Não viral. Diário de Viagem Barcelona – Recife, março de 2020

*Por Flávio Carvalho

“Ya volverán los abrazos, los besos dados con calma”, Jorge Drexler, Codo a codo.

“O vírus foi criado pelos chineses. Comunistas, claro”. E ao sair, no desembarque, carregado de sotaque pernambucano, o cidadão grita: é isso mesmo; o vírus não existe; e viva Bolsonaro. E assim, com esse grito bem alto, cheguei ao Recife. Bem-vindo.
Escrevo esse texto assistindo ao Presidente do Brasil descumprindo, irresponsável, a norma do seu próprio governo. E principalmente das autoridades sanitárias, os heróis dessa nova guerra. Quem é o inimigo? O Presidente ou o vírus?
Ainda no avião, aquele mesmo personagem conterrâneo já dava sinais. No telefone celular jogava um desses videojogos de matar, com o volume alto. Pensei: sou o único incomodado com o seu barulho? Repensei: estou chegando, de volta, ao Brasil.
E, de repente, o que era extrema precaução, virou “frescura” – coisa de gringo. Por sorte, o vírus da ignorância tem vida curta e o povo vai tomando consciência da gravidade. Se no aeroporto de Madri me distraí observando todo tipo de máscaras de prevenção sanitária (a mais estranha parecia uma máscara de mergulho da marca Decathlon, com respirador e tudo), aqui dá vergonha de usar. Lembrei-me de mim mesmo, 15 dias atrás, em Barcelona, achando usar máscara de proteção um exagero. De forma rápida e intensa, a opinião pública vai mudando. Quanto antes melhor.
Na avenida Beira-Mar de Olinda, a fila pra entrar num bar dançante, música altíssima (viva o Brasil!) me faz pensar na Avenida Diagonal de Barcelona, onde fica o meu trabalho e que fica mais bonita como agora, deserta e silenciosa.
“Lá em casa”, protesta o Presidente da Catalunha. A Espanha parece mais preocupada com a queda da bolsa de valores e vacila no fechamento do seu maior foco de corona-vírus: a capital do Reino, Madri – não por acaso sede das grandes empresas (aquelas que lucram mais no Brasil que na Espanha). Madri tem a maioria dos infectados. As mensagens de uasap fazendo piadas sobre o vírus haviam diminuído e agora voltam a circular com a cidadania que decidiu colaborar com o auto-isolamento. As mesmas mensagens, por certo, várias vezes repetidas. Sofá de casa e redes sociais combinam bem.
Chefes, patrões, empregadores, sem sair de casa, determinam que seus empregados não podem parar o país. É hora de trabalhar pois vem aí nova crise econômica. Se possível a ritmo intenso, pois ninguém sabe quando isso se normalizará.
O Ministro da Saúde do Brasil acaba de falar na TV. Segundo ele, os passageiros que desembarcarem da Europa e autodeclararem que estão com sintomas do corona, devem apresentar-se no aeroporto mesmo, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Tentei falar ontem sobre isso, no meu desembarque com uma trabalhadora do aeroporto. Ela ficou sorrindo. Eu também (não resisti). Preocupou-se mais com o que eu trazia naquela caixa. Meus livros, respondi. “Mas são todos iguais”, sorriu novamente. Fui eu que escrevi, respondi. Sorrimos juntos. E saí.
Lá fora o grito, Viva Bolsonaro.
Minha irmã acaba de me informar. Por 150 Reais (mais 50 pelo serviço a domicílio) o laboratório privado virá fazer-me o exame em casa e me dará resposta em 2 ou 3 dias. Liguei pro LACEN, laboratório central, público. Recomendaram que eu não saísse de casa.
Solidariedade com o mundo e comigo mesmo. Excelente complemento para a ignorância: o medo.
Criou-se o livre arbítrio pra isso: o mundo é meu e a decisão é minha. Se eu quiser, o contamino… Lar, doce lar.

Por Flávio Carvalho, sociólogo
cbrasilcatalunya@gmail.com
@1flaviocarvalho @quixotemacunaima

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