Anja e HOPE

Anja, em 2016, no resgate do “menino bruxo”. Em 2017, Esperança a caminho da escola

As fotos acima mostram que a esperança é um sentimento poderoso e que pode modificar realidades. Na primeira imagem, que viralizou na internet em 30 de janeiro de 2016, a dinamarquesa Anja Ringgren Lovén dava um pouco de água ao faminto garoto nigeriano abandonado nas ruas pela família por ser considerado “bruxo”. Na outra, clicada no último dia 30 de janeiro, o menino batizado Hope (Esperança), recebe água de Anja, agora sua mãe adotiva, antes de seguir para o primeiro dia de aula.
Anja é diretora da ONG DINNødhjælp, Fundação para a Ajuda, a Educação e o Desenvolvimento das Crianças Africanas, que atua na Nigéria. No postagem que fez no perfil do Facebook ela diz: “Em 30 de janeiro de 2016, fui para uma missão de resgate com David Emmanuel Umem, Orok Nsidibe e nossa equipe nigeriana. Nossa ação se tornou viral há extamente um ano, quando o mundo veio a conhecer um rapazinho chamado Esperança, que esta semana está começando na escola”.
A história de Hope, que perambulava na pequena aldeia de Akwa Ibom, no sul da Nigéria, a uma hora e meia da capital Uyo, em direção a uma morte certa por inanição, doía na alma. Mas o resgate proporcionava um sopro de esperança para milhares de crianças que são apontadas como “bruxos” naquele país. Onde pais ignorantes e supersticiosos abandonam seus filhos à própria sorte ou os submetem a tortura e abusos por acreditarem que portam o mal dentro de si.
O RESGATE – Naquele dia, a ativista estava acompanhada por uma equipe da produtora dinamarquesa Sand TV, que gravava um documentário para a rede de TV DR2 sobre o trabalho de Anja. O pequeño menino sobrevivia na rua sozinho há 8 meses. “O mais horrível é que as pessoas conheciam ele e o ignoravam. Imagine uma criança de dois anos vivendo noite e dia na rua, se alimentando das sobras que conseguia encontrar”, realtou Anja depois do resgate.
A princípio o garoto olhou para ela. Não falava nem emitia qualquer som. “Para chamar a atenção começou a dançar. Era seu último esforço. Depois disso caiu”. Foi então que Anja levantou o garoto, pegou água e lhe deu para beber, como se vê na foto que deu a volta ao mundo, feita pelo voluntário Martin Nilsson.
Logo Anja decidiu batizar o garoto de Hope. A ativista tem nos dedos da mão esquerda tem gravadas as letras iniciais de seu lema: Helping One Person Everyday (Ajuda a uma pessoa a cada dia).
Anja acolheu o menino nos braços e lhe envolveu numa manta. Depois disso chegou o tenso momento de pedir autorização ao chefe da tribo para levar o menino a um hospital. “Lhe demos dinheiro para o whisky ou o que seja para que não frustrasse a missão”, explica um dos integrantes da equipe de TV. O menino teve que submeter-se a transfusões de sangue para reposição de glóbulos vermelhos e tinha o intestino infestado de lombrigas.
“Ele estava nu, não falava e tinha força para manter-se em pé. Estava condenado a morrer na intempérie por ser considerado um menino bruxo”, conta Anja. Que no dia seguinte escreveu em seu Facebook: “Tenho testemunhado casos semelhantes nos últimos anos aqui na Nigéria. Estas imagens mostram porque luto”, completou.
Anja, que é ateia, saiu da Dinamarca há quatro anos rumo à Nigéria, deixando para trás o trabalho em uma loja de roupas e vendendo tudo que tinha. Agora dirige um orfanato na periferia capital Uyo junto com o marido, o nigeriano David Emmanuel Umem, com quem tem um filho biológico de dois anos e meio. Lá cuidam de quase 40 crianças que como Hope deixaram no passado o estigma de “bruxos” e seguem em direção ao futuro.