*Por Flávio Carvalho

“Ya sabe que no responder para algunos periodistas, entre los que me incluyo, es ya un titular; «Los asuntos importantes aquí no los decide usted los decidimos nosotros. Ya sé que le gustaría hacerse usted las preguntas y respondérselas usted” (Ana Pastor, entrevistando a dois dirigentes políticos do PP).

Imensa repercussão da entrevista com Lula no programa espanhol de maior audiência. A entrevistadora, Ana Pastor, famosa por sua contundência na hora de entrevistar os mais importantes políticos, não foi mais enfática com Lula do que já havia sido com vários presidentes espanhóis. Exceto nos momentos em que se sentiu indiretamente atingida pelo ex-Presidente do Brasil: quando Lula não perdoou o oligopólio da Rede Globo e a jornalista cobrou-lhe respeito à liberdade de atuação dos meios de comunicação. Mesmo para uma das melhores profissionais espanholas Lula precisou aportar uma série de dados e reforçar algo que ela já sabe: a ética nos meios de comunicação brasileiros não é exatamente um ponto forte da poderosa Rede Globo.

O ponto fraco da entrevista agradou (também imensamente) a audiência espanhola. Principalmente aquela que opõe a sagrada unidade (indivisibilidade, herdada da ditadura franquista) do Reino ao processo independentista catalão. Em nenhum momento apareceu a mais esperada pergunta. Aquela que relacionaria à prisão política de Lula – o maior preso político do Mundo, na opinião de Chomski – à situação dos presos políticos independentistas catalães, condenados a aproximadamente um século de prisão política por um tribunal arbitrário e já condenado (o Tribunal, não os presos políticos catalães)pelas mais importantes organizações de defesa dos direitos humanos. Em plena Europa Ocidental. Em pleno século XXI.

Mal sabia Lula, que na semana de comemoração dos 40 anos de fundação do seu partido, o PT, as televisões espanholas – não somente a da Ana Pastor – seguiriam passando duas imagens brasileiras que tratam do mesmo assunto. Primeiro, uma das imagens fortes do documentário brasileiro candidato ao Oscar, Democracia em Vertigem: a defesa que fez o atual presidente do Brasil, Bolsonaro, do mais famoso torturador brasileiro (quando votou o golpe parlamentar contra a Presidente Dilma). E logo o momento da entrevista em que Lula trata do ódio bolsonarista, o compara à ascensão do nazismo de Hitler e nos recorda a defesa bolsonariana do Capitão Ustra, o monstro que torturou (também) Dilma Roussef.

Vamos à Espanha?

Lula elogia com empolgação o governo espanhol de coalizão entre Podemos e Sánchez. Elogia, como só ele sabe, o “companheirismo” de figuras tão díspares como os principais líderes políticos espanhóis, repartidos em todas as siglas. Elogia Suárez, elogia González, elogia Zapatero… e até elogia Aznar (o mais ultradireita do maior partido da direita, o PP). Faltava algo? Elogia seu “amigo”, o Rei.

Pois qual a primeira contradição do segundo partido mais à esquerda, o Podemos, ao aceitar entrar no governo socialista? Dizer-se equivocado e pedir desculpas aos seus votantes quando o novo governo espanhol encobriu a ficha criminal (de forma institucional, votada no Parlamento) de um dos maiores torturadores da Espanha, Billy El Niño.

Qual a seguinte e polêmica decisão do Governo Podemos+Socialistas? Propor na reforma do Código Penal que seja delito a apologia do nazismo e do fascismo.

Moral da História: no país de Ana Pastor, Bolsonaro poderia estar preso.

Viva Lula!

*Flávio Carvalho é sociólogo

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