{"id":7486,"date":"2022-05-24T21:07:05","date_gmt":"2022-05-24T21:07:05","guid":{"rendered":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=7486"},"modified":"2022-05-24T21:07:11","modified_gmt":"2022-05-24T21:07:11","slug":"a-espantosa-tragedia-da-madre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=7486","title":{"rendered":"A espantosa trag\u00e9dia da Madre"},"content":{"rendered":"\n<p>Por C<strong>esar Vanucci *<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Voc\u00ea sabe que praticamos torturas. Mas para voc\u00ea<\/em><\/strong> <strong><em>n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de suportar, porque a vida de freira j\u00e1 \u00e9 uma tortura.\u201d<\/em><\/strong>  <strong>(Frase ouvida por Madre Maurina durante um de seus \u201cinterrogat\u00f3rios\u201d)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As universit\u00e1rias<strong> Gl\u00e1ucia e Marilda <\/strong>tomaram conhecimento, por um professor, que deu como fonte uma s\u00e9rie de artigos estampados neste espa\u00e7o h\u00e1 um bocado de tempo. Pedem-me que reproduza a s\u00e9rie, argumentando era importante as pessoas se informarem sobre viol\u00eancias conta a dignidade humana cometidas em trevosos tempos ditatoriais. Atendo, come\u00e7ando hoje, \u00e0 sugest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu-se em 1956, se a mem\u00f3ria n\u00e3o me falha, em junho. O <strong>\u201cCorreio Cat\u00f3lico\u201d,<\/strong> di\u00e1rio vinculado a Arquidiocese de Uberaba, com 12 mil assinantes \u2013 o que lhe assegurava, certeiramente, a condi\u00e7\u00e3o de um dos jornais mineiros com maior poder de influ\u00eancia junto ao p\u00fablico leitor \u2013, divulgou reportagem a respeito de uma fam\u00edlia de Perdizes, munic\u00edpio do Tri\u00e2ngulo Mineiro, que se notabilizava pela especial circunst\u00e2ncia de abrigar em seu seio quatro irm\u00e3os (dois homens e duas mulheres) que haviam optado pela vida religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles, Manoel, frade dominicano, veio a assumir o cargo de Superior na congrega\u00e7\u00e3o. Outro, Vicente, integrante do clero regular, exerceu fun\u00e7\u00f5es paroquiais na Prov\u00edncia Eclesi\u00e1stica de Uberaba. As duas mulheres ingressaram na ordem franciscana, consagrando-se a merit\u00f3rios trabalhos com menores desamparados. Foi nessa ocasi\u00e3o que fiquei conhecendo pelo nome, editor-chefe que era do jornal, Madre Maurina Borges da Silveira. Seus pais, Ant\u00f4nio Borges da Silveira e Francelina Teodoro Borges, pequenos sitiantes, pessoas simples, rodeadas de estima e apre\u00e7o no lugarejo em que viviam, criaram condi\u00e7\u00f5es perfeitas para que a voca\u00e7\u00e3o religiosa dos filhos pudesse florescer. Nutriam com rela\u00e7\u00e3o ao fato justific\u00e1vel sentimento de orgulho. A fam\u00edlia era tida por todos, lembro-me bem, como um edificante modelo de virtudes no meio comunit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em 1970, 14 anos passados, ouvi pela segunda vez, de forma inesperada e num relato extremamente chocante, men\u00e7\u00e3o ao nome de Maurina Borges da Silveira. <\/strong>Conto como foi. Visitava, naquela manh\u00e3 de s\u00e1bado, como fazia todas as vezes em que ia a Uberaba, o Arcebispo Dom Alexandre Gon\u00e7alves Amaral. Apoderado de santa indigna\u00e7\u00e3o, o ilustre e saudoso Prelado, uma das intelig\u00eancias mais fulgurantes do Episcopado, articulando-se com outros membros da Igreja na busca de uma solu\u00e7\u00e3o para o caso, colocou-me a par dos hediondos pormenores de uma viol\u00eancia inimagin\u00e1vel, cometida por agentes do governo contra a referida religiosa, \u00e0 \u00e9poca diretora de uma institui\u00e7\u00e3o assistencial em Ribeir\u00e3o Preto, o \u201cLar Santana\u201d. Contando ent\u00e3o com 43 anos, a freira franciscana foi arbitrariamente detida por truculentos membros da tristemente c\u00e9lebre \u201cOpera\u00e7\u00e3o Bandeirante\u201d, sob a falsa acusa\u00e7\u00e3o de apoiar um grupo armado hostil \u00e0 ditadura militar. O orfanato de Madre Maurina cedia na ocasi\u00e3o, uma sala, para reuni\u00f5es peri\u00f3dicas, a estudantes ligados a A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. Alguns ou todos eles, n\u00e3o se sabe bem, opunham-se ao regime vigente, mantendo segundo a pol\u00edcia, liga\u00e7\u00f5es com movimentos da chamada guerrilha urbana.<\/p>\n\n\n\n<p>Madre Maurina, pessoa inteiramente consagrada ao mister religioso, nada sabia a respeito das a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas desenvolvidas pelos rapazes. Mas por conta da cess\u00e3o da sala, por sinal cedida aos jovens antes mesmo de sua chegada \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do orfanato, acabou sendo lan\u00e7ada, de hora para outra, no torvelinho avassalador de uma trag\u00e9dia com caracter\u00edsticas, pode-se dizer, kafkianas. <strong>Foi detida, barbaramente espancada, torturada, seviciada, alvo de toda sorte de humilha\u00e7\u00f5es. <\/strong>Seus algozes for\u00e7aram-na, na base da pancada, do pau de arara e do choque el\u00e9trico, a assinar declara\u00e7\u00f5es em que se confessava amante de militantes pol\u00edticos apontados, como era de h\u00e1bito na \u00e9poca, como subversivos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um relato atordoante<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u201cEu tenho pena de deixar-te nua, na presen\u00e7a de todos.\u201d<\/em><\/strong> <strong>(Um dos torturadores de Madre Maurina)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A espantosa trag\u00e9dia de Madre Maurina Borges da Silveira, \u00e9 apontada por historiadores como o epis\u00f3dio que conduziu o Cardeal Dom Evaristo Arns a desfraldar a bandeira da luta, anos a fio, contra as atrocidades praticadas nos \u201canos de chumbo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Como relatado, a Madre foi presa e permaneceu incomunic\u00e1vel. De nada valeram as pondera\u00e7\u00f5es feitas em seu favor por religiosos e superiores eclesi\u00e1sticos, as manifesta\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias das pessoas que acompanhavam de perto, com admira\u00e7\u00e3o, a rotina de seu extraordin\u00e1rio trabalho apost\u00f3lico, dando testemunho fidedigno de sua absor\u00e7\u00e3o por inteiro \u00e0 bela miss\u00e3o assistencial a que se consagrou a partir do momento da op\u00e7\u00e3o pelos votos religiosos. Na reclus\u00e3o foi submetida a supl\u00edcios inenarr\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>As atrocidades tomaram tal propor\u00e7\u00e3o que o ent\u00e3o Arcebispo de Ribeir\u00e3o Preto, um sacerdote desassombrado, Dom Fel\u00edcio Vasconcelos, atordoado face o desinteresse das autoridades governamentais em investigar as den\u00fancias acerca das ignom\u00ednias cometidas contra a freira, diante do sil\u00eancio c\u00famplice e acovardado da grande m\u00eddia e do amorda\u00e7amento imposto aos demais ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, tomou a arriscada decis\u00e3o de ocupar os p\u00falpitos de Ribeir\u00e3o Preto para condenar as felonias dos agentes policiais e militares e decretar oficialmente a excomunh\u00e3o de dois dos delegados envolvidos na estarrecedora a\u00e7\u00e3o criminosa. Renato Ribeiro Soares e Miguel Lamano, \u201cvalentes\u201d integrantes da equipe do \u201cfamoso\u201d Sergio Fleury, foram os delegados atingidos pela penalidade can\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Conservada em cativeiro por longo tempo, a inocente criatura, uma vida inteira de devo\u00e7\u00e3o religiosa arraigada, foi v\u00edtima de toda sorte de sevicias no curso de intermin\u00e1veis \u201cinterrogat\u00f3rios\u201d. Seu drama comoveu os membros do Episcopado, inspirando Dom Arns, apoiado por l\u00edderes de outras correntes religiosas, o Pastor protestante James Wright entre eles, utilizando os escassos recursos de express\u00e3o dispon\u00edveis naquele per\u00edodo trevoso, de restri\u00e7\u00f5es severas \u00e0s liberdades e de total desprezo aos direitos fundamentais, a bater de frente com os respons\u00e1veis pelas barbaridades cometidas nos por\u00f5es do regime. A essa \u00e9poca come\u00e7ou a tomar forma o hist\u00f3rico documento intitulado \u201cTortura, nunca mais\u201d, que cataloga parte dos tenebrosos atentados daqueles tempos contra a dignidade humana.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se vai ler na sequ\u00eancia s\u00e3o trechos de carta, de 17 de dezembro de 1969, que Madre Maurina, conforme registrou o \u201cJornal do Brasil\u201d, edi\u00e7\u00e3o de 16.11.2003, encaminhou ao ent\u00e3o Ministro da Justi\u00e7a, relatando parte do sofrimento que lhe infligiram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cInvocando a Deus como testemunha da verdade de minhas palavras venho relatar a V. Exa. as torturas a mim inflingidas por agentes da Pol\u00edcia de S\u00e3o Paulo(&#8230;) Confesso n\u00e3o ser f\u00e1cil, mas o farei para que V. Exa. tome provid\u00eancias no sentido de evitar (&#8230;) que pessoas inocentes sofram injustamente. Fui conduzida ao Quartel Militar de Ribeir\u00e3o Preto, \u00e0s 14h do dia 25 de outubro (&#8230;). Comecei logo a falar sobre o que sabia do movimento de juventude existente em minha casa, pois ignorava o t\u00e3o falado terrorismo. Foi atrav\u00e9s dos elementos que me interrogavam que aprendi o que era terrorismo. (&#8230;) Interrompiam-me a cada instante, com gritarias e amea\u00e7as, usando uma terminologia, a qual sinto-me envergonhada de repeti-la. &#8220;Voc\u00ea sabe que usamos de torturas, mas para voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil suportar, porque a vida das freiras j\u00e1 \u00e9 uma tortura&#8221;. \u201c\u00c9 t\u00e3o c\u00ednica, como pode se fazer de t\u00e3o inocente, sua freira do diabo.\u201d \u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 filha de Deus. Fica sabendo que teremos o prazer de prender bispos e padres\u201d (&#8230;). \u201dVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mais virgem. Vamos fazer um exame ginecol\u00f3gico.\u201d (&#8230;) Davam risadas sarc\u00e1sticas. (&#8230;) Silenciei, escutando tudo aquilo, sem compreender o seu significado. (&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia a outra parte deste arrepiante documento.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>*O<strong> jornalista Cesar Vanucci (cantonius1@yahoo.com.br) \u00e9 colaborador do blog Mundo Afora.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cesar Vanucci * Voc\u00ea sabe que praticamos torturas. 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