Mais de 750 mil pessoas clamam em Barcelona pela liberdade dos secretários e líderes soberanistas que estão presos em Madri, mostrando que independentismo está de pé apesar da repressiva reação espanhola para conter o movimento 

Um dos momentos mais bonitos da manifestação, que ocupou trajeto de 3,3 quilômetros da avenida Marina, foi quando multidão acendeu luzes em solidariedade aos presos políticos e ao governo exilado em Bruxelas

Gritos de “liberdade, liberdade” ecoaram nos 3,3 km de extensão da avenida Marina, em Barcelona, entoados por uma multidão estimada em 750 mil pessoas. Os manifestantes foram à rua pedir a soltura dos oito membros do governo e dois líderes soberanistas presos em Madri por ordem da justiça espanhola acusados de sedição, rebelião e prevaricação por conta da proclamação da república ocorrida em 27 de outubro passado. Pelo que se viu no ato, a repressão espanhola não atemoriza nem faz baixar a cabeça dos catalães, que também defendem a república e a legitimidade do governo de Carles Puigdemont, exilado em Bruxelas com quatro dos seus secretários.

Multidão que pediu liberdade para presos políticos também gritava que Carles Puigdemont, exilado em Bruxelas, é seu legítimo presidente

Na linha de frente estavam familiares e amigos dos presos, de Puigdemont e dos secretários que estão com ele na Bélgica. Eles seguiram até o cruzamento com a avenida Icária, onde estava instalado o palco. Ao chegarem, foram recepcionados com luzes acesas pelos manifestantes, que silenciaram para ouvir a apresentação de uma orquestra de violocenlistas. Após a exibição do vídeo com a famoso discurso do músico Pau Casals, na ONU, no ano de 1971, chamado “Eu sou catalão”, se deu um dos momentos mais emotivos do ato. Foi quando os familiares subiram ao palco e leram cartas enviadas pelos presos ao povo da Catalunha.

Familiares protagonizaram momento de emoção ao lerem cartas enviadas da pelos parentes presos pelo governo espanhol

Ana Forn, filha de Joaquin Forn, da pasta de Interior, foi a primeira a falar. Na sequência parentes e amigos dos secretários Mertixell Borràs, Carles Mundó, Josep Rull, Dolors Bassa, Raül Romeva, Jordi Turull, do vice-presidente Oriol Junqueras, e dos presidentes da Òmnium, Jordi Cuixart, e da Assemblea Nacional Catalã (ANC), Jordi Sànchez, leram as mensagens.
Na sua carta, lida pela filha Abel, Jordi Sànchez (ANC) recordou que “o compromisso da Catalunha com a liberade vem de longe”. Também se mostrou convencido que se chegará ao destino final com vitória. Sànchez encorajou a cidadania a “perseverar” com a mesma atitude e dignidade. “A liberdade chegará porque somos muitos a contradizer o autoritarismo e a desejar um novo país em forma de República”, concluiu.
“O povo não falha nunca”, escreveu Jordi Cuixart, na mensagem lida pela sua esposa, Txell Buret. “Se chegamos até aqui, imaginem onde podemos chegar”. Cuixart remarcou a força do soberanismo unido dentro da diversidade, dizendo que ninguém deve renunciar ao futuro. “Os grandes obstáculos são para grandes espíritos”.

No telão instalado no palco, foram exibidas as mensagens de Carles Puigdemont e dos secretários Toní Comin, Clara Ponsatí, Lluís Puig e Meritxell Serret. O líder catalão recomendou à Europa que fosse escutado esse grito “unitário, alto e claro” que quer liberdade e democracia. Ao mesmo tempo, pediu que os presos políticos retornem à casa e agradeceu pela mostra de confiança e pela mobilização permanente. Sua mensagem foi respondida com gritos de “Puigdemont, nosso presidente” e “Viva a república”.
O vice-president da ANC, Agustí Alcoberro, uma das entidades organizadoras do ato, disse é uma vergonha que o estado espanhol mantenha presos políticos. O que só demonstra a “deriva autoritária do reino da Espanha”. Alcoberro disse que a forma de agir do estado espanhol vem dando margem à violência fascista que vem se manifestando de forma preocupante no território catalão. “Feitos que tem gerado novas formas de repressão”. Contudo, destacou que “a Catalunha popular renasceu com toda sua força e vitalidade”.
Marcel Mauri, vice-presidente de Òmnium, destacou a legitimidade do governo catalão, assim como também da mesa do Parlamento. Criticou o estado espanhol, que ao seu ver, “só sabe ameaçar e atuar com vingança”.

A manifestação teve início às 17h45, após a formação das tradicionais torres humanas de dois grupos de castellers (castelos, na foto). E seguiu pela avenida arrancando aplausos das pessoas que já se concentravam desde o meio-dia ao longo do trajeto. Mais de mil ônibus foram fretados para transportar aqueles que vieram de cidades do interior.