Hope

Momento em que Anja resgata Hope

A história de Hope, um garoto nigeriano de 2 anos, dói na alma. Ao mesmo tempo proporciona um sopro de esperança para outras milhares de crianças que como ele são acusadas de “bruxos” em aldeias da Nigéria, na África. Onde pais ignorantes e supersticiosos abandonam seus filhos à própria sorte ou os submetem a tortura e abusos por acreditarem que portam o mal dentro de si. Muitos deles acabam morrendo, invisibilizados em uma sociedade que compactua com os atos de violência.
Hope foi resgatado no último dia 30 de janeiro pela dinamarquesa Anja Ringgren Lovén, diretora ONG DINNødhjælp, Fundação para a Ajuda, a Educação e o Desenvolvimento das Crianças Africanas (Acaedf na sigla em inglês). Ele perambulava na pequena aldeia de Akwa Ibom, no sul da Nigéria, a uma hora e meia da capital Uyo.
Ela havia saído pela manhã do orfanato que mantém na periferia de Uyo, após o chamado de um informante que dera notícias de uma menina de 8 anos abandonada por ser considerada “bruxa”. Neste dia, estava acompanhada por uma equipe da produtora dinamarquesa Sand TV, formada pelo jornalista Jeppe Sig e a cinegrafista Anne Isbak, que gravava um documentário para a rede de TV DR2 sobre o trabalho de Anja.
Nos dedos da mão esquerda tem gravadas as letras da palavra hope, que significa esperança em inglês, mas também as iniciais de seu lema: Helping One Person Everyday (Ajuda a uma pessoa a cada dia).
No local indicado, os homens que exercem a função de chefes do povoado receberam Anja e a equipe com hostilidade. Saíram dali decepcionados sem localizar a garota. O jornalista Jeppe Sig recorda de na volta receberam informações sobre um menino abandonado e partiram para a nova busca numa aldeia próxima.
Hope2Ali encontraram Hope, que sobrevivia na rua sozinho há 8 meses. “O mais horrível é que as pessoas conheciam o menino e o ignoravam. Imagine uma criança de dois anos vivendo noite e dia na rua, se alimentando das sobras que conseguia encontrar”, conta Anja.
Ela diz que ao princípio o garoto olhou para ela. Não falava nem emitia qualquer som. “Para chamar a atenção começou a dançar. Era seu último esforço. Depois disso caiu”, detalha Jeppe Sig. Foi então que Anja levantou o garoto, pegou água e lhe deu para beber, como se vê na foto feita pelo voluntário Martin Nilsson.
Depois pegou o menino nos braços e lhe envolveu numa manta. O olhar de Hope parece de alguém que sofreu séculos de guerra. “Apesar de Anja já ter sido testemunha de muitos horrores na Nigéria, me disse: ‘Este resgate é um dos mais duros que realizei'”, recorda o jornalista. “Contudo, em situações como esta se mantém fria. Não pode demonstrar seus sentimentos diante daquela gente. Ficaria em perigo”, completa.
Depois disso chegou o tenso momento de pedir autorização ao chefe da tribo para levar o menino a um hospital. “Lhe demos dinheiro para o whisky ou o que seja para que não frustrasse a missão”, explica Jeppe Sig.
Hope3 tatuagemFoi então que Anja decidiu batizá-lo: Hope, como está escrito na tatuagem em seus dedos. Internado num hospital público de Uyo, o pequeno teve que submeter-se a transfusões de sangue para reposição de glóbulos vermelhos. Ele tinha o intestino infestado de lombrigas.
“Ele estava nu, não falava e tinha força para manter-se em pé. Estava condenado a morrer na intempérie por ser considerado um menino bruxo”, conta Anja. Que no dia seguinte escreveu em seu Facebook: “Tenho testemunhado casos semelhantes nos últimos anos aqui na Nigéria. Estas imagens mostram porque luto”, completou.
A foto do momento em que Anja dá um pouco de água a Hope, famélico, com ossos à mostra, quase sem se aguentar de pé, viaralizou na web depois de publicada em sua conta do Facebook. E está gerando mais do que “likes“. Por conta da visibilidade proporcionada nas redes sociais, ela já conseguiu doações que já somam 1 milhão de euros (cuidado que há também um perfil fake com a mesma foto). Dinheiro que permitirá construir um novo orfanato e uma clínica para atender aos “meninos bruxos”.
Anja, que é ateia, saiu da Dinamarca há três anos rumo à Nigéria, deixando para trás o trabalho em uma loja de roupas e vendendo tudo que tinha. Hoje dirige um orfanato na periferia capital Uyo junto com o marido, o nigeriano David Emmanuel Umem, com quem tem um filho biológico de um ano e meio, sorridente e saudável. Lá cuidam de outras 35 crianças marcadas pelo estigma de serem “bruxos”.
Hope se recupera rápido. No último dia 2 de fevereiro, depois de uma visita ao hospital, Anja escreveu em seu perfil: “Ver-lo sentar-se e brincar com meu próprio filho é a maior experiência da minha vida. Isso é o que faz a vida tão bonita e valiosa”.