*Por Flávio Carvalho
“O vírus do amor, dentro da gente, beira o caos, quarenta e dois graus, de febre contente”, Rita Lee.

Horas e horas buscando laboratório privado que me possa fazer o exame do vírus. Tentando de tudo pra preservar o Sistema Único de Saúde, o SUS. No final do dia, emocionante, encontrei: mais de mil euros, pra quem pode pagar, num dos melhores e mais caros hospitais do Recife. Cinco minutos depois, má notícia: esgotaram a capacidade de atendimento. Sim, há ricos em Pernambuco. E agem rápido, os que podem.
“Mas o senhor tem certeza que está mesmo se sentindo bem?”. Na verdade, não. “Meu Deus!”. Tranquila, só estou falando desse calor horrível. “Mas até que nem tá muito quente assim; choveu muito; não viu?”. O pior é que você tem toda razão.
Segundo dia de auto-semi-isolamento e o Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde, OMS, insiste na recomendação a todos os países afetados pela pandemia: teste, teste, teste! Não somente para quem, como eu, não apresenta sintomas do Covid-19. Para Bolsonaro, pura histeria. Se o Presidente fala isso em público, imagina o que não deve dizer dentro de casa…
Doze horas de avião pra encontrar-me com minha mãe, supervulnerável, e dois dias falando com ela aqui “de perto”… por videoconferência.
Na pequena sala da escola de dança do ventre bem aqui ao lado, calor infernal e vida normal. Na academia de ginástica, no edifício vizinho, apertados no pequeno espaço, homens e mulheres suando, praticando exercícios. Calor infernal. O ônibus passou lotado diante da casa da minha mãe. Calor? Infernal. Deus é brasileiro. E o vírus ama o Brasil.
Ao mesmo tempo, da Europa me chegam mensagens de uasap com programação de vídeos de instrutores de ginásticas pra fazer em casa. E uma colega me explica a decisão da sua chefa que, sem sair de casa, determinou que ela fosse trabalhar; e que cuide-se bem. Lavando as mãos, principalmente. Do alto do seu bom e caro apartamento, a sua chefa, quem sabe, estará rezando por sua saúde. A dela.
No laboratório de análises clínicas, em Olinda, gente idosa doente encaminhada pra fazer exames normais de rotina, as trabalhadoras sem máscara e somente eu e uma delas mascarados. Isso sim: todo mundo de mão bem lavada, mas pegando todos nas mesmas portas, mesmos potes de bolachas grátis com café, água e chá. Morri de fome e de medo; e não os toquei, por nada desse mundo. A foto do exame que minha mãe tanto necessita está no meu telefone, que a recepcionista da clínica me pede pra olhar e eu a nego, por precaução. Faz cara de chateada. Ok. Eu lhe dou o meu telefone. Se ela soubesse que passamos, eu e meu telefone, pelo convulso aeroporto de Madri…
No hay mal que para el bien no venga. Em Paris, o professor brasileiro da Sorbonne, Leo Tonus, me convida a gravar vídeo lendo o que eu quiser para a sua grande ideia, voluntária, de produzir gravações caseiras, literárias, pras pessoas que não saem de casa. Em Barcelona, amigas artistas organizando nas redes sociais o #musicadesdecasa (estreiando com a sergipana Jeca Mó e o carioquíssimo músico “de Pernambuco”, Juan Muñoz – ambos ao violão). Outra amiga produtora cultural, Daniela, na mesma linha e boa vibração, criou o #tmjnalive (tamos juntos na live) no Instagram. As pernambucaníssimas amigas, jornalistas, Paty Cassemiro e Rejane Modesto, mandam boas notícias sobre a estreia do canal Meu Mundo, começando por entrevistar uma das brasileiras mais famosas de Barcelona, a criadora do nosso melhor barzinho: o Cantinho Brasileiro. E pur si muove!
Vem por aí… iniciativa melhor de todas. Ou vocês ainda não pensaram nos músicos que animam nossos bares em Barcelona, professores de capoeira (os maiores “embaixadores” da cultura brasileira no exterior), babás brasileiras, prestadoras de todos os tipos de serviço e todas aquelas que serão, novamente, as mais prejudicadas entre as mais prejudicadas por essa nova crise que paralisará o mundo? Quem pagará os seus aluguéis cada vez mais caros? Na hora da crise econômica, governo continuará sendo somente (novamente!) para ajudar os bancos?
Amanhã a Europa fecha? Como enfrentará um mercado de trabalho hipócrita que necessita da mão-de-obra barata (imigrante) devido ao envelhecimento crescente da sua população?
Calor infernal, não é? Ontem a praia estava lotada no Rio de Janeiro. Os ricos de Madri foram os primeiros a fugir para suas casas de praia e, nada cívicos, contaminaram todas umas cidadezinhas do litoral mediterrâneo.
Exatamente agora (quer melhor momento?), o Rei da Espanha, pressionado pelos escândalos da família real, decidiu assumir as evidências e falar sobre o dinheiro da corrupção do seu pai, o Rei Emérito. Oportunamente, cresce o movimento social para que então devolva os milhões em contas suíças, diretamente para as famílias mais pobres que mais sofreram com o Corona (o vírus).
Mas, tranquilos: o Ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, liberou 2 Reais por cada habitante de determinados Estados mais contaminados pelo Corona. Não é piada; não sorriam, por favor. A Secretaria Estadual de Educação, orgulhosa, anuncia que mesmo com as escolas fechadas, a merenda está garantida para aquelas crianças que tem a merenda escolar como sua principal – e às vezes única – refeição. “Você com a sua música, esqueceu o principal”. Quando essa crise passar, voltaremos a ter milhares de crianças onde a única refeição do dia será a merenda escolar!
É imensa a expectativa sobre como a Rede Globo explicará o Corona Vírus no Big Brother Brasil, àqueles pobres e belos jovens confinados. Imenso drama.
E dos refugiados sírios na Grécia ninguém mais fala…
Aquele abraço – virtual. E Salut! Agora mais que nunca.

Flávio Carvalho é sociólogo
cbrasilcatalunya@gmail.com
@quixotemacunaima @1flaviocarvalho