*Por Flávio Carvalho

‘En España, los muertos están más vivos que en cualquier otro país del mundo’  (Federico García Lorca)

Em Outubro de 1936, no dia 1º, começou a ditadura franquista na Espanha, a que mais tempo ficou no poder em um país europeu. Foi o primeiro ditador do mundo a bombardear a população civil do seu próprio país, o povo catalão, em Barcelona. Fuzilou o então presidente da Catalunha, Lluís Companys. Nos anos 70, matava presos políticos, condenados à morte por uma junta militar – utilizando uma técnica da inquisição medieval, o garrote vil, criado exatamente na Espanha. Um ferro pontiagudo cravado lentamente, por trás, no pescoço do preso, amarrado a uma cadeira. Até o Papa tentou interceder para evitar essas mortes. Não conseguiu. Salvador Puig Antich, um jovem de apenas 26 anos, morreu no garrote vil, em 1974, um ano antes da morte do ditador.

Em Outubro de 2017, mais de dois milhões de catalães atenderam a um chamado das urnas. Havia elegido um governo e a maioria do seu Parlamento, com um mandato único e claro: fazer um referendo para saber de uma vez por todas quem diz a verdade sobre os números. A única solução possível, quando não se trata de matemática pura: contar, votar. Tal como já se fez no Canadá, no Reino Unido e como se costuma fazer na maioria dos países modernos.

O Governo da Catalunha afirma que a maioria (80% dos catalães, segundo todas as pesquisas de opinião pública) quer votar para opinar sobre o seu próprio futuro, monarquia ou república, em resumo. O Governo catalão colocou urnas à disposição da população. O Reino da Espanha diz que mente o governo catalão. Mas não aceita contar, votar, pois sabe que perderá. Preferiu mandar a polícia espanhola para novamente humilhar e intimidar os catalães, com forte violência e repressão.

Colocou presos políticos na cadeia, com penas duríssimas que ultrapassam a pena de crimes comuns como estupro e tentativa de homicídio. Igual a Franco, o ditador que hoje mesmo será desenterrado do mausoléu que obrigou os seus presos políticos a construir para ele, nos anos da ditadura. Os mesmos presos que os fascistas obrigavam a cavar sua própria tumba, antes de serem fuzilados, na frente dos seus filhos, pais, mães, maridos e esposas.

Transfêrencia dos restos mortais do ditador Franco

O atual presidente da Espanha (Pedro Sánchez) chegou ao ridículo de não atender as ligações telefônicas do Governo da Catalunha – como se fosse um menino malcriado. Como se não fosse o presidente de um reino, representado por um monarca de uma dinastia medieval, de um país que depende hoje significativamente de suas relações econômicas com o Brasil. A Espanha é o nosso segundo maior inversor privado – em nível mundial. O que quer dizer que suas empresas lucram milhões de Euros, cada dia, do nosso Brasil.

Os catalães saem às ruas, ano após ano, pacificamente, para protestar. O Reino só tem uma resposta: criminalização do direito de protesto, prisões, repressão, violência policial. O mundo inteiro, líderes políticos internacionais, grandes meios de comunicação, organismos da ONU, grandes artistas, escritores de grande sucesso, esportistas de elite, a bancada de esquerda do Parlamento Europeu, juristas de prestígio… Todos exigem DIÁLOGO do Presidente Espanhol, em mais um fenômeno mundial nas redes sociais: #SpainisaFascistState (Espanha é um Estado Fascista) ou #spainsitandtalk (Espanha, Sente e Fale), trending topic mundial. 131 grandes manifestações já realizadas em todos os países dos cinco continentes. E mais de uma centena ainda programadas para realizar-se.

Pela primeira vez, hoje, os empresários, o capitalismo catalão pronunciou-se: exige do Reino uma mesa urgente de negociação. O Governo da Catalunha faz tempo que já condenou a violência e se dispôs a sentar e falar, dialogar, negociar.  A Espanha cada dia inventa uma nova desculpa, ou repete as velhas, descaradamente, para não negociar. No fundo, insiste para que os catalães deixem de sentir o que sentem, que joguem a poeira novamente pra debaixo do tapete da história.

O partido que atualmente governa a Espanha, em plena campanha eleitoral, não aceita o mínimo dos mínimos em democracia: sentar-se e falar. Todas as pesquisas eleitorais dizem que cresce o voto fascista na Espanha. Violência policial dá voto. O partido de ultradireita, VOX, é o partido que mais cresce, proporcionalmente, na Espanha. Na Catalunha, pelo contrário, o partido Esquerda Republicana é o que mais cresce. Porque será?

Sábado, dia 26, como a cada dia, desde que saiu a sentença política contra os presos catalães, sairemos novamente a protestar, milhares de pessoas, pacificamente, nas ruas. Mas, atenção! Os grandes meios de comunicação espanhóis, como o El País e tantos outros, somente divulgarão imagens de vandalismo. Não divulgarão as gravações inéditas e impressionantes dos próprios cidadãos de Barcelona, que comprovam que há infiltrados, da própria polícia política espanhola (claro! Tal qual na ditadura franquista) aproveitando a cara tapada para infiltrar-se no meio de todo um povo indignado, revoltado, mas de cabeça, erguida, de pé, com dignidade.

Venceremos!

*Flávio Carvalho é sociólogo, radicado em Barcelona

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