Manifestantes saem às ruas de diversas cidades para pedir liberdade dos integrantes dos Comitês de Defesa da República detidos em operação da Guarda Civil. Ação acontece a poucos dias do anúncio da sentença dos líderes e ativistas presos pelos feitos de outubro de 2017

Mobilizações ocorreram em diversas cidadee, inclusive na capital Barcelona

Diversas cidades catalãs estão mobilizadas em protestos nas ruas em solidariedade às nove pessoas ligadas aos Comitês de Defesa da República (CDRs) presas na manhã de hoje pela Guarda Civil sob acusação de terrorismo, sedição e posse de explosivos. A ação policial, que começou durante a madrugada em diversos municípios, está sendo vista como uma maneira de espalhar medo entre os independentistas e criminalizar o movimento a poucos dias do anúncio da sentença para os políticos e ativistas catalães presos há quase dois anos por conta da organização do referendo de autodeterminação de 1º outubro de 2017, seguido da proclamação frustrada da república. Os líderes catalães respondem as acusações de rebelião, sedição e malversação de verbas públicas.

Guarda Civil mobilizou 500 homens na operação contra supostos terroristas. Sabadell foi uma das cidades onde houve prisões e cumprimento de mandatos de busca e apreensão

São várias as razões para a desconfiança dos manifestantes, que expressaram a indignação com o que reputaram de “repressão de estado” nos 32 municípios onde se registaram protestos. Quem conhece o comportamento dos que participam das manifestações em prol da independência na Catalunha sabem que os atos realizados, inclusive os multitudinários como a Diada, se dão sempre sempre de forma pacífica. E que desde aquele outono de 2017 o estado espanhol vem aplicando uma política repressiva não apenas contra políticos e ativistas, mas também contra cidadãos comuns (cerca de 900 pessoas) através de processos judicias. Em um dos cartazes captados em foto publicada nas redes sociais o rechaço à ação e um recado ao estado espanhol: “Como mais repressão, mais vontade de independència”. 

Os CDRs, criados inicialmente para defender a realização do referendo, têm se destacado entre a cidadania pelo poder de mobilização em todo o território catalão quando da realização de protestos e paralizações em defesa da causa independentista. Além disso, o primeiro-ministro em funções Pedro Sánchez (PSOE), que está em campanha eleitoral pela reeleição, tem aumentado o tom contra o independentismo, como forma de tomar o protagonismo contra o movimento. Esse posto vinha sendo capitalizado pelas siglas de direita (Partido Popular e Cidadãos) e de extrema direita (Vox), que nas eleições de abril passado tiveram como tema principal a repressão à Catalunha.

O efetivo utilizado na ação policial contra os nove detidos chamou atenção. Um corpo de agentes formado por 500 policiais se espalhou pelas cidades de Sabadell, Mollet del Vallès, Cerdanyola del vallès. Santa Perpètua de Mogoda, Sant fost de Campsentelles, Sant Vicenç de Torrelló, Sant Pere de Torrelló e Gurb. Os meios de comunicação espanhóis foram mobilizados pela polícia, que começou a entrar na casa dos acusados antes das 6h (1h da madrugada no horário de Brasília).

A operação foi ordenada pela Audiência Nacional, sediada em Madri, com anuência do Ministério Público, que assegura que os detidos estavam preparados para atuar entre o aniversário de dois anos do 1º de outubro e o anúncio da sentença contra os políticos e ativistas presos. E que os acusados fariam parte de “um grupo terrorista separatista catalão”. Segundo o Ministério do Interior, os detidos “preparavam ações violentas” e que tinham material para causar “danos irreparáveis”. Meios de comunicação da Catalunha, no entanto, revelaram que parte do material apreendido “para fabricação de explosivos” era proveniente de um grupo de Diables – tradição cultural secular – que quando realizam seus desfiles fazem exibições com material pirotécnico.

O material apreendido teria sido óxido de ferro, nitrato de amônia e termita, uma mistura de alumínio e óxido de ferro. Que seria para fabricação de explosivos caseiros. Contudo, para tanto, especialistas relatam que faltariam amonal, amosal e Goma-2, substâncias de grande poder explosivo.

Dois dos nove detidos foram soltos no final da tarde e os outros sete foram levados para a sede do comando de Tres Cantos, em Madri, onde serão colocados à disposição judicial. O chefe do comando é Diego Pérez de los Cobos, o coronel que o governo espanhol designou como coordenador do dispositivo de mais de dez mil homens a Catalunha durante o referendo de outubro de 2017. Naquela ocasião, os agentes espancaram eleitores, deixando mais de mil feridos, e destruindo mobiliário e imóveis escolares.

“Estão tentando imputar uns delitos que de entrada não se aguentam por lugar nenhum para fazer uma atuação de frente à galeria e para atemorizar as pessoas”, disse o advogado Xavier Pellicer, do movimento alerta Solidária, que está defendendo os acusados. Para ele, a operação se trata de “um dispositivo pré-eleitoral e pré-sentença” dos líderes catalães.

 

O presidente da Catalunha, Quim Torra (JxCat), reagiu dizendo que “a repressão continua sendo a única resposta do estado”. “Estão tentando voltar a construir um relato de violência antes das sentenças. Não conseguirão. O movimento independentista é e será sempre pacífico”.

Protestos contra a ação policial também se espalharam pelas redes sociais com as hastags #NoTenimPor23s (não temos medo 23 de setembro) e #LlibertatDetingudes23S (liberdade detidos 23 de setembro). Em Barcelona, um grande efetivo bloqueou a passegem para a Caserna da Guarda Civil, na Travessera de Gràcia, onde ocorreu a manifestação na capital catalã. Nas diversas cidaddes onde houve protestos, os manifestantes pediram que “as forças de ocupação” fosssem embora da Catalunha e pediram a liberdade dos detidos.

Para acessar a mais informações e imagens sobre os protestos nas ruas das cidades catalãs acesse a reportagem em tempo real do jornal digital @vilaweb