*Por Flávio Carvalho

Quem espera nunca alcança”, Chico Buarque (Bom conselho).

Eu sempre digo que dançar Salsa, em Barcelona, é o oposto a dançar Forró (ou Brega), em Olinda. Na Salsa, “un pasito para trás”; no forró, minha perna “siempre adelante”.  Não deve estar falando sério a minha amiga que me convida a dançar com ela numa noite de brega, em Olinda. O Baile Brega é, depois de Bolsonaro, a mais perigosa ameaça às pessoas mais vulneráveis de contaminar-se com o novo vírus. Não há nada mais próximo, agarrado, colado, simbiótico, que dançar um bom brega a dois. Tudo aquilo exatamente que não recomenda a OMS. Ou como eu vi esta mesma manhã na agência do banco Santander: dezenas de pessoas, amontoadas, apertadas, coladas umas nas outras, a maioria de cabelos brancos, dentro de uma minúscula antessala de uma agência bancária. E com aquele calor que todos já sabemos: infernal. Definitivamente, não gosto de generalizações, mas o fato é que os brasileiros parecem(os) ser um coletivo condenado pela esperança. É só acreditar que nada poderá nos passar. Pois o pior já conhecemos, como um velho amigo? Não é mesmo? Acrescente a isso um dirigente máximo, negacionista. Um Presidente que se emociona quando lhe gritam: mito, abraçando-se na mais cúmplice ignorância.

Entrei logo perguntando. Vocês fazem o teste do Covid-19? “Quê?!”. Do Corona Vírus. “Sim; mas acabaram nossos kits”, respondeu-me a recepcionista do laboratório MM, orientando que eu perguntasse em outro, ali perto, o laboratório C. Nele, a recepcionista me passou um telefone específico. Depois de esperar longos minutos, a mensagem gravada dizia que esses exames estavam suspensos e me encaminhava para a saúde pública. Lá, no centro de saúde pública da praça onde eu jogava bola, a atendente fez a única coisa que ela dizia ser possível: agora tenho um papelzinho escrito à mão – que ela chama de Cartão do SUS. Sinceramente, não foi algo emocionante para mim.

Mas porque o senhor quer o exame, se não tem nenhum sintoma? Expliquei que minha mãe está internada, em estado grave, porém estável – e que necessito visitá-la com urgência, com alguma garantia de que não vou lhe contaminar. “Se é urgência, então, deveria ir ao hospital T” – ela sentencia. No Hospital T, pela recebida resposta surrealista, convenci-me a desistir.

Voltei à casa e ao isolamento. Sempre caminhando, pois o transporte público não me parece o meio mais adequado, para quem – privilegiado, como eu – lhe pode evitar.

Na Catalunha, moro no interior. E levo quase duas horas de minha casa ao meu trabalho. Lembrei-me da cara dos amigos catalães com pena de mim, por eu passar tantas horas num transporte público. Sempre com um sorriso, lhes respondo que – como nunca estiveram no Brasil; e não conhecem suas distâncias – não seriam capazes de imaginar a incomparável diferença entre o transporte público de lá e o daqui. Quando apareceu o vírus em Barcelona, a primeira medida governamental foi repensar o transporte público. Em Pernambuco, o governante que o regula – sempre em prejuízo do cidadão, do trabalhador – é o mesmo que teve a campanha eleitoral apoiada pelos donos das empresas de ônibus.

Esta manhã, em quase todos os lugares onde estive, havia uma TV ligada. E o assunto é sempre o mesmo. Já em casa, assisti uma médica especialista, brasileira, na Coreia: no mundo, existem dois tipos de países; os que aplicam o teste não somente a quem apresenta sintomas e isola (e trata) os que dão positivo. E os que adotam, depois da particular hesitação (e pressão recebida pelas bolsas de valores) de cada governante, o isolamento recomendado ou o forçoso confinamento. Na França, por exemplo, aplicaram-se multas a quem saiu de casa, sem necessidade. 

No Brasil, não há multa. Há esperança. E quem espera…

*Flávio Carvalho é sociólogo

cbrasilcatalunya@gmail.com