Primeiro-ministro espanhol defende ‘não à guerra’ ao Irã em rechaço à ameaça de Trump

Pedro Sànchez responde ameaça de Trump de embargo comercial à Espanha defendendo a diplomacia no conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã

Mesmo sob ameça de embargo comercial por parte dos Estados Unidos (EUA), o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez (PSOE), mantém firme a postura contra a guerra de Donald Trump e Benjamin Netanyahu ao Irã.A posição da Espanha é a mesma que em relação à Ucrânia ou à Gaza. Não à quebra de um direito internacional que nos protege a todos. Não a resolver conflitos com bombas. A posição espanhola se resume em quatro palavras: não à guerra.

A declaração de Sánchez, realizada hoje (04), em coletiva de imprensa no Palácio Moncloa, em Madri, acontece um dia após o presidente norte-americano afirmar que cortará toda relação comercial com a Espanha. Isso porque Sánchez rejeitou que os EUA utilizassem as bases militares Rota e Morón, em território espanhol, no apoio às manobras de ataque ao Irã.

Sánchez é o único líder europeu crítico à escalada bélica no Oriente Médio, depois que, no último sábado, Israel e os Estados Unidos lançaram ataques militares contra o Irã e mataram o aiatolá Ali Jamenei. O governo espanhol já havia advertido que, se Trump quiser cortar as relações comerciais, deverá fazê-lo respeitando a vontade das empresas privadas, assim como os acordos firmados com o conjunto da União Europeia.

O mandatário espanhol resgatou o “não à guerra” que mobilizou a esquerda espanhola em 2003 contra à invasão ao Iraque. À época o então primeiro ministro espanhol, José Maria Aznar, do Partido Popular, oposição à Sánchez, apoiou incondicionalmente a invasão do Iraque, numa reunião realizada nos Açores com o então presidente dos EUA, George Bush, e seu homônimo britânico Tony Blair.

O mundo já esteve aqui antes. Há 23 anos, outra administração dos Estados Unidos nos levou a uma guerra injusta. A guerra do Iraque gerou um aumento drástico do terrorismo, uma grave crise migratória e econômica. Esse foi o presente do trio dos Açores: um mundo mais inseguro e uma vida pior”, enfatizou.

REPÚDIO AOS AIATOLÁS – Sánchez enfatizou que o governo espanhol repudia o regime dos aiatolás, mas também a guerra em curso, apostando na diplomacia. “Alguns dirão que isso é ingênuo. Ingênuo é pensar que a solução é a violência. Ou pensar que seguir de forma cega e servil é liderar. Não vamos ser cúmplices de algo que é ruim para o mundo por medo de represálias de alguém”, disse, em clara referência às ameaças de Trump.

O mandatário espanhol ressaltou que sua posição não é minoritária. “Não estamos sozinhos. O governo está com quem deve estar: com os valores da Constituição, da União Europeia, com a Carta da ONU, com a paz. Milhões de pessoas em todo o mundo estão com a paz e a prosperidade”, afirmou.

Sánchez se mostrou convencido de que neste conflito perderão os mais fracos e ganharão os fabricantes de armas e outros milionários. “Nem sequer estão claros os objetivos deste ataque. Sabemos que dessa guerra não sairá uma ordem internacional justa, nem salários mais altos, nem um meio ambiente mais saudável. Os únicos que ganham quando o mundo deixa de construir hospitais para construir mísseis são os de sempre”, acrescentou. E voltou a citar a guerra do Iraque para lembrar que foi isso que ela trouxe: instabilidade, terrorismo e crise econômica.

O primeiro-ministro fez uma referência histórica para alertar sobre o risco que a decisão de Trump leve o mundo a um desastre total. Recordou que, quando perguntaram ao chanceler alemão como havia começado a Primeira Guerra Mundial, ele respondeu: “Gostaria de saber”. “É assim que começam os grandes desastres da humanidade. Muito frequentemente, as grandes guerras estouram por erros de cálculo. Não podemos jogar roleta russa com o destino de milhões de pessoas”, concluiu.

Diante das críticas por adotar uma posição diferente da França e da Alemanha, Sánchez esclareceu que trabalhará por uma posição consensuada dentro da União Europeia, mas insistiu sobretudo que a Espanha não terá uma posição subordinada aos Estados Unidos — e tem o direito de não tê-la — porque é um parceiro confiável na OTAN e na UE e cumpre seus compromissos. “Não se pode responder a uma ilegalidade com outra”, insistiu.

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