Mano Augusto

Neste post publicamos em sequência três artigos do jornalista mineiro Cesar Vanucci, colaborador do Blog Mundo Afora, em referência a momentos da vida do seu irmão Augusto Cesar Vanucci. Os relatos foram escritos após homenagem feita em novembro de 2017, no Rio de Janeiro, em memoria aos 25 anos de morte do ator de cinema, diretor e produtor de TV que marcou a comunicação brasileira.

Por Cesar Vanucci *
“Augusto Cesar Vanucci, um iluminado!”
(Artur da Távola, jornalista)

Amigos diletos, ex-colegas de trabalho, companheiros dedicados em bem sucedidas empreitadas culturais e de solidariedade humana reverenciaram a memória de Augusto Cesar Vanucci, ao ensejo do transcurso do 25º aniversário de sua passagem para outro plano da existência. Uma série de palestras, tendo como foco a vida e obra do vitorioso diretor de televisão, acompanhada de representações teatrais, compôs a programação levada a efeito no “Teatro Vanucci”, Shopping da Gávea, Rio de Janeiro, nas noites das quartas-feiras de novembro passado. Coube-me, por deferência dos promotores do evento, a honra de fechar o ciclo de exposições diante de plateia numerosa, de expressão afetiva e intelectual.
Sintetizo, a partir de agora, as considerações feitas na ocasião, naturalmente impregnadas de forte emoção. Mano Augusto foi uma criatura iluminada. Um contemporâneo do futuro, pode-se dizer. Alguém notoriamente provido de dons deveras singulares. Tanto na vida mundana, de modo geral, como na profissão abraçada, de modo particular. Desde meninote deu mostras de percepções invulgares. Passava sempre a sensação de saber das coisas. Madrugou no conhecimento dos assuntos considerados essenciais ao processo de construção humana.
Considerado “garoto prodígio”, pelos pendores artísticos aflorados desde cedo, arrancava entusiásticos aplausos das plateias nas apresentações que fazia, como cantor no rádio, teatros e outros locais abertos a manifestações culturais. Com 12 anos de idade, levado de Uberaba pelos pais ao Rio de Janeiro, concorreu à premiação para cantores no programa “Hora do pato”, conduzido por Heber Boscoli, na Tupi carioca. Não deu outra: colocou o auditório em delírio interpretando a canção “Canta Brasil”, de Alcir Pires Vermelho e David Nasser. Passou a exibir o troféu conquistado na rádio em espetáculos a que era convidado a participar em cidades do Triângulo Mineiro. O pintor Cândido Portinari apreciava ouvi-lo nas visitas que fazia a amigos muito chegados em Uberaba. Convidou-o, certa feita, para apresentação em sua terra natal.
Deu-se na sede da União da Mocidade Espírita de Uberaba o primeiro encontro de Augusto Cesar, ginasiano, com Chico Xavier, de quem acabou se tornando, vida afora, fraternal amigo. O célebre sensitivo, ainda residindo em Pedro Leopoldo (só muitos anos depois transferiu o domicílio), visitava Uberaba pela vez primeira.
Mano Augusto foi convidado para um espetáculo em sua homenagem. Décadas mais tarde, já tendo se tornado nome vitorioso na área do entretenimento artístico, primeiro brasileiro a ser agraciado com um “Emmy” nos Estados Unidos e um “Ondas” na Europa (pelo programa “Arca de Noé – Vinicius para criança”, levado ao ar pela “Globo”), Augusto Cesar coordenou a campanha em favor da outorga do “Nobel da Paz” a Chico Xavier.
A documentação a respeito da história legendária do mais famoso médium brasileiro continha assinaturas de dois milhões de cidadãos. Com o documentário “Um homem chamado amor”, Augusto deu amplitude notável nos meios de comunicação à obra de Chico. Ao mesmo tempo, adaptando para o teatro textos extraídos de livros do mesmo, lançou a peça “Além da vida”. Esta peça vem sendo encenada há um bocado de tempo, com público garantido, por grupos diferentes, em palcos de todo o país.
Voltarei, adiante, a falar da ligação estreita de amizade entre Augusto e Chico, detendo-me num episódio pra lá de inexplicável à luz do mero conhecimento consolidado que temos das coisas deste mundo.
Retorno à cintilante carreira de Augusto no mundo das artes, para dizer que ele, aos 18 anos, foi tentar a sorte no Rio de Janeiro. Passou em primeiro lugar num teste no “Teatro do Estudante”, de Pascoal Carlos Magno. Não concluiu o curso. “Olheiros” do setor teatral atraíram-no para a lida profissional, importante para ele como meio de sobrevivência.
Estreando numa peça produzida pelas grandes vedetes Renata Fronzi e Mara Rubia, ele foi chamado para o papel principal, logo depois, em “Feitiço na Vila”, musical com repertório de Noel Rosa. Teve como parceiras no elenco Elizeth Cardoso e Mary Gonçalves. Contracenou, adiante, com Bibi Ferreira no musical “Alô, Dolly”. Estrelou outra peça originária da Broadway: “Como vencer na vida sem fazer força”. “Vamos brincar de amor em Cabo Frio” foi uma outra comédia musical por ele protagonizada. Enveredando pelo cinema, atuou em 18 filmes.
“Eles não voltaram”, primeiro celuloide sobre a participação da FEB na campanha militar da Itália, foi um deles. Obteve numerosos prêmios como ator de cinema e teatro. Assumindo na nascente Rede Globo de Televisão a função de diretor da linha de shows e programas humorísticos, alcançou notoriedade nacional e arrebatou, como já dito, prêmios internacionais. Foi um craque de seleção na atividade a que se consagrou. Outras coisas que merecem ser ditas a respeito de sua marcante peregrinação pela pátria terrena, inclusive, o episódio instigante acima aludido, ficam para a sequência, já que esgotado o espaço de hoje destas maldatilografadas.

Chico Xavier e Augusto Cesar

“Estou perplexo! O querido Chico anteviu este nosso encontro.”
(Augusto Cesar Vanucci)

Vejam só como são armadas nas latitudes transcendentes, imperceptíveis ao olhar humano, as sincronicidades capazes de influenciar atos decisivos na conduta cotidiana. Encontro casual, na sala de espera de uma companhia aérea, no aeroporto de Congonhas, São Paulo, numa manhã de setembro de 1980, criou as condições propícias para que uma recomendação especial, de características pode-se dizer mágicas, desembocasse numa campanha humanitária de efeitos altamente positivos na história de benemérita instituição.
Os apoucados, posto que assíduos e atentos, leitores destes mal alinhados escritos recordam-se, por certo, do registro feito no comentário passado a respeito de um episódio instigante que me propus a novamente relatar. Eu estava falando da palestra que proferi no Rio de Janeiro, no Teatro Vanucci, Shopping da Gávea, na última quarta-feira de novembro, ao ensejo da celebração dos 25 anos de passamento do mano Augusto Cesar Vanucci, promovida por seus amigos e colegas de trabalho. Referindo-me às estreitas relações de amizade de Augusto com o célebre sensitivo Chico Xavier – relações de amizade essas que, ambos, fiéis às suas crenças, costumavam dizer remontar a tempos bastante recuados –, comprometi-me a contar, neste acolhedor espaço, a historieta que se segue. Nada demais repeti-la. O toque edificante e, ao mesmo tempo, comovente que a envolve legitima o repeteco.
A convite do Lions, Augusto Cesar, à época diretor do núcleo de musicais e humorísticos da Rede Globo, fez uma exposição, no mês e ano acima citados, para público numeroso, no auditório da “Casa da Indústria”. Abordou as infinitas perspectivas que se estavam abrindo, na área da comunicação, em decorrência dos velozes e inimagináveis avanços tecnológicos da era eletrônica.
Palestra já em andamento, os dirigentes do Lions foram procurados por Adalberto e Beatriz Ferraz, casal de saudosa memória, que se fazia portador de uma postulação para apreciação de Augusto. No pleito era descrita a situação aflitiva vivida, naquela fase, pelo Hospital Mário Penna. Pedia-se ao destinatário do apelo que se engajasse na busca de uma solução para a tormentosa questão, já que a organização citada via-se ameaçada em sua sobrevivência.
Encerrada a exposição, grupo reduzido rodeou Augusto para rápida troca de ideias sobre o angustiante problema enfrentado pelo Mário Penna, um centro assistencial, como ele pode comprovar em visita feita na manhã seguinte, mantido na base do idealismo e abnegação por um punhado de pessoas abrasadas pelo sentimento da solidariedade. Augusto Cesar ficou tomado de contaminante emoção com o relato ouvido na “Casa da Indústria”. Saiu com uma revelação que deixou todos à sua volta boquiabertos.
Começou por dizer que desconhecia, até aquele momento, a existência do Mário Penna. Informou, ao depois, que cruzando com Chico Xavier no aeroporto em São Paulo, este lhe pedira, com empenho, naquele tom suave de voz todo seu, que não deixasse de atender pedido angustiado que lhe iria ser formulado em favor de uma organização consagrada a assistir enfermos oncológicos carentes. “Estou perplexo!”, asseverou. “O querido Chico anteviu este nosso encontro”.
Estes os desdobramentos do incrível caso. Augusto atirou-se com ardor e entusiasmo a serviço da causa. Tornou-se um de seus benfeitores. O “Fantástico”, programa que criou e dirigia, focalizou em edições sucessivas as coisas do Mário Penna, enfatizando suas dificuldades para sustentar-se financeiramente. A instituição foi inserida entre as beneficiárias do “Criança Esperança.” No Palácio das Artes e no Mineirinho foram levados a efeito, um atrás do outro, espetáculos de artistas famosos, inclusive do exterior, com renda destinada à obra. A série de palpitantes reportagens na televisão estimulou o aporte de recursos do governo federal. O hospital Luxemburgo surgiu dentro desse favorável contexto.
Desnecessário, a esta altura, sublinhar que, em momento algum, Chico Xavier veio a ser procurado, por quem quer que seja, para atuar como intermediário no auxílio prestado à organização. Sua misteriosa intercessão nasceu de desígnios superiores. Desígnios que constituem charada de difícil decifração para quem resista a admitir a infinitude dos territórios do conhecimento extra-sensorial a serem ainda desbravados pela inteligência, percepção e curiosidade humanas.

Augusto Cesar e a liberdade de crença

“Ele apresentava acentuada preocupação
por temática brasileira na programação.”
(Artur da Távola)

É provável que, neste acolhedor espaço do vibrante DC, nestes longos anos de enriquecedor contato, dia sim, dia não, religiosamente, com os leitores, já tenha surgido referência à admiração suscitada, ao tempo de ginasiano no Liceu do Triângulo Mineiro, Uberaba, pela erudição revelada na ação pedagógica do saudoso professor de Ciências José Peres, por sinal, excelente pianista.
Eu considerava o máximo, sem intenção de trocadilho, as “máximas” com que ele enfeitava as dissertações. Guardo ainda hoje várias delas na memória velha de guerra. Revejo, saudosista, o momento em que ele – pronúncia enfática, sincronizada com a gesticulação denunciando pendor teatral não demonstrado, ao que saiba, em palco – proclama em sala de aula intrigante sentença: “Louvor em boca própria é vitupério!” Lembro-me de haver indagado: “Na boca de parente próximo, também?” Ele titubeou, mas acabou dizendo que sim.
Abuso à parte, que segundo o dicionário é a expressão branda de sinonímia para vitupério, animo-me com disposição a dar sequência aqui à louvação da obra executada, em sua peregrinação na pátria terrena, pelo saudoso mano Augusto Cesar Vanucci. Pelo que ele fez em vida não há como não classificar de justa a carinhosa manifestação de saudade que amigos, ex-colegas de ação profissional lhe prestaram no Teatro Vanucci, Rio de Janeiro, em ciclo de palestras seguidas de encenações teatrais, no findo mês de novembro, focalizando sua vitoriosa trajetória humana e profissional.
Ocupo-me agora de um trabalho que ele realizou, como líder carismático e cidadão possuidor de arraigadas convicções ecumênicas, em favor da liberdade de consciência e de crença. Recorro a esplêndido testemunho dado a respeito por ninguém mais, ninguém menos, do que Artur da Távola, influente jornalista e parlamentar já não mais entre nós.
Oportuno anotar, antes desse testemunho acerca da atuação de Augusto Cesar em defesa dos valores humanísticos e espirituais sublinhados, o retrato que ele, Artur, fazia de meu irmão como ser humano e como exponencial figura na área da comunicação social e do entretenimento. “Um iluminado!” Assim o descrevia.
Completava: “Sente-se na palavra de Augusto Cesar Vanucci comovente fé, vivida e exercida em tempos aparentemente impróprios, pois materialistas; e numa atividade, a artística, marcada por inusitadas expansões existenciais, busca de prazer e mergulho nas patologias contemporâneas como corajosa forma de viver os impasses, dores e esperanças de tempos agônicos.” (…) “Vanucci viveu realidades paralelas aparentemente estranhas entre si, mas particuladas: intensa ação como homem de televisão (um dos mais importantes, acrescento eu) e a atividade espiritual, marcada por contrição permanente, fé inabalável, tendo que conciliar em seu interior, as exigências do meio externo com recebimento de mensagens espirituais permanente.”
Artur da Távola assevera ainda haver acompanhado, de perto e de dentro, em análises diárias na televisão, o percurso de Augusto como diretor de programas, “completamente diferente dos demais”. Augusto “possuía estilo (que a televisão insiste em não permitir); apresentava acentuada preocupação por temática brasileira no conteúdo; buscava um formato para um show brasileiro de televisão e sempre encontrava alguma forma engenhosa de colocar matéria de natureza mística.” Levava ao ar programas sobre a paranormalidade e a espiritualidade sem sensacionalismo, acrescenta.
O papel desempenhado por Augusto Cesar nas lutas pela liberdade de crença entra agora no registro de Artur da Távola. Na Constituinte, magno momento da vida brasileira, Augusto ocupa a tribuna da Câmara. “Falou bonito, forte e comovente”, acusa o deputado Távola. Prossegue: “A Constituição não saiu exatamente como queríamos, mas foi aprovado, graças a emenda de minha autoria e por influência dele, Augusto, um texto que lá está, oxalá para sempre, o que garante a liberdade da prática religiosa.
Diz o seguinte: “Artigo 5, inciso VI – É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias.” Távola relembra ainda que o texto sofreu ameaça de uma restrição que entregava à polícia a possibilidade de impedir, em avaliação inevitavelmente subjetiva, “práticas religiosas que viessem a ser consideradas perigosas.” Explica: “A restrição abriria porta ao arbítrio. Qualquer autoridade poderia (…) impedir a plena liberdade de culto.” E arremata: “Derrubamos a restrição, graças a emenda minha em íntima articulação com Vanucci e outros.”
* O jornalista Cesar Vanucci (cantonius1@yahoo.com.br) é colaborador do Blog Mundo Afora.

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