Jamelão França e Chico Science, um ônibus pro céu passando por Rio Doce

Por Flávio Carvalho

Roberto Carlos é o rei do iê-iê-iê. Jamelão cantando samba faz o morro estremecer. Lia na ciranda também é de primeira. No baião Luiz Gonzaga, no frevo Nelson Ferreira” (Lia de Itamaracá).

O sentimento mais forte na minha passagem da juventude àquilo que chamamos de vida adulta foi haver tido o privilégio de passar por uma revolução musical, em pleno bairro onde eu morava.  O bairro se chama Rio Doce, em Olinda, porque havia um rio limpo onde meus pais tomaram banho e pegavam caranguejo “de andada” (toda uma arte).

Eu nunca tive coragem de me banhar no Rio Doce, pois já estava mais que poluído.

Foi quando eu morava no periférico bairro de Rio Doce que eu conheci Jamelão França.

Naquela época, eu, lutando comigo mesmo pra (sem êxito nenhum) aprender a tocar violão, conheci Jamesson – seu verdadeiro nome, no CEMO, o Centro de Educação Musical de Olinda. Depois jogando Handball nos jogos estudantis. Trabalhamos juntos na política, quando Olinda elegeu a primeira prefeita de um Partido Comunista em toda a história do Brasil. A última vez que estivemos juntos foi numa volta à universidade onde estudamos – na Federal de Pernambuco. “Cadê Chico, Jamelão?”. “Tá no céu do mundo, Jones” (me chamava assim).

Seu irmão, Chico, me dizia que ele, Jamelão, era Pagodeiro, em tom depreciativo (pra zoar, tirar onda, perturbar…). O próprio nome Jamelão, em homenagem ao famoso sambista carioca, fazia jus às vezes que eu o vi, ao irmão de Francisco, cantar num pagode em Maranguape – bairro ao lado, famoso pela Pagoderia duma tal Conceição. Fui poucas vezes, mas quase sempre coincidi com Jamelão e seu sorriso fácil, com jeito gingado até no caminhar.

A praia de Chico era outra, mais perto da minha. A gente gostava mais de Rock. Eu vos falei neste texto que eu estava saindo da juventude, que insistia em não sair de mim…

Até o dia que Chiquinho, como sua mãe o chamava, começou a frequentar o Bronx, o Harlem, que era como Cátia de França nomeava os bairros mais pretos da nossa cidade preta, Olinda: Peixinhos, Águas Compridas (perceba quanta relação hídrica no nome das comunidades!), e Chão de Estrelas – o bairro com nome mais lindo do mundo. “O brilho da lua cheia entrando pelo teto do barraco pobre, furado, de zinco, salpicava de estrelas o nosso chão”, é poesia pura popular demais – com a permissão poética desse trecho, dos mais belos que eu já vi.

Chiquinho tornou-se Chico Science & Nação Zumbi, ganhou o Mundo, apadrinhado por Gilberto Gil. E nunca mais a música popular (do povo empobrecido) do Brasil, passou a ser a mesma. Para mim e para muita gente que eu conheci naquela época, uma verdadeira revolução – e não uma simples mudançazinha. Um golpe necessário na cena cultural de todo o país, por uma transformação estrutural forjada à guitarra elétrica e ao ritmo de batucadas diversas. De Olinda, de Rio Doce, para o Mundo. Ancestralidade pura. Viva Zumbi!

Ontem me chegou a notícia de um novo golpe, falando em pancada forte.

Jamelão França não morreu. Ontem ele se tornou mais uma vida golpeada pelo golpe politico mais vil que já deram no meu Brasil. Quase meio milhão de vidas interrompidas.

Aquela mistura de raiva incontida quando a gente não quer sentir, mas sente (mesmo sem querer; mas sentimento é sentimento…), que é como se tivesse sido assassinado.

Porque é mais uma boa vida que poderia ter sido salva. E todos sabemos como!

Mas, como eu disse, quem foi mais vida do que muita gente que prefere seguir meio-morto, mesmo estando vivo, nem é morte. É outra forma de relacionar-se com a vida. Aprendendo até mesmo a relacionar-se com a morte, de outra forma. Ou da melhor possível.

Se o Brasil passou todo esse tempo sem aprender a relacionar-se com a morte, como ela sendo uma das coisas que dão sentido à vida, Jamelão… E então, meu irmão?!

Vai na paz. Não vai, quem fica.

E dá aquele abraço, ou tira onda, zoando, tu também, com o brotherzinho.

Flávio Carvalho (@1flaviocarvalho, @quixotemacunaima) é sociólogo e escritor

Barcelona, junho de 2021

 

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