humanos, em nome de posturas preconceituosas e desagregadoras. <strong>N\u00e3o fosse tudo isto tradu\u00e7\u00e3o fiel das condi\u00e7\u00f5es de vida imaginadas em sua peregrina\u00e7\u00e3o de amor pela mais s\u00e1bia e poderosa das criaturas, o Deus que h\u00e1 dois mil anos se fez carpinteiro.<\/strong><\/p>\n<p>A realidade impiedosa de nossos tempos mostra que a dist\u00e2ncia do alvo a atingir, na aspira\u00e7\u00e3o dos cora\u00e7\u00f5es fervorosos, \u00e9 medida por consider\u00e1veis anos-luz. Muitas as estruturas da conviv\u00eancia humana em estado de desarranjo. Esquecida das li\u00e7\u00f5es do saber eterno, <strong>a humanidade tem avan\u00e7ado celeremente na edifica\u00e7\u00e3o de um mundo mecanicista<\/strong>, onde a tecnologia assume, na encruzilhada de decis\u00f5es cruciais, caminhos de duvidosa efic\u00e1cia para o atingimento da promo\u00e7\u00e3o humana. O exemplo \u00e9 contundente e n\u00e3o \u00e9 \u00fanico. Nas preocupa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e cient\u00edficas, o conhecimento da desintegra\u00e7\u00e3o do \u00e1tomo est\u00e1 mais pr\u00f3ximo da fabrica\u00e7\u00e3o de artefatos b\u00e9licos do que da cria\u00e7\u00e3o do bem-estar. Percebe-se, em muitos pa\u00edses e de forma clara no Brasil, que as pol\u00edticas econ\u00f4micas objetivando o desenvolvimento relegam a plano inferior a amplitude humana e os aspectos sociais.<\/p>\n<p>Vem sendo esquecida a li\u00e7\u00e3o singela de que <strong>o homem \u00e9 o princ\u00edpio, meio e fim de tudo<\/strong>. N\u00e3o existe para servir \u00e0 pol\u00edtica ou \u00e0 economia. Estas \u00e9 que foram colocadas em seu caminho para servi-lo.<\/p>\n<p>A sabedoria crist\u00e3 \u2013 o mesmo se pode dizer da sabedoria de outras correntes do pensamento religioso \u2013 orienta o ser humano no sentido de que se apegue a um<strong> ponto de equil\u00edbrio<\/strong>, em meio \u00e0s naturais discord\u00e2ncias provocadas pela efervesc\u00eancia&nbsp;intelectual, inerente \u00e0 vida. Essa busca pressup\u00f5e o dom\u00ednio da serenidade. \u00c9 reveladora da incompatibilidade visceral da mensagem crist\u00e3, ou espiritual, com as posi\u00e7\u00f5es extremadas e fanatizadas. Um economista brit\u00e2nico, <strong>Fritz Schmacher<\/strong>, lembra que \u201co ponto essencial da vida econ\u00f4mica e da vida em geral \u00e9 que ela exige constantemente a concilia\u00e7\u00e3o ativa dos opostos\u201d. Arremata magistralmente: \u201cH\u00e1 na vida econ\u00f4mica e social muitos problemas de opostos que, embora de dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o, podem ser transcendidos pela sabedoria\u201d. Nada mais exato. \u00c9 na sabedoria eterna que se encontram lenitivo e solu\u00e7\u00e3o para conflitos existenciais do tipo desenvolvimento t\u00e9cnico versus desemprego, ou versus polui\u00e7\u00e3o ambiental. Ou o ponto de equil\u00edbrio que garanta, a um s\u00f3 tempo, a desej\u00e1vel estabilidade e as transforma\u00e7\u00f5es reclamadas pelo progresso;<strong> o respeito \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e o apre\u00e7o \u00e0s propostas renovadoras.<\/strong><\/p>\n<p>Como preconiza o pensador, \u201c<strong><em>nossa felicidade e nossa sa\u00fade<\/em>\u201d<\/strong> podem depender de \u201c<em><strong>buscarmos simultaneamente atividades ou metas mutuamente opostas.<\/strong><\/em>\u201d<\/p>\n<p>Isso tudo remete, na idealiza\u00e7\u00e3o de um mundo melhor, mais justo e generoso, \u00e0 necessidade de se dar \u00e0 t\u00e9cnica uma fei\u00e7\u00e3o humana, d<strong>e se fortalecer os avan\u00e7os econ\u00f4micos com a amplia\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios sociais<\/strong>, de se estabelecer coopera\u00e7\u00e3o com a natureza, em vez de desbaratar as d\u00e1divas deixadas por Deus no solo e subsolo deste planeta azul.<\/p>\n<p>Comecei estas maldigitadas com o pensamento do cineasta japon\u00eas. Vou conclu\u00ed-las com a evoca\u00e7\u00e3o da cena de um filme americano, dirigido por John Ford, que focaliza uma batalha na Guerra da Secess\u00e3o. Num dado instante, as tropas rivais, com suas emo\u00e7\u00f5es ensandecidas, guarnecendo trincheiras separadas a tiro de fuzil, s\u00e3o arrebatadas por um misterioso e avassalador sentimento de ternura. Baixam as armas, abandonam as posi\u00e7\u00f5es e se confraternizam ruidosamente. Voltam a se engalfinhar mais adiante, na maior das trucul\u00eancias. O que interessa aqui \u00e9 <strong>captar a atmosfera daquele momento m\u00e1gico da pausa conciliat\u00f3ria<\/strong>, da tempor\u00e1ria cessa\u00e7\u00e3o das hostilidades. Ele tem a ver, simbolicamente, com o esp\u00edrito de Natal. Que mais, muito mais do que o \u201cesp\u00edrito do Natal\u201d, deveria ser, para todo sempre, estado de esp\u00edrito indissoci\u00e1vel da aventura humana.<\/p>\n<p><strong>* O jornalista Cesar Vanucci (cantonius1@yahoo.com.br) colabora com o Blog Mundo Afora<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cesar Vanucci &#8220;Natal. 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