sábado, abril 11, 2026
África

Anistia Internacional acusa União Europeia de ser cúmplice de crimes contra migrantes na Líbia

Organização Não Governamental divulga relatório em que acusa UE de colaborar com rede criminosa sujeita migrantes e refugiados a tortura, trabalhos forçados, extorsão e assassinatos. Estimativa é de que 20 mil pessoas estão retidas hoje no país africano

Milhares de migrantes e refugiados estão retidos na Líbia, que recebe recurso da União Europeia para barrar passo daqueles que querem chegar à Europa pelo Mediterrâneo

Relatório divulgado pela Anistia Internacional acusa a União Europeia (UE) de ser cúmplice do “sistema de abuso e exploração de dezenas de milhares de migrantes e refugiados” na Líbia. “A tenebrosa teia de conluio na Líbia: abusos de refugiados e migrantes rumo à Europa”, publicado no rastro da denúncia de venda de escravos no país africano – critica a canalização de fundos da União Europeia para autoridades que colaboram com redes de tráfico de pessoas.
“Refugiados e migrantes retidos na Líbia estão à mercê das autoridades líbias, de milícias, grupos armados e traficantes que frequentemente operam em conjunto para obterem ganhos financeiros e dezenas de milhares são mantidos indefinidamente em centros superlotados, onde estão sujeitos a abusos sistemáticos”, ressaltou o diretor da Anistia Internacional para a Europa, John Dalhuisen.
A organização afirma que 20 mil pessoas são mantidas em campos de detenção e estão sujeitas a tortura, trabalhos forçados, extorsão e assassinato. “Os governos europeus não só estão totalmente a par destes abusos como, ao ativamente apoiarem as autoridades líbias a barrarem as travessias marítimas e a reterem as pessoas na Líbia, são cúmplices destes crimes”, frisou Dalhuisen.
A Líbia é a principal porta de saída para migrantes que tentam chegar à Europa por meio da travessia do Mar Mediterrâneo. Para controlar a recente onda migratória, a UE vem apoiando o governo líbio desde 2015, através do treinamento e do fornecimento de equipamentos à guarda costeira e da doação de milhões de euros para melhorar as condições dos campos onde ficam retidos os migrantes.
Segundo os relatores da ONG, a Guarda Costeira líbia colabora com grupos criminosos envolvidos no tráfico humano “com o conhecimento das autoridades europeias”. O que tem resultado num quadro de “detenções em massa, arbitrárias e por tempo indefinido” de refugiados e migrantes. Os refugiados e migrantes interceptados pela Guarda Costeira são encaminhados para centros de detenção administrados pela Diretoria Geral para o Combate à Migração Ilegal (DCIM).
RELATOSA Anistia Internacional recolheu testemunhos de vítimas de tortura, trabalho forçado, extorsão e até mesmo relatos de execuções sumárias e acredita ter suficiente material de prova para levar as autoridades europeias à justiça. Um homem identificado como Mumin (nome falso) conta como é estar num centro de detenção: “É como o inferno. Um grande armazém com pequenas salas. Nunca vemos a luz do sol. Estamos fechados numa sala, cada um banheiro. Os quartos estão cheios, não há espaço para dormir no chão ao mesmo tempo.”
Já Bakary, da Gâmbia, relata a violência noutro centro e como a família foi obrigada a pagar pela sua libertação. “Fiquei lá três meses, depois paguei 500 dinares líbios e deixaram-me ir. No centro não me deram comida, bateram-me com uma mangueira de plástico, porque queriam dinheiro para me libertar. Eles telefonam à família quando te batem para a família enviar dinheiro.”
Outros migrantes explicaram à organização como funciona a colaboração entre os traficantes e a Guarda Costeira da Líbia: “Eles fazem um sinal a vermelho no barco. Se a marinha ver isso, significa que pagaram”, contou Marvin, do Senegal. Esses barcos são autorizados a cruzar o Mediterrâneo sem serem interceptados.
“Os governos europeus devem repensar a cooperação com a Líbia na migração e permitir que as pessoas cheguem à Europa por caminhos legais, incluindo a recolocação de dezenas de milhares de refugiados. Devem insistir junto das autoridades líbias no fim da política e da prática de detenções arbitrárias de refugiados e migrantes, na imediata libertação de todos estrangeiros mantidos em centros de detenção e permitir que o o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) opere sem obstáculos”, insta Dalhuisen.

Os migrantes que conseguem chegar ao mar se submetem a uma travessia perigosa em barcos sem estrutura pela qual pagam caro a grupos criminosos

Nos primeiros 11 meses do ano, o número total de chegadas através da rota do Mediterrâneo Central (pela Itália) foi de 116 400 – um terço das registadas no mesmo período de 2016. Só na rota que termina na Espanha é que se regista um aumento de entradas – 21 100 entre janeiro e novembro, 140% mais do que no ano passado. No total, em todas as rotas, há uma queda de 62% em relação a 2016, segundo os dados da Frontex.

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