Atual primeiro-ministro Pedro Sánchez (PSOE) tenta obter maioria no Congresso nas eleições deste domingo sem os independentistas, que foram demonizados durante a campanha pelos partidos de direita e de extrema direita

Espanhóis decidem hoje formação do Congresso que elegerá novo primeiro-ministro com questão catalã no centro do debate político

Neste domingo, 28 de abril, a Catalunha ocupa mais uma vez o centro do debate da política da Espanha quando se realizam as eleições para escolha dos deputados e senadores do Congresso Nacional. Muitas interrogações permearam o debate eleitoral do pleito no qual o primeiro-ministro Pedro Sánchez (PSOE) tenta buscar maioria para governar sem depender dos independentistas. Estão no páreo Pablo Casado (PP), Albert Rivera (Cidadãos), Pablo Iglesias (Podemos).

Pedro Sánchez (PSOE), Pablo Casado (PP), Albert Rivera (Cidadãos), Pablo Iglesias (podemos) e Santiago Abascal (Vox)

Os partidos soberanistas foram chave para que Sánchez aprovasse a moção de censura há dez meses atrás, derrubando o então primeiro-ministro Mariano Rajoy (PP). Também provocaram a antecipação das eleições deste domingo, ao não aprovarem os orçamentos socialistas, insatisfeitos a falta de diálogo do novo governo espanhol. Sànchez voltou as costas à demanda de debater o direito à autodeterminação e se mostrou insolidário com a situação dos líderes presos – que estão sendo julgados – e aos exilados que há um ano e meio tentaram culminar o processo de separação.

Durante toda a campanha o protagonismo dos independentistas foi mantido, com os dois partidos de direita – PP e Cidadãos – usando constantemente essa incipiente negociação como arma contra o líder socialista, favorito nas pesquisas. Discurso amplificado pelo partido de extrema direita Vox, que hoje pode garantir o acesso ao parlamento espanhol por conta da campanha na qual destilou um discurso de ódio contra os catalães. “A Catalunha é o centro da eleição, principalmente para a direita”, afirma José Ignacio Torreblanca, diretor em Madri do centro de reflexão European Council on Foreign Relations, em entrevista publicada pela revista brasileira IstoÉ.

Os debates eleitorais realizados na última semana da campanha, nas últimas da segunda e terça-feira, foram um fiel retrato de como se desenha a disputa. “Você está refém daqueles que querem dividir a Espanha. É um perigo público”, alfinetou Casado a Sánchez durante um dos debates. Em seguida,  Rivera o acusou de governar “para aqueles que querem acabar com a Espanha”. Em paralelo, em uma praça de touros lotada nas redondezas de Madri, o líder de Vox, Santiago Abascal, reivindicava seu “movimento patriótico e cultural pela defesa da Espanha contra os separatistas”.

O surgimento deste partido nas eleições regionais de dezembro passado na Andaluzia, com um discurso muito hostil ao separatismo e de defesa da identidade espanhola, levou a campanha dos conservadores para a questão territorial.

Diante dos ataques constantes da direita, Sánchez repete que não negociará um referendo de autodeterminação na Catalunha – “não é não”, reafirmou esta semana – e tenta desviar a atenção para o crescimento da extrema direita.“O único partido que pode vencer os três de direita (…) é o Partido Socialista”, garantiu no debate.

Contra sua “política anti-inflamatória” na Catalunha, como a batizou o ministro das Relações Exteriores Josep Borrell, os partidos de direita apostam em uma nova aplicação do artigo 155 da Constituição, utilizado em outubro de 2017 para suspender o autogoverno regional.

“A maior diferença entre esquerda e direita hoje na Espanha é o grau de excitação em relação à questão nacional”, afirma Joan Botella, cientista político da Universidade Autônoma de Barcelona. “A direita está superempolgada, enquanto a esquerda aposta na tranquilidade”, acrescenta.

Na Catalunha, os partidos independentistas tentam conquistar a maioria dos votos, embora tenham preferido concorrer em separado, sem alianças. As pesquisas apontam para uma vitória dos socialistas, representados pelo PSC, ou de Esquerda Republicana (ERC), que apresentou um discurso mais moderado que Juntos por Catalunha, liderado pelo ex-presidente Carles Puigdemont, que comanda a sigla da Bélgica, onde está exilado.

Preso e sendo julgado por rebelião pela tentativa de separação em 2017, o líder de ERC, Oriol Junqueras, já insinuou seu futuro apoio aos socialistas. Até agora, contudo, o apoio separatista tem-se mostrado volátil e desgastante para os socialistas.

As mesas eleitorais fecham ‘às 20h e espera-se ter ainda hoje o retrato do novo Congresso espanhol, com a divulgação dos resultados até o final da noite. Como se trata de um sistema parlamentarista, para que o novo primeiro-ministro seja eleito é necessário passar pelo crivo dos novos deputados. A primeira votação para escolher o mandatário ocorre depois da posse dos congressistas e pode se dar em primeira ou segunda votação. Na primeira é preciso maioria dos votos e na segunda apenas maioria simples, ou seja, 50% dos votos mais um. O candidato a ser investido é indicado pelo rei após conversas com todas as formações políticas com representação no Congresso.