The Guardian revela plano do governo britânico para barrar imigrantes europeus

Jornal británico revela documento secreto do Reino Unido com política de imigração a ser aplicada após o Brexit. Regras dificultam trânsito e permanência de europeus no território

Documento secreto com planos do Reino Unido para travar a imigração de cidadão europeus depois do Brexit foi divulgado hoje (06) pelo jornal britânico The Guardian. O diário exibe na capa trechos do texto que estipula as regras para admissão de novos imigrantes e introduz mudanças para dificultar a permanência daqueles que não sejam considerados “altamente qualificados”.
O documento foi produzido pela Administração Interna do Reino Unido e contém 82 páginas. Trata-se da política de imigração que deverá ser adotada após 29 de março de 2019 e reposiciona no centro os trabalhadores britânicos.
As propostas visam cortar o fluxo anual de emigração da União Europeia — fixada numa média de 250 mil pessoas por ano — para um número “sustentável”, uma antiga reivindicação dos conservadores desde o tempo de David Cameron. Alguns analistas acreditam que com esses números algumas indústrias britânicas não conseguirão funcionar por falta de mão-de-obra.
“De forma muito direta, isto significa que a imigração tem que ser um lucro para o país todo, beneficiando quem chega, mas também melhorando o nível de vida das pessoas que já são residentes”, lê-se no texto.
Entre as propostas desenhadas pelo governo de Theresa May está uma que prevê que a residência seja oferecida apenas por um máximo de dois anos aos imigrantes sem qualificações específicas. Os que provarem ter mais qualificações — ainda não se conhece uma lista das profissões ou competências que terão prioridade — podem ficar no país por mais tempo, entre três e cinco anos.
Com as novas regras, os europeus terão que mostrar o passaporte para entrar no Reino Unido. A nova política também prevê uma espécie de “residência temporária” que lhes permita ficarem apenas alguns meses, lê-se no jornal.
As reações ao conteúdo do documento foram imediatas. Entre os trabalhistas — atualmente na oposição — Yvette Cooper disse que iria pedir satisfações aos vários ministros uma vez que o governo não esperou para ouvir as conclusões dos organismos que criou para avaliar o impacto das medidas na área da imigração.
“Este documento parece contrariar a decisão da Administração Interna, tomada há pouco mais de um mês, de pedir ao Comitê de Monitorização das Migrações toda a informação essencial à reformulação das leis de imigração”, disse Cooper.
Imediata foi, também, a resposta de Elmar Brok, uma eurodeputada alemã envolvida no grupo de negociações do Brexit, dizendo que este documento irá aprofundar o sentimento de desconfiança entre os parceiros europeus e o Reino Unido. “A linguagem áspera, a imposição de uma data limite em março de 2019 e o estabelecimento de limites de tempo à permanência de trabalhadores qualificados e menos qualificados demonstra que há falta de sensibilidade sobre o assunto. E, no fundo, estamos falando dos direitos dos cidadãos”, declarou.
O deputado conservador Charlie Elphicke disse que o voto para sair da União Europeia representou “uma instrução clara por parte do povo britânico para retomar o controle das suas fronteiras e colocar um ponto final ao descontrole da imigração que chega da União Europeia”.
Elphicke fez campanha pela permanência mas faz parte, agora, de um grupo de conservadores que pedem um “Brexit total”. Segundo o deputado, os eleitores querem uma “abordagem robusta” e “têm medo que os emigrantes com menos qualificações estejam a fazer diminuir os seus salários”.
Na reportagem, o The Guardian listou algumas das principais medidas do documento, que reproduzimos abaixo:
• Restringir a imigração dentro da União Europeia através de “dar preferência, dentro do mercado, aos trabalhadores residentes. O governo pode ainda limitar o acesso de cidadãos europeus ao mercado de trabalho, reduzir as oportunidades para que se estabeleçam no Reino Unido a tempo inteiro e limitar o número de cidadãos que podem entrar no país para realizar trabalho menos qualificado.
Acabar com as leis que preveem que os familiares, mesmo distantes, de cidadãos da União Europeia possam residir no Reino Unido. “Propomos que estas regras se apliquem apenas a familiares diretos”, lê-se no documento.
• Se um cidadão europeu quiser trazer o marido ou a mulher para o Reino Unido deverá ter que ganhar um mínimo de 18,600 libras por ano, ou cerca de 20,600 euros.
• Ao entrar no país, os cidadãos europeus poderão permanecer, sem qualquer licença, entre três e seis meses. Depois disso terá que pedir “residência biométrica”, que poderá incluir o registo por impressão digital.
• O livre movimento de pessoas já não será a norma. A permissão de residência já não é garantida aos que chegam para procurar trabalho. Será preciso ter algum dinheiro “de lado” para permanecer no Reino Unido sem trabalho, ou seja, provar que se é “autosuficiente”.

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