Perenidade da mensagem

Por Cesar Vanucci *

“A tua religião, oh Rabi, cura as minhas feridas?” (Verso de um poema de Lauro Fontoura, onde criança enferma dirige uma pergunta ao Mestre)

Galileia. / O luar põe alegorias brancas nos cabelos do mestre. / A noite desce como uma benção. / Para os lados de Hebron, / sob o céu límpido, / a distância se afuma num fundo bíblico de searas. / Cristo apanha a seus pés uma criança leprosa, /ergue-a à altura da sua fronte / e beija-lhe a boca. / O pequeno, levantando as pálpebras ingênuas / e pousando o olhar triste / na doçura doirada dos olhos divinos / perguntou: – ‘A tua religião, oh Rabi, cura as minhas feridas?’”

Estes primorosos versos, trecho introdutório do poema “Hóstias de Luz”, são de Lauro Savastana Fontoura. Um humanista da melhor linhagem. Causídico renomado, primeiro diretor da Faculdade de Direito do Triângulo Mineiro, advogado geral do Estado, desembargador do Tribunal de Justiça MG, personagem político com ativa participação nas lidas públicas, deixou vestígios marcantes de sua passagem pela pátria dos homens.

A narrativa poética com que nos brinda fala de temas que abastecem de sublime encantamento a aventura humana. Fala de misericórdia, compaixão, solidariedade, esperança e amor. Expressões que compõem o pujante e terno vocabulário natalino em todas as latitudes, idiomas e hábitos culturais. Mas, bem mais do que isso, sinalizam roteiro ideal, a ser obstinadamente trilhado por mulheres e homens de boa vontade, na caminhada civilizatória que dá sentido à vida.

“Sentido da vida”: A expressão reclama a entrada em cena de um outro poeta. Raul de Leoni. Pertencem a Raul de Leoni, em “Luz Mediterrânea”, esses outros magistrais e líricos conceitos: “O sentido da vida / e o seu arcano / é a aspiração de ser divino, / no prazer de ser humano.”

Tudo quanto posto concede-nos a esplêndida chance de projetar-nos a patamares superiores no entendimento e verdadeira compreensão de algo transcendental.  Trata-se da mensagem vinda do fundo e do alto dos tempos, sempre com ênfase ampliada na festa maior do calendário universal.

Ao recomendar a prática permanente da misericórdia, da compaixão, da solidariedade, da esperança, do amor, esta mensagem, de serena e inteiriça beleza, lembra a impostergável necessidade, de premente urgência – não fica nada demais a pleonástica enfatização -, de nos colocarmos, todos os seres humanos, de modo intenso, a serviço de um projeto social, de cunho humanístico e espiritual, que seja capaz de reconectar o mundo com sua humanidade.

Noutras palavras: fazer com que o labor humano concentre ações prioritárias em prol da erradicação das clamorosas desigualdades sociais. Em prol da abolição das guerras “abominadas pelas mães”, como anota Horácio. Em prol da extirpação da pobreza aviltante, dos preconceitos odiosos, em suas múltiplas e atordoantes modalidades. Em prol da eliminação de tudo aquilo que possa alvejar a paz e o bem-estar social, conceitos de vida que fazem parte dos ardentes anseios dos corações fervorosos.

A sociedade humana dispõe – visto está – de talento, engenhosidade, criatividade, recursos naturais prodigiosos, tecnologias fabulosas, tudo em superabundância, dependendo de vontade política, sensibilidade social, espírito de justiça, para direcionar tudo isso em favor de empreendimentos que contribuam para estruturação de uma história humana ancorada no bem-estar coletivo e na justiça social, numa civilização fraterna, onde prevaleçam em plenitude condições propicias para cura de todas as feridas abertas que hoje laceram, mundo afora, o tecido social.

A mensagem transmitida, há 2020 anos, na Galileia, pelo Ser inigualável, de luminosidade suprema, da devoção universal, descrito nas narrativas sagradas não perdeu nem tampouco perderá jamais sua absoluta perenidade como completo, perfeito e definitivo instrumento de cura para todos os males. Para todas as feridas.

Aos caríssimos leitores, os votos de um Feliz Natal!

*  O jornalista Cesar Vanucci (cantonius1@yahoo.com.br) é colaborador do Blog Mundo Afora

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