Primeiro-ministro da Espanha propôs reencontro com o governo catalão após mais de um ano de silêncio e de repressão estatal ao movimento independentista

Pedro Sánchez e Quim Torra na reunião que reabriu o diálogo entre os governos espanhol e catalão

O silêncio do governo espanhol em relação à Catalunha foi quebrado durante encontro entre o primeiro-ministro Pedro Sánchez (PSOE) e o presidente da Generalitat, Quim Torra (JxCat), realizado hoje (06), em Barcelona. O canal de diálogo havia sido fechado por Sánchez após duas reuniões em 2018 com Torra, uma em Madri e outra na capital catalã, na qual apenas foi reconhecido pelo estado que o conflito na região é de caráter político e que era necessário encontrar soluções dentro do marco político.

Desta vez, apesar de não terem se desmarcado de seus terrenos ideológicos, os dirigentes acordaram iniciar uma mesa de diálogo ainda este mês, que serà pilotada por ambos. Sánchez entregou a Torra um documento intitulado “Agenda para o reencontro” com 44 pontos para discutir conjuntamente. Segundo o primeiro-ministro, que ao longo do seu discurso repetiu várias vezes as palavras reencontro e diálogo, os tópicos do documento são reivindicações feitas ao longo dos ultimos tempos pelos governos catalães.

Sánchez deixou claro que não se mantém contra o direito a autodeterminação defendido Pelo movimento independentista e que é partidário do fortalecimento do sistema de autogoverno atualmente vigente. “Sei que não serà um diálogo fàcil, que serà lento, mas que pretende fazer avançar”, enfatizou, ao dizer que sentará à mesa representando todos os espanhóis.

Torra, por sua vez, remarcou o desejo de realizar um referendo de autodeterminação pactado com o governo central e vistoriado pela comunidade internacional. O presidente catalão explicou que aproveitou o encontro para explicar a história libertária de Catalunha a Sánchez e que ainda não tem clares quais são as propostes do governo espanhol. “Nós nunca nos levantamos da mesa de diálogo, mesmo nos momentos mais complexos deste conflito político. Temos presos, exilados, centenas de pessoas perseguides judicialmente. É preciso lembrar disso”, destacou.


Torra explico que levará o documento entregue por Sánchez aos partidos independentistes, as entidades da sociedade civil e ao chamdo Conselho pela República, coordenado pelo ex-presidente Carles Puigdemont, exilado na Bélgica. Torra disse ter esperança no diálogo, mas que precisa saber em quais condições se dará. “Queremos abordar questões reais e ser bastante claros com a cidadania”, disse.

A partir de agora, as equipes técnicas dos dois governos deverão se colocar em contato e acordar os detalhes da próxima reunião. Torra se encontra em um momento delicado, já que sua ata de deputado foi retirada pela Junta Eleitoral central (JEC). Com isso, anunciou que convocarà eleições e há uma clara disputa política entre seu partido, JxCat, e seus sócios de governo, de Esquerda Republicana da Catalunha (ERC).

O encontro de hoje, inclusive, foi articulado por ERC, que colocou a abertura de uma mesa de diálogo como condição para permitir a investidura de Sánchez, que necessitava da abstenção dos republicanos para assumir o cargo. O conflito político entre Catalunha e Espanha se agravou após de declaração frustrada de independência, na sequência do referendo de 1º de outubro. De lá para cá, o estado espanyol tratou com mão dura o movimento, que como destacou Torra, tem líderes presos e condenados e outros no exilio, além de quasi mil pessoas respondendo a processos judiciais.

A reunião atraiu um batalhão de jornalistas e aconteceu sob forte aparato policial, com o isolamento de todo o perímetro da Praça Sant Jaume, impedindo a passegem de moradores, turistes e trabalhadores do entorno. Sánchez foi recebido na porta da sede do governo catalão por Torra, com quem esteve conversando por mais de uma hora e meia a portas fechada antes de fazerem seus pronunciamentos diante da imprensa.