{"id":7499,"date":"2022-06-08T22:05:34","date_gmt":"2022-06-08T22:05:34","guid":{"rendered":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=7499"},"modified":"2022-06-08T22:05:40","modified_gmt":"2022-06-08T22:05:40","slug":"o-exilio-e-o-retorno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=7499","title":{"rendered":"O ex\u00edlio e o retorno"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por Cesar Vanucci *<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u201c<\/em><\/strong><em>Sua f\u00e9 foi sempre muito grande.<\/em><strong><em>\u201d<\/em><\/strong> <strong>(Frei Manoel, dominicano, irm\u00e3o da Madre)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Do M\u00e9xico, recolhida ao Convento das Irm\u00e3s de<strong> S\u00e3o Jos\u00e9 de Lyon<\/strong>, onde permaneceu em ex\u00edlio for\u00e7ado at\u00e9 a anistia em 1979,<strong> Madre Maurina Borges <\/strong>da Silveira encaminhou in\u00fameras correspond\u00eancias \u00e0s autoridades brasileiras, pedindo permiss\u00e3o para regressar a terra natal. Existem ind\u00edcios de que, em alguns setores do governo, houve quem se desse conta, em dado instante, da necessidade de se proceder a um reexame do doloroso caso da freira impiedosamente alvejada pela bo\u00e7alidade e paranoia dos agentes da lei.<\/p>\n\n\n\n<p>Em julho de 1971, a <strong>2\u00aa Auditoria da 2\u00aa Comiss\u00e3o da Justi\u00e7a Militar aconselhou o retorno da Madre.<\/strong> Esse posicionamento, un\u00e2nime e in\u00e9dito, foi tomado num per\u00edodo ainda de violenta repress\u00e3o. Pode ser interpretado como indicativo de que algumas pessoas no mundo oficial mostravam-se preocupadas, de certa maneira, com o tamanho do abacaxi que teria de ser, mais adiante, for\u00e7osamente descascado na tentativa de se oferecer uma explica\u00e7\u00e3o para as ignom\u00ednias praticadas contra Maurina. A senten\u00e7a em quest\u00e3o, segundo revelado pelo antigo \u201cJornal do Brasil\u201d, levou em considera\u00e7\u00e3o que \u201cprovas colhidas em Ju\u00edzo\u201d autorizavam <em><strong>\u201ca presun\u00e7\u00e3o de que Maurina foi inclu\u00edda na lista de presos a serem trocados pelo c\u00f4nsul d<\/strong><\/em>o<strong><em> Jap\u00e3o, por insidiosa manobra de guerra psicol\u00f3gica, por parte dos militantes da subvers\u00e3o.\u201d <\/em><\/strong>Na mesma decis\u00e3o, fazia-se a ressalva de que a religiosa \u201csuplicou, at\u00e9 o \u00faltimo momento\u201d, antes do embarque rumo ao M\u00e9xico, para que a deixassem ficar no pa\u00eds. <\/p>\n\n\n\n<p>De algum modo, o Ministro <strong>Alfredo Buzaid s<\/strong>ensibilizou-se com o argumento. Chegou mesmo a elaborar exposi\u00e7\u00e3o de motivos ao ent\u00e3o Presidente <strong>M\u00e9dici <\/strong>com minuta de decreto at\u00e9 assinada revogando o banimento da freira. O expediente ficou paralisado at\u00e9 junho de 76, alcan\u00e7ando, j\u00e1 a\u00ed, o governo Geisel. O sucessor de Buzaid na pasta da Justi\u00e7a, Armando Falc\u00e3o, deu andamento ao processo retido emitindo parecer conclusivo nos seguintes termos: \u201c<em>Minha opini\u00e3o \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 concess\u00e3o da permiss\u00e3o da vinda da interessada, por inoportuna e inconveniente. Vossa Excel\u00eancia, entretanto, no seu alto crit\u00e9rio, se dignar\u00e1 de decidir como mais acertado lhe parecer.<\/em>\u201d Conforme ainda o JB, Geisel decidiu. Fechou com Armando Falc\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Madre Maurina continuou, \u00e0 vista disso, a amargar o indesejado ex\u00edlio. <strong>Nessa tormentosa fase, seu pai, Ant\u00f4nio Borges da Silveira, veio a falecer. <\/strong>Negaram-lhe tamb\u00e9m o direito de comparecer ao sepultamento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>De volta ao Brasil, beneficiada pela anistia, a religiosa retomou suas atividades na congrega\u00e7\u00e3o franciscana<\/strong>, com o mesmo inquebrant\u00e1vel esp\u00edrito de f\u00e9 que marcou toda sua trajet\u00f3ria de vida, dedicando-se ao trabalho apost\u00f3lico de sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Em<strong> 5 de mar\u00e7o de 2011, aos 87 anos de idade, cercada do carinho das colegas de h\u00e1bito, em Araraquara, Estado de S\u00e3o Paulo, Maurina deixou este mundo<\/strong>. Embora as vicissitudes enfrentadas, registradas parcialmente nesta sequ\u00eancia de artigos, a morte desta freira valorosa, mineira de Perdizes, condenada ao mart\u00edrio num momento trevoso da hist\u00f3ria brasileira, passou inexplicavelmente desapercebida aos olhares da m\u00eddia e dos pr\u00f3prios \u00f3rg\u00e3os de defesa dos direitos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto quanto pude constatar, o reverente pronunciamento do Deputado Adelmo Carneiro Le\u00e3o, sobre sua vida e obra, na tribuna da Assembleia Legislativa, estranhavelmente sem repercuss\u00e3o midi\u00e1tica, foi o \u00fanico registro significativo feito em Minas Gerais a respeito do caso. Na internet, colhi tamb\u00e9m alguns dados que serviram de fonte para a elabora\u00e7\u00e3o destes artigos. <strong>No mais, o que prevaleceu foi um inexplic\u00e1vel e sepulcral sil\u00eancio. N\u00e3o sei dizer, mas ponho-me a fazer elucubra\u00e7\u00f5es a prop\u00f3sito, se essa aus\u00eancia de registro, pelo menos por parte das organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, tenha decorrido de o fato da religiosa n\u00e3o haver, ao contr\u00e1rio do que a acusavam seus algozes, se inclinado por qualquer tipo de milit\u00e2ncia pol\u00edtica. <\/strong>Circunst\u00e2ncia, c\u00e1 pra n\u00f3s, que n\u00e3o deveria ser de molde tamb\u00e9m a justificar a falta de divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia o final do relato.<\/p>\n\n\n\n<p>H<strong>ipocrisia e dedodurismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u201c&#8230; pelo menos 15 crian\u00e7as eram filhas de m\u00e3es solteiras e ricas.\u201d<\/em><\/strong> <strong>(Revela\u00e7\u00e3o de Madre Maurina)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Frad<strong>e Manoel, <\/strong>dominicano, pouco antes da partida de <strong>Maurina,<\/strong> n\u00e3o escondendo imensa ternura e orgulho em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 irm\u00e3, comentou o sofrimento inaudito que seu mart\u00edrio imp\u00f4s \u00e0 fam\u00edlia. Contou, ainda, que numa das sess\u00f5es de tortura a que foi a freira submetida, ela clamou por Deus, dizendo aos torturadores que Ele estava ali presente. Deu pra perceber que alguns deles sentiram-se, momentaneamente, abalados com aquela invoca\u00e7\u00e3o, dando sinais de medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos supl\u00edcios porque passou, Maurina perdoou-os a todos. <strong><em>\u201cSua f\u00e9 foi sempre muito grande\u201d<\/em><\/strong>, \u00e9 o sacerdote ainda que afirma, acrescentando que duas mo\u00e7as, torturadas juntamente com Maurina, vieram a se converter ao catolicismo inspiradas nos exemplos de fervor transmitidos pela religiosa no per\u00edodo de reclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Reservei para os leitores, no fecho deste relato acerca do mart\u00edrio imposto a<strong> Madre Maurina Borges da Silveira <\/strong>por bestiais agentes da lei no per\u00edodo da ditadura, uma revela\u00e7\u00e3o intrigante. Tem-se a\u00ed configurado um retrato impec\u00e1vel da hipocrisia e farisa\u00edsmo imperantes em certos ambientes mundanos. Ambientes esses sempre prop\u00edcios, em momentos de terror pol\u00edtico, \u00e0s pr\u00e1ticas do dedodurismo encapuzado e do denuncismo irrespons\u00e1vel. A pr\u00f3pria freira contou a hist\u00f3ria ao jornalista Luiz Eblak, num papo de v\u00e1rias horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomei conhecimento da entrevista consultando a <strong>\u201cWikipedia\u201d<\/strong>, logo ap\u00f3s ser informado da not\u00edcia do falecimento da religiosa. <strong>Falecimento cercado de injustific\u00e1vel sil\u00eancio midi\u00e1tico, como j\u00e1 anotei, ocorrido em 5 de mar\u00e7o 2011.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pergunta do rep\u00f3rter a Maurina: &#8211; <em>\u201cDe onde acha que vieram os boatos sobre a senhora, como o epis\u00f3dio de seu envolvimento com guerrilheiros?\u201d A resposta surpreende, deixando subtendidos os malef\u00edcios irrepar\u00e1veis \u00e0 dignidade humana que ocorrem em momentos de desmandos <\/em>autorit\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Tem uma coisa \u2013 registra a religiosa \u2013 que eu nunca disse a ningu\u00e9m. \u00c9 sobre os ricos de Ribeir\u00e3o Preto. No \u201cLar Santana\u201d, que eu dirigia, tinha muita crian\u00e7a filha de m\u00e3e solteira e rica, o que era esc\u00e2ndalo social para a \u00e9poca (1969). Ent\u00e3o, as crian\u00e7as ficavam l\u00e1, mas o lugar era para os pobres. Eram cerca de cem crian\u00e7as e pelo menos 15 eram filhas de m\u00e3es solteiras e ricas. <\/em>estavam tomando o lugar dos pobres. As fam\u00edlias davam cheques para n\u00f3s e tudo o mais, mas o correto era que as crian\u00e7as vivessem em suas casas. O que eu fiz? <strong>Devolvi as 15 crian\u00e7as<\/strong>. Fui \u00e0 casa de cada uma delas e as devolvi. E eram mans\u00f5es, casas enormes. Eu disse para as fam\u00edlias: \u201c<strong><em>O Orfanato \u00e9 lugar de crian\u00e7a necessitada que precisa de um recanto para viver, que n\u00e3o tem pai nem m\u00e3e.\u201d Acho que isso acabou influenciando de algum jeito o que me ocorreu depois. N\u00e3o sei quem eram as fam\u00edlias, mas isso deve ter tido liga\u00e7\u00e3o com a minha pris\u00e3o.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A outra pergunta sobre se a freira sabia das atividades consideradas subversivas, que os estudantes desenvolviam na sala em que se reuniam no Orfanato, Maurina responde: &#8211; \u201c<em><strong>N\u00e3o sabia de nada. S\u00f3 sabia do \u201cMovimento de Estudantes Jovens\u201d, mas nada mais. Nem desconfiava. Um dia, o pessoal do MEJ me pediu para fazer uma palavra sobre o amor. Nem d\u00e1 pra imaginar que gente de um grupo guerrilheiro pudesse interessar por palestra de uma freira sobre amor.<\/strong><\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cEditora Vozes\u201d lan\u00e7ou, h\u00e1 alguns anos, um livro da jornalista <strong>Matilde Lemo<\/strong>s, intitulado <strong>\u201cSombras da Repress\u00e3o \u2013 O Outono de Maurina Borge<\/strong>s\u201d. A hist\u00f3ria \u00e9 baseada em entrevistas. Outro autor, Jacob Gorender, tamb\u00e9m fala do caso Maurina em seu livro \u201cCombate nas Trevas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem sabe se, mais adiante, algu\u00e9m n\u00e3o se animar\u00e1 a produzir document\u00e1rio para cinema ou televis\u00e3o a respeito da trag\u00e9dia de Maurina. At\u00e9 mesmo como uma forma de expressar a repulsa da esmagadora maioria dos cidad\u00e3os que acreditam e confiam nos valores da democracia e no respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana e que abominam toda forma de totalitarismo, sustentada pelo arb\u00edtrio, a esses valores e direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>* O jornalista Cesar Vanucci (c<strong>antonius1@yahoo.com.br) \u00e9 colaborador do Blog Mundo Afora<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cesar Vanucci * \u201cSua f\u00e9 foi sempre muito grande.\u201d (Frei Manoel, dominicano, irm\u00e3o da Madre) Do M\u00e9xico, recolhida ao<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":7500,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[256],"tags":[46,2973,2972],"class_list":["post-7499","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","tag-brasil","tag-ditadura","tag-madre-maurina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7499","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7499"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7499\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7501,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7499\/revisions\/7501"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7500"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}