Polícia espanhola reativa repressão contra independentistas enquanto primeiro-ministro Pedro Sánchez é instado por eurodeputados a libertar presos políticos e empreender diálogo na Catalunha

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, se viu em uma saia justa nesta quarta-feira (16), ao discursar no Parlamento Europeu, em Estrasburgo. Convidado pelo programa “O futuro da Europa”, que leva presidentes da região para falar sobre sua visão europeia, o mandatário foi obrigado a se pronunciar sobre a Catalunha e a situação dos líderes independentistas em prisão. Também foi questionado sobre a qualidade da democracia no país. Enquanto dizia que os independentistas deveriam dislogar com o governo, a polícia espanhola realizava prisões de prefeitos e de ativistas soberanistas na cidade de Girona sem ordem judicial.
Ao entrar no plenário com muitas cadeiras vazias, Sánchez se deparou com fotos dos líderes catalães presos sob as mesas de 16 dos deputados presentes. Após sua exposição, foi aberta a rodada de intervenções que trouxe à tona o tema Catalunha.
A deputada alemã Ska Keller, dirigente do Partido Verde, fez uma eleoquente defesa dos presos catalães. “Muito obrigada pelo seu discurso. Um discurso robusto e pró-europeu. Sabemos que herdou muitos problemas, como a situação da Catalunha. O seu predecessor teve um enfoque muito rígido da questão catalã. E você a encontrou em cima da mesa. A solução deve ser política. E isso inclui uma solução para os que estão na prisão. Porque há colegas nossos do Parlamento Europeu que estão na prisão. Por uma questão pela qual não se encontrou nenhuma motivação nem na Alemanha nem na Bélgica”.
Para contestar a deputada, Sánchez disse que apesar de ter maioria no parlamento, o independentismo só tinha apoio de 48% da população. E que portanto não se podia impor um projeto político à maioria (52%). “O governo espanhol sim que tem a vontade firme de diálogo. Contudo, antes os independentistas têm que reconhecer que não dispõe de maioria social. Na Catalunha o problema não é de independência, é de convivência.
Vários outros deputados interpelaram Sánchez sobre o tema, com alguns se colocando ao lado do primeiro-ministro e outros se somando aos críticos das prisões dos líderes soberanistas. O eurodeputado francês José Bové, do Partido Verde, pediu a Sánchez que liberasse os soberanistas. “Como é possível que hoje em dia hajam deputados na prisão? Compartilho que é necessário dialogar. Se dialoga, mas sem gente na prisão. Coloque-os em liberdade e fará um ato de democracia.
Enquanto Sánchez saia pela tangente e tentava voltar ao tema para o qual foi convidado, na Catalunha a polícia espanhola prendia sem ordem judicial prefeitos e ativistas da Assembleia Nacional Catalã (ANC) e dos Conselhos de Defesa da República. Pela manhã onze pessoas foram detidas em Girona, entre eles os prefeitos das cidades de Celrà e de Verges, Dani Cornella e Ignasi Sabater, respectivamente.

Ignasi Sabater, prefeito de Verges, quando saía da delegacia após ser detido sob acusação de desordem pública

À tarde, mais cinco pessoas foram detidas, entre elas dois fotojornalistas e o sobrinho de Quim Torra, atual presidente da Catalunha. A ação da polícia foi questionada pelo fato dos detidos, acusados de suberter a ordem pública por protestos realizados em outubro passado quando foram fechadas as vias do trem de alta velocidade, não terem sido chamados a depor em nenhum momento. Depois de ouvidos, os detidos foram liberados.

Protesto na Estação de França, em Barcelona, contra prisão de políticos e ativistas soberanistas em operação da Polícia Nacional

A ação da polícia gerou indignação e culminou em protestos em várias cidades da Catalunha, realizada durante a noite. Em Barcelona, manifestantes ocupram os trilhos da Estação de França e depois seguiram em passeata até a frente da delegacia da Polícia Nacional no centro da cidade.