{"id":7804,"date":"2023-03-22T15:14:08","date_gmt":"2023-03-22T15:14:08","guid":{"rendered":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=7804"},"modified":"2023-03-22T15:14:10","modified_gmt":"2023-03-22T15:14:10","slug":"mulheres-riscadas-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taizabritomundoafora.ne10.uol.com.br\/?p=7804","title":{"rendered":"Mulheres riscadas da vida"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por *Cesar Vanucci<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cNalguns pa\u00edses, meninas e mulheres s\u00e3o riscadas da vida p\u00fablica\u201d (Antonio Guterres, Secret\u00e1rio Geral da ONU.)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aciono o videocassete da mem\u00f3ria na tentativa de recompor <strong>emblem\u00e1tica cena dos anos 50<\/strong>. Naqueles tempos, os primeiros fuscas estavam sendo postos a circular nas ruas e estradas brasileiras, ati\u00e7ando bastante a curiosidade popular. Mas, a aglomera\u00e7\u00e3o \u00e0 volta do ve\u00edculo, estacionado diante do palacete na pra\u00e7a central da cidade, derivava de outra circunst\u00e2ncia, tamb\u00e9m singular. Graciosa jovem, envergando traje incomum para o chamado \u201csexo fr\u00e1gil\u201d \u2013 cal\u00e7a comprida, blusa solta, bota unissex -, divertindo-se \u00e0 pamparra com o alvoro\u00e7o provocado, assumiu o volante manobrando o carro no sentido de circundar o logradouro, arrastando de um lado para o outro a multid\u00e3o.<strong> Era a primeira vez que muitos estavam vendo naquelas bandas uma mulher motorista. <\/strong>A imagem restou como lembran\u00e7a de um momento hil\u00e1rio totalmente ultrapassado.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e1 causa a dilacerante impacto saber que, mais de meio s\u00e9culo transcorrido a mulher, em dezenas de pa\u00edses, nos v\u00e1rios continentes, \u00e9 impedida de repetir o gesto banal da mo\u00e7a dos anos 50, por conta de dogmatismo religioso de repulsiva concep\u00e7\u00e3o machista.<strong> Apontada como uma blasf\u00eamia her\u00e9tica em hostes fundamentalistas, dirigir carro \u00e9 apenas uma entre centenas de proibi\u00e7\u00f5es r\u00edgidas, descabidas, institu\u00eddas com o fito de subjuga\u00e7\u00e3o da mulher a ditames morais anacr\u00f4nicos, anteriores at\u00e9 mesmo ao per\u00edodo de obscurantismo medieval.<\/strong> Isso explica a raz\u00e3o pela qual, ao referir-se ao dram\u00e1tico problema da opress\u00e3o feminina detectada em diferentes plagas do planeta, o<strong> secret\u00e1rio Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, Antonio Guterres <\/strong>haja enfatizado que em v\u00e1rios lugares as meninas e mulheres, s\u00e3o na verdade, praticamente riscadas da vida p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses rinc\u00f5es adversos \u00e0s mulheres, onde seus direitos s\u00e3o massacrados as pessoas do sexo feminino n\u00e3o podem sair desacompanhadas, n\u00e3o podem frequentar escolas, academias, parques p\u00fablicos, s\u00e3o impedidas de trabalhar fora, n\u00e3o podem escolher pares e companheiros, s\u00f3 viajam na companhia de pa\u00eds, maridos e irm\u00e3os. S\u00e3o for\u00e7adas a usar v\u00e9us e roupagens ex\u00f3ticas que as \u201cprotejam\u201d de olhares indiscretos. <strong>S\u00e3o submetidas a um regime de clausura, an\u00e1logo n\u00e3o poucas vezes ao de \u201cescrava\u2019\u201d. <\/strong>Correm riscos de serem chicoteadas publicamente pelos \u201cguardi\u00f5es da moral e costumes\u201d. A regra sobre vestimenta aplica-se tamb\u00e9m as visitantes, sendo de molde, por conseguinte a criar transtornos a alguma incauta turista.<\/p>\n\n\n\n<p>O que acontece na <strong>Ar\u00e1bia Saudita, Ir\u00e3, Paquist\u00e3o, Afeganist\u00e3o representa amostra do tratamento mais abjeto em um punhado de pa\u00edses de orienta\u00e7\u00e3o religiosa ortodoxa dispensada \u00e0s mulheres. <\/strong>Ainda agora nas ruas de Teer\u00e3 e \u00a0outras cidades no pa\u00eds comandado de forma desp\u00f3tica pelos aiatol\u00e1s registram choques entre policiais e manifestantes devido ao inconformismo de parcela da comunidade iraniana contra o excesso de arbitrariedades praticadas envolvendo as mulheres. Por causa do \u201cuso incorreto\u201d do v\u00e9u,<strong> Mahsa Amini<\/strong>, 22 anos foi detida e morta pela pol\u00edcia de costumes em setembro do ano passado. O caso foi estopim dos movimentos de protestos que se espalharam pelo pa\u00eds e provocaram repress\u00e3o violenta, com pris\u00f5es, feridos, mortos e intensa como\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A palpitante quest\u00e3o dos direitos femininos pode ser avaliada por m\u00faltiplos aspectos. For\u00e7oso reconhecer que s\u00e3o in\u00fameras as conquistas a serem celebradas. <\/strong>De outra parte, n\u00e3o s\u00e3o poucas as situa\u00e7\u00f5es clamorosas a serem removidas. Numerosos s\u00e3o tamb\u00e9m os pontos relevantes a considerar em mat\u00e9ria de altera\u00e7\u00f5es vi\u00e1veis quanto a normas e regras estatu\u00eddas por institui\u00e7\u00f5es tradicionais. A abertura de um debate em torno da ordena\u00e7\u00e3o Sacerdotal feminina, por exemplo, estimularia em muito o processo do emparelhamento t\u00e3o almejado dos direitos da mulher e do homem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bofetada na cara<\/strong> &#8211; \u201c<em>Avan\u00e7os obtidos em d\u00e9cadas est\u00e3o evaporando diante de nossos olhos&#8221;( <\/em><strong>Ant\u00f3nio Guterres, Secret\u00e1rio-Geral da ONU<\/strong><em>)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A ONU n\u00e3o deixa por menos. \u201cNo ritmo atual, ser\u00e3o necess\u00e1rios 300 anos para alcan\u00e7ar a igualdade entre homens e mulheres\u201d. Asseverou \u00e0s v\u00e9speras do <strong>Dia Internacional da Mulher,<\/strong> celebrado em 8 de mar\u00e7o, o secret\u00e1rio-Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, Ant\u00f3nio Guterres. \u00a0O progn\u00f3stico, comportando pitada de \u00a0exagero, soa ainda assim com o fragor de uma sonora bofetada que deixa impressos indelevelmente as marcas dos dedos na cara ruborizada da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No ver de Guterres, &#8220;avan\u00e7os obtidos em d\u00e9cadas est\u00e3o evaporando diante de nossos<\/strong> <strong>olhos&#8221;<\/strong>. Lembrou que em alguns pa\u00edses, como no caso do \u00a0Afeganist\u00e3o,\u201cmulheres e meninas t\u00eam sido &#8220;apagadas da vida p\u00fablica&#8221;. Afirmou tamb\u00e9m que os direitos reprodutivos e sexuais da mulher est\u00e3o &#8220;em retrocesso&#8221;, sem contar os riscos de sequestros e ataques a que se acha \u00a0submetida em diferentes partes do mundo. Em outro incisivo trecho de suas declara\u00e7\u00f5es, o Secret\u00e1rio Geral da ONU argumenta qu<strong>e a desinforma\u00e7\u00e3o mis\u00f3gina e as mentiras nas redes sociais t\u00eam o objetivo de silenciar as mulheres e obrig\u00e1-las a sair da vida p\u00fablica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Dia Internacional da Mulher \u00e9 comemorado em 8 mar\u00e7o, sendo uma das mais importantes datas do calend\u00e1rio global. <strong>Evoca as lutas pelos direitos das mulheres por condi\u00e7\u00f5es igualit\u00e1rias, em todas as camadas da sociedade.<\/strong> A efem\u00e9ride foi institu\u00edda em 1917, mas s\u00f3 em 1975 adquiriu resson\u00e2ncia universal. No ano em quest\u00e3o foi oficializada pela ONU. Ao contr\u00e1rio de muitas datas comemorativas, essa \u00e9 uma das poucas \u00a0n\u00e3o surgidas por iniciativas do com\u00e9rcio. A ideia de se definir uma data para exaltar o empenho das mulheres em estabelecer paridade de direitos com rela\u00e7\u00e3o aos homens nas atividades comunit\u00e1rias tem v\u00e1rias origens. A teoria mais aceita \u00e9 a de que tudo se originou numa confer\u00eancia realizada na Dinamarca em 1910. Foi consolidada por fat\u00eddico inc\u00eandio na f\u00e1brica Triangle Shirtwaist Company, Nova York, em 1911, onde pereceram \u00a0tragicamente muitas oper\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o passar dos anos a luta pela igualdade de direitos ganhou constante \u00a0amplitude. O direito a participa\u00e7\u00e3o da mulher em elei\u00e7\u00f5es representou um marco na marcha civilizat\u00f3ria.<strong> Em 1932, as brasileiras votaram pela primeira vez<\/strong>. Um ano ap\u00f3s as mulheres haverem conquistado o direito de votar, <strong>Carlota Pereira de Queir\u00f3s foi eleita primeira deputada federal brasileira<\/strong>. No ano seguinte, em 1934, Antonieta de Barros, filha de escrava liberta, foi eleita deputada em Santa Catarina. Tornou-se a primeira parlamentar negra no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Na atualidade, <strong>as brasileiras constituem 52% do eleitorado nacional, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.<\/strong> Mesmo assim, s\u00e3o minoria na pol\u00edtica. Apenas 12% das prefeituras brasileiras s\u00e3o comandadas por mulheres. Nos governos dos Estados e Parlamentos a representa\u00e7\u00e3o feminina revela-se bastante abaixo da masculina.\u00a0 A despropor\u00e7\u00e3o observada na pol\u00edtica prevalece tamb\u00e9m nas designa\u00e7\u00f5es para cargos p\u00fablicos, em todas as esferas. \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Enfileiramos na sequencia algumas conquistas apontadas como significativas por movimentos feministas brasileiros em sua incans\u00e1vel lutam pela igualdade de direitos:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>1827 \u2013 Meninas s\u00e3o liberadas para frequentarem a escola; 1852: Primeiro jornal feminino; 1879 \u2013 Mulheres conquistam o direito de acesso \u00e0s faculdades; 1910 \u2013 O primeiro partido pol\u00edtico feminino \u00e9 criado; 1932 \u2013 Mulheres conquistam o direito de voto; 1962 \u2013 Cria\u00e7\u00e3o do Estatuto da Mulher Casada; 1977 \u2013 aprovada a Lei do Div\u00f3rcio; 1979 \u2013 Direito \u00e0 pr\u00e1tica do futebol; 1988 &#8211; Primeiro encontro nacional de mulheres negras; 2006 \u2013 Lei Maria da Penha; 2015 \u2013 \u00c9 sancionada a Lei do Feminic\u00eddio; 2018 \u2013 A importuna\u00e7\u00e3o sexual feminina passou a ser considerada crime.<\/strong><strong><\/strong><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>No panorama mundial s\u00e3o por demais impactantes as agress\u00f5es aos direitos sagrados da mulher.<\/strong> Falaremos disso a diante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O<\/strong> j<strong>ornalista Cesar Vanucci (<a href=\"mailto:cantonius1@yahoo.com.br\">cantonius1@yahoo.com.br<\/a>) \u00e9 colaborador do Blog Mundo Afora<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por *Cesar Vanucci \u201cNalguns pa\u00edses, meninas e mulheres s\u00e3o riscadas da vida p\u00fablica\u201d (Antonio Guterres, Secret\u00e1rio Geral da ONU.) 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