*Por Flávio Carvalho

Não há luz no fim do túnel. Não há túnel. A luz está aqui. Em nós.

 “Ali, onde o olhar é oco; É a voz da luz que fala; Luz das ceguinhas do coco; Iluminando esta sala” (Gilberto Gil). Ç

Flávio Carvalho reflexiona sobre projetos socioculturais de brasileiros no exterior

Parece título de texto de autoajuda, mas é de ajuda mútua. Solidariedade diante das adversidades. Buscar saídas coletivas, além das individuais.

Não estamos entrando em uma nova crise econômica mundial. A crise de 2008 ainda está aqui. A Pandemia somente a revelou, com toda a sua força. Desgraçadamente.

É hora de forçar a memória coletiva. Triste mania temos, todas nós, de esquecer tão rápido das coisas mais tristes que passamos nas nossas vidas.

No ano 2009, havia explodido a bolha imobiliária (no ano anterior) e tínhamos alguns desafios, as brasileiras no exterior:

Juntarmo-nos mais. A isso não restava alternativa.

Convencer o imaginário nacional brasileiro, o famoso senso comum, de que na Europa havia brasileiros pobres, dormindo na rua e enfrentando graves dificuldades. Que aqui não estávamos todos no paraíso, evitando comparações que nivelassem por baixo nossos eternos infernos brasileiros.

Dar-nos conta de que não adiantava ficar esperando do Brasil aquilo que devemos exigir dos governos daqui: respeito aos nossos direitos mais básicos.

Esse último ponto remetia a outra dificuldade. Por repetirmo-nos a imensa frustração de achar que não adiantava exigir (diferente do conformista verbo pedir). Pensávamos algumas de nós que seria perda de tempo insistir naquilo que o governo nunca iria nos ajudar – e olhe que estamos falando de um governo que pelo menos não se assumia como fascista, como hoje. Autocensurávamo-nos antes de reivindicar: “não adianta, não vai dar certo”… Do jeito que os governos conservadores adoram.

Decidimos então fazer aquelas três coisas: articulamo-nos em rede, de forma organizada e fizemos de Barcelona uma capital mundial de reivindicação das artistas, mestres de capoeira, pesquisadoras, empreendedoras, brasileiras no exterior; partimos ao desafio de sensibilizar a opinião pública brasileira, com uma lamentável e amaldiçoada estratégia (o Brasil sempre escuta melhor o que vem da Europa do que aquilo que o próprio Brasil lhe diz e descobrimos que contávamos entre nós com um conjunto de jornalistas brasileiras emigradas, com altíssima qualificação) e batemos – com força! – na porta do governo. No nosso caso, as representações diplomáticas do governo brasileiro no exterior.

Não sem antes tentar falar diretamente com quem “mandava”. Lembro a visita que fizemos a um senhor, já falecido, chamado Marco Aurélio Garcia. Todos diziam que sobre o Brasil no exterior, o Presidente da República o escutaria melhor, ao assessor Marco Aurélio, que ao próprio Ministro das Relações Exteriores.

Tempos depois, recebemos das mãos do Cônsul-Geral do Brasil em Barcelona um telegrama onde ele comunicava à Brasília haver aberto as portas do consulado para um grupo de voluntários brasileiros dispostos a ajudarem-se mutuamente e à comunidade. O que ele considerava, por escrito, uma ajuda importante ao papel que ele desempenhava e que nossa diáspora (até aquele dia eu nunca havia pensado nessa expressão) tanto necessitava.

Eu trabalhava de gari, varrendo rua, quando recebi convite para acompanha-lo à 1ª Conferência Brasileiros no Mundo. Participamos juntos do Grupo Temático de Cultura. E percebemos a importância da cultura brasileira não somente como “animadora de festas”. Não tenho a menor dúvida de que a Capoeira, lá no suntuoso Palácio do Itamaraty, com toda a ancestralidade que representa, foi e seguirá sendo fundamental, naquele momento e sempre.

Foi assim que aprendemos algumas lições, que esperamos servir para estes dias.

  1. Em um país, a Espanha, que investe e ganha muito dinheiro privado com o Brasil, as representações diplomáticas poderiam servir de ligação entre nós, as associações e os projetos socioculturais, e – do outro lado – os empresários locais, ávidos por associarem suas marcas e empresas a esse produto infinito e inesgotável chamado Brasil (mesmo em tempos de crise; ou, aliás, principalmente em tempos de crise, quando “naturalmente” só eles sabem como aumentam de forma extraordinária seus próprios lucros). Descobrimos que existe uma coisa chamada Carta de Recomendação assinada pelo representante do Governo do Brasil que nos abria algumas portas, embora não garantisse encontrar ouro detrás dessas mesmas portas. Em tempos de crise, já era alguma coisa. Tudo que para o governo não parecia importante, para nós era algo que potencializava nossa ajuda. Recordo uma empresa catalã, com forte presença no Brasil, que alugou todo o majestoso Palau de la Música Catalã e um show brasileiro para sua festa de confraternização – mal organizado, mas essa é outra história; que, por certo, também nos compete seguir falando.
  2. Descobrimos que havia pequena dotação orçamentária para apoio a projetos socioculturais e que fizessem a promoção da língua portuguesa no exterior. Enfim, achamos a tal rubrica orçamentária! Com o único argumento de que era pouquíssimo dinheiro, chegava atrasado e às vezes nem chegava, não conseguiram nos remover da ideia de que na crise, qualquer centavo ajuda: em terra de cego quem tem um olho é rei. Quatrocentos euros de ajuda ou de aluguel significa não dormir na rua, dizia uma companheira artista que sabia muito bem do que falava, ela e sua família.
  3. Com o advento das redes sociais, encontramos nas plataformas de divulgação do próprio governo (páginas web, Facebooks dos consulados, listas de difusão…), em cada país, o mínimo de publicidade que qualquer atividade, festa, show, projeto etc. necessitava para chegar ao nosso grande público: não somente à nossa comunidade, mas a uma quantidade imensa de não brasileiros que sabe que um sambinha ou uma bossa-nova servem pra aliviar qualquer dia de crise. Esperança mais que necessária.
  4. Não foi de outra forma que descobrimos que existiam ainda pouquíssimas datas onde se podia fazer um pedido especial de orçamento suplementar: as famosas datas cívicas, tendo no Dia da Independência, o Sete de Setembro, como melhor exemplo. Só faltava agora repetir o erro de não contratar pessoas da nossa comunidade e sim empresas locais, não brasileiras. Sem bairrismo nem xenofobia, por favor. Mas a César o que é de César. Na Alemanha, uma festa de São João, em traje a rigor, foi animada por um grupo de ópera alemão. Aqui, uma cooperativa espanhola, por exemplo, contratou toda uma Escola de Samba pra um evento brasileiro. Mais simples impossível. Noutro dia, em Madri, a Embaixada do Brasil articulou importante reunião na Casa do Brasil, na Capital da Espanha. Compareci como Vice-presidente do Conselho Mundial de Representantes e a Embaixada apresentou-nos, significativa comitiva, aos altos cargos representantes do Ministério da Cultura da Espanha, que por sua vez nos apresentou projetos específicos de medidas sociais de fomento à cultura em tempos de crise. Não me sai da cabeça a afirmação do Ministro da Cultura da Espanha, amigo do então Ministro brasileiro Gilberto Gil: “em tempos de crise, esse país, o Brasil, sempre terá diante dos próprios olhos o seu principal produto de exportação ao mundo. A diversidade sociocultural”.

Evidentemente, a cultura como oportunidade; e não como ameaça, – assim como é hoje vista, para quem ainda acredita (como na Idade Média) que a terra é plana. São outros tempos? A luta é a mesma…

Pois, sinceramente, não faz muito tempo. O ano de 2008 foi ontem. Pra que serve, então, a história? Somente pra esquecer?

*Flávio Carvalho (@1fláviocarvalho), colaborador do Blog Mundo Afora, é sociólogo e escritor.