O Brasil já não me assusta? Isso é um problema meu, não do Brasil

*Por Flávio Carvalho

Entenda os seus medos, mas jamais deixe que eles sufoquem os seus sonhos” (Frase de Alice no País das Maravilhas).

O problema, que não é só meu, é que não são os fatos que me assustam, por MUITOS que sejam, cada dia. O problema é a forma como as pessoas em geral (o que a sociologia chamou, certa vez, de senso comum – ou ainda de Vox Populi) estão reagindo aos fatos. E quanto mais miseráveis, pior.

Não. Minto. É pior ainda. O maior problema entre todos os problemas, é a forma como determinadas pessoas (desumanizadas, na minha opinião) são hoje capazes de expor nas redes sociais, publicamente, os seus posicionamentos sociais desumanos.

Em resumo, a excrescência desses comentários sobre a morte de Neto, não são piores do que as mortes diárias de todos os pretos, Netos. O pior está por vir. O pior será o dia em que desumanizarmos a morte de Neto, como se fosse um número a mais, um racismo a mais.

Neto é Neto. E não deixou de ser Neto por haver sido assassinado pela bala de mais um policial racista. A vida de Neto importa, como importa vida de qualquer branco. A desgraça é que se ele, Neto, fosse branco, “talvez” não tivesse morrido. Esse “talvez” é o que dói, não menos que a morte. Pois esse “talvez” tem a ver com todos nós.

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Universitário morto a tiros após entrar em carro errado em Carpina seria pai em janeiro

A luta antirracista começa em mim. Essa é a diferença na forma como antes pensávamos: não começa no outro. Não é uma diferença, uma mudança, “estratégica”. Passou a ser fundamental. Pelo menos para mim. E o pior é que somos insuficientemente poucos os que pensamos assim.

Por mais antirracista que eu seja, a percepção fundamental de que essa luta não passa prioritariamente “pelo outro” – e sim por mim – é, para mim, uma das únicas possibilidades dessa luta avançar.O problema não é somente que o Brasil seja um país estruturalmente racista. O problema é o Brasil ser estruturalmente racista e pensar (e dizer) que não é.

Alice é o nome da filha de Neto, que – na barriga da mãe – ainda nem nasceu.

Flávio Carvalho (@1flaviocarvalho/@quixotemacunaima) é sociólogo e escritor.

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