Catalunha Brasil: uma mistura política explosiva. Sobre Lula e Puigdemont (porque não?)

*Por Flávio Carvalho

“Apesar de vocêS, amanhã há de ser outro dia” (Chico Buarque).

Pra começar, Lula não é Puigdemont. Mas cabe mesmo buscar aproximações?

Nunca se falou tanto em judicialização da política. Ou em politização da justiça. Tanto aqui quanto lá. Nunca se falou tanto em neofascismos. As ditaduras haviam ido embora? Em que medida? Em que se aproximam as propostas de “despolitização da educação” tanto em Madri quanto em Brasília?

É tão possível falar, Rajoy ou Temer, em defesa do aclamado Estado Democrático de Direito, tanto quanto serem questionados: que Democracia, que direitos e, no caso espanhol, que Estado? Senão será um eterno martírio de escutar as mesmas ofensas, de um lado e do outro, somente trocando de continentes. O debate estrutural não interessa aos neofascistas. A palavra fascismo, em italiano, já não se origina nisso, no fazer sem pensar?

A Catalunha hoje se define como uma nação em processo (Questão de tempo? Dias? Meses? Anos?) de constituir-se em Estado próprio, soberano. Por outro lado, o Brasil ainda poderia ser definido como um “jovem” Estado (em comparação com os países da “velha” Europa), em busca do seu eterno projeto de nação. Para metade da população da Catalunha (um pouco mais ou um pouco menos? Para isso a exigência de poder um dia votar-se livremente, sem a ameaça de mais violências por parte da monarquia espanhola) a República já está “em construção”. Para boa parte do Brasil os valores republicanos estão questionados por um descarado projeto neofascista de resgate da velha ordem militar. Nunca se defendeu tão abertamente no Brasil (e na Espanha?) o retorno do autoritarismo. Memória histórica transformou-se em palavra proibida para Rajoy e Temer.

Por outro lado, o independentismo catalão deu mostras diversas de sua transversalidade, da direita à extrema esquerda. A liberdade de expressão uniu extremos, principalmente em defesa dos presos políticos (os de agora e os de sempre).

Quando se trata de posicionar-se sobre o veto jurídico (político, como não poderia deixar de ser) de Lula, primeiro nas pesquisas, ser o candidato mais votado, o transversal independentismo catalão se esquiva, para não dividir-se ainda mais. Evidentemente, a hora é de somar interesses e não de recordar que numa república catalã, o debate estrutural de fato voltará a aflorar com as primaveras. Ou alguém se ilude que seria diferente?

No Brasil, algo parecido. Mesmo os que não votam em Lula não deixam de defender o seu direito de poder concorrer às eleições de outubro deste ano, em condições de igualdade de direitos. O Partido Podemos, heterogeneamente não independentista, defendeu o referendo catalão de 1 de Outubro passado, a vergonha mundial espanhola, como exercício de autodeterminação estrategicamente disfarçado (para não ferir a sensibilidade dos seus votantes em toda a Espanha) como “exercício de participação cidadã”.

A novidade é a articulação de movimentos sociais de esquerda, daqui e de lá, conscientes da imensa necessidade dos defensores da soberania política da Catalunha, de serem reconhecidos fora das suas fronteiras. Numa Europa governada pelos defensores dos interesses do grande capitalismo já se sabe a resposta: nada que ameace a reconstrução do falido projeto europeu! Na América Latina seria capaz Lula (antes reconhecido como hábil mediador) de alimentar o debate sobre o futuro de um país que está entre as cinco maiores economias que investe – e principalmente lucra – no Brasil? A questão volta a ser a de sempre: os que estão satisfeitos com o atual estado de coisas, como as grandes empresas espanholas que lucram no Brasil, defendem conservar tudo como está, enquanto os mais necessitados enxergam possibilidades de mudar. Mas a grande pergunta é: mudar para onde? Sempre mais perguntas que respostas. Só se sabe que a maioria aumenta pelo lado da maioria: os mais pobres e os que já não tem nada a perder.

Perguntar é perigoso e por isso importantíssimo, já dizia Paulo Freire.

O importante, em minha opinião, é não confundir contextos e não misturar as análises políticas, desrespeitando as histórias enormemente diferentes de ambos os países. Por sorte, enquanto isso, o exercício da análise estratégica não foge (enquanto não seja proibido) do fomento à ameaçada liberdade de expressão.

Quando veio à Barcelona receber o Prêmio Internacional Catalunha das mãos do Presidente Artur Mas, Lula já havia deixado claro o seu silêncio tácito sobre a independência, reunindo-se estrategicamente, horas antes, com seu velho companheiro Felipe González. Ninguém menos independentista que o ex-presidente espanhol, o “socialista” González. O que ganharia Lula em opinar agora sobre o processo catalão? O que perderia, principalmente, o astuto líder do PT?

Naquele dia, no luxuoso Hotel Majestic, em pleno Passeio de Gracia, a mais nobre avenida da Catalunha, escutei pessoalmente, de Lula (tendo como testemunhas os que eram presidentes das duas maiores centrais sindicais, Comisiones Obreras e UGT). Dizia o ex-líder sindical: para ser coerente, eu preciso que me critiquem, tanto dentro quanto fora do Brasil.

Por certo e como ponto final, a minha crítica construtiva, em castelhano, pode ser lida aqui.

Aquele abraço.

*Flávio Carvalho é sociólogo
cbrasilcatalunya@gmail.com

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