Independentismo catalão protagoniza maior mobilização da era Covid na Europa

Mais de 400 mil pessoas tomaram as ruas de Barcelona na Diada da Catalunha, mostrando que o movimento independentista continua vivo

Barcelona, 11 de setembro de 2021. O dia em que se celebra a Diada da Catalunha amanheceu com muitas interrogações. Era a primeira vez que a Assembleia Nacional Catalã (ANC) mobilizava cidadãos a saírem às ruas em defesa da independência na era Covid. Além do vácuo temporal imposto pela pandemia, o chamado em meio a um ambiente de ceticismo com os partidos independentistas que perderam o norte sufocados pela repressão do estado espanhol em em meio à brigas partidárias, fazia crer que pouca gente iria às ruas defender a soberania catalã. O que se viu foi o contrário. Numa tarde ensolarada, mais de 400 mil pessoas, segundo os organizadores, e 100 mil, de acordo com a Guarda Urbana, foram ao centro da capital exigir que se implemente a independência.

Um mar de gente encheu a avenida Pau Claris e a Via Laietana, que se conectam, desembocando no Passeig d’Isabel II, como pode se ver nas fotos publicadas no Twitter pelo fotógrafo Jordi Borràs, do jornal El Món. Havia muita animação, batucadas, as famosas estelades – bandeira independentista – e manifestantes de todas as idades. Famílias inteiras com crianças e idosos, pessoas com dificuldade de mobilidade, gente com seus animais de estimação.

Diada Catalunha 2021
Fumaça de fogos artificiais diante da chefatura da Polícia Nacional, na Via Laietana, em momento de tensão entre manifestantes e polícia. FOTO: Gerad Viader

Os lemas “Exigimos independência“, “Fora as forças de ocupação” ecoavam pela avenida Laietana, mais fortes diante da Chefatura da Polícia Nacional, onde houve incidentes. Jovens jogaram garrafas, lastas, ovos e tinta contra o edifício para muitos símbolo da represão espanhola, e houve confronto com a polícia, que se estendeu por algumas horas depois da dispersão da passeata.

Os ativistas e políticos que passaram quase quatro anos presos em função da declaração frustrada de independência de 2017 voltaram às ruas depois da liberdade concedida recentemente por meio de indulto do primeiro-ministro Pedro Sánchez. Integrantes do atual governo da Catalunha, formado pelos partidos Esquerda Republicana (ER) e Juntos por Catalunha (JxCat), também marcaram presença. A quem a presidente da ANC, Elizenda Paluzie, cobrou “que efetivassem a independência declarada em 2017”.

Voluntários da ANC distribuíram cartazes com os dizeres “Nós Ganhamos. Exigimos independência“, na passeata que saiu sob o lema “Lutemos e ganhemos a independência“. Representantes da ANC, Òmnium, Associação de Municípios pela Independência (AMI), Conselho para a República, Intersindical, Câmara de Comércio e Debate Constituinte, lideraram a manifestação, enquanto os políticos ficaram na segunda fila da manifestação.

O presidente da Catalunha, Pere Aragonès, e o líder do seu partido, ERC, Oriol Junqueras, foram vaiados em alguns momentos. Isso pela discordância dos manifestantes com a chamada “Mesa de Diálogo” que o partido defende junto ao governo espanhol e por acharem que a sigla está trabalhando para colocar panos quentes no conflito entre Catalunha e Espanha. 

A passeata desembocava no local onde estava instalado um palco, em frente ao Parque Ciutatela, onde houve discursos dos representantes das entidades e dos políticos. “A independência não se pede, se exerce“, disse Paluzie ao se direcionar a Aragonés e dizer: “Presidente, efetive a independência“. A frase fazia referência a outra proclamada pela anterior presidente da ANC, Carme Forcadell, que em 2014 disse ao então president Artur Mas, o seguinte: “Presidente, ponha as urnas”, pedindo a realização de um referendo, que finalmente aconteu em 1 de outubro de 2017. Data na qual os eleitores foram alvo da violência da polícia espanhola e na sequência os organizadores foram presos, entre eles a própria Forcadell e Junqueras.

Do exílio, o ex-presidente Carles Puigdemont (JxCat) saudou a valentia dos catalães que “mais uma vez voltaram às ruas” e conclamou a União Europeia a ver que o movimento independentista está mais vivo que nunca. Exilado na Bélgica, atualmente Puigdemont e dois ex-auxiliares seus, Clara Pondsatí e Toni Comín, são eurodeputados no Parlamento Europeu.

 

 

 

 

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